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29 janeiro 2025

O CREDO APOSTÓLICO

Por Emil Brunner

Este Symbolum Apostolicum não foi, como seu nome diz e como se acreditava, composto pelos apóstolos, antes é fruto de um longo desenvolvimento iniciado em meados do século II, passou por uma série de formas materialmente divergentes, tomando finalmente a forma que conhecemos no final do séc. V. Reconhecemos desde o início seu alto valor como o Credo que une todas as igrejas cristãs, e que acima de tudo prestou serviço inestimável na luta contra as heresias gnósticas, porque dá expressão inequívoca à verdade de que a fé cristã é fé no Deus que se revelou através do Espírito Santo na pessoa de Jesus, como as narrativas evangélicas testemunham dele e como a comunidade cristã o reconheceu desde o início como Kyrios Christos. Neste sentido, podemos reconhecer o Credo Apostólico como excelente expressão da fé cristă no sentido do Novo Testamento, dizendo brevemente o essencial.

Mas, frente a isto, devemos descrevê-lo não apenas como inadequado, mas também como enganoso, na medida em que nomeia uma série de "fatos" da vida de Jesus, que em parte não pertencia à pregação apostólica; e acima de tudo porque os representa como fatos a serem cridos, sem deixar claro que eles são "fatos da salvação" como coisas que aconteceram "para nós". Nisto, o Credo Apostólico levou a cristandade a um falso caminho que descrevemos como "crença em fatos" e ao mesmo tempo faz da confissão da fé uma "lei da fé". Logo aparece a expressão lex fidei, conceito através do qual a alegre mensagem dos Apóstolos, que nos liberta da lei, é ela mesma transformada novamente em lei. Por outro lado, não diz uma única palavra sobre um assunto que foi de importância decisiva para os apóstolos desde o início da sua pregação, ou seja, que este Jesus encontra-se em continuidade histórica com a revelação do Velho Testamento e com a história salvífica. O elemento da história salvífica e o elemento existencial recebem nela apenas uma ênfase inadequada.

Isto significa que a palavra "creio" tem significado diferente daquele da pregação dos apóstolos. O Credo Apostólico não diz uma única palavra quanto a principal preocupação do Novo Testamento, o amor de Deus que vem ao nosso encontro no ato de reconciliação de Deus. O perdão dos pecados, que, junto com a mensagem de esperança sobre a vinda do Reino de Deus, forma o centro da Bíblia, é mencionado apenas na terceira seção como um apêndice, por assim dizer; a esperança do Reino vindouro aparece apenas na forma de "vir para julgar" e a vida eterna como último acréscimo; não é apresentada em associação essencial e necessária com a fé em Cristo, não segue inevitavelmente, como em Paulo, da justificação pela fé. Se perguntássemos a um dos apóstolos se reconheceria nesta formulação a preocupação central da sua mensagem, a resposta seria um enfático "Não". Os Apóstolos estavam preocupados com algo bem diferente, com a auto-comunicação do amor de Deus em Jesus Cristo, Seu Ato e Palavra como fundamento da nossa esperança no vindouro Reino de Deus. Como o Credo Apostólico, enumerando uma série de fatos a serem considerados, fez com que pistis degenerassem em fé nos fatos; por isso, ao não mencionar o ato de reconciliação, favoreceu o desenvolvimento errado do dogma ao longo de linhas especulativas.


Emil Bunner, DOGMÁTICA: a doutrina cristã da igreja, da fé, e da consumação. Vol. III, tomo 2. São Paulo: Fonte Editoral, 2020. p. 164-166.

26 junho 2013

EM PARTE CONHECEMOS


Por Russel Norman Champlin
"Porque em parte conhecemos
e em parte profetizamos"
(Paulo - 1Coríntios 13:9)


Nosso conhecimento é parcial, até mesmo com a ajuda dos mais elevados dons da sabedoria e do conhecimento. 

Essa admissão e declaração, feitas pelo apóstolo, deveria ensinar-nos a sermos cautelosos quando cercamos a Deus com os nossos dogmas, como se, já sabendo tudo quanto tem importância, não precisássemos mais de fazer qualquer pesquisa honesta pela verdade. 

A tendência da religião ortodoxa é olvidar-se desse grande fato, apodando de heterodoxa qualquer opinião que não se adapte facilmente dentro dos limites dos dogmas já aceitos. 

Da covardia que teme novas verdades,
Da preguiça que aceita meias-verdades,
Da arrogância que conhece toda a verdade,
Oh, Senhor, livra-nos.
(Arthur Ford)
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Trecho de
O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo - Russel Norman Champlin - Pág. 210.

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24 novembro 2012

JESUS EXISTIU?


Por Bart D. Ehrman

Em uma sociedade em que as pessoas ainda afirmam que o Holocausto não aconteceu, e em que há afirmações contundentes de que o presidente americano é, na verdade, um muçulmano nascido em solo estrangeiro, é alguma surpresa aprender que a maior figura da história da Civilização Ocidental, o homem sobre quem foi construída a mais poderosa e influente instituição social, política, econômica, cultural e religiosa do mundo – a Igreja Cristã – o homem que é adorado, literalmente, por bilhões de pessoas hoje – é alguma surpresa ouvir que Jesus nunca sequer existiu?

Essa é uma afirmação feita por um grupo pequeno mas crescente de escritores, blogueiros e viciados em internet que chamam a si mesmos de mitologistas. Esse grupo extraordinariamente vociferante de negativistas sustenta que Jesus é um mito inventado para propósitos nefastos (ou altruístas) pelos primeiros cristãos, que modelaram seu salvador através da linhagem divina de um homem pagão que também nasceu de uma virgem em 25 de dezembro, que também fez milagres, morreu como expiação pelo pecado e foi, então, ressuscitado dos mortos.

Poucos desses mitologistas são realmente estudiosos formados em História Antiga, religião, estudos bíblicos ou qualquer campo similar, sem falar nas línguas antigas geralmente estudadas por quem quer dizer alguma coisa com algum grau de autoridade sobre um professor judeu que (supostamente) viveu na Palestina do primeiro século. Existem algumas exceções: das centenas – milhares? – de mitologistas, dois (que eu saiba) realmente têm doutorado e credenciais em áreas relevantes de estudo. Mas mesmo tendo isso em conta, não há um único mitologista que ensina Cristianismo Primitivo ou até mesmo as civilizações da Antiguidade Clássica em alguma instituição de ensino superior respeitada no mundo ocidental. E não é de se admirar o porquê. Essas opiniões são tão radicais e tão pouco convincentes para 99,99 por cento dos verdadeiros especialistas daquela área como seria para eles pegarem uma vaga de emprego em um respeitado departamento de Religião como criacionistas ou como defensores da formação do mundo em seis dias num departamento de Biologia.

Por que, então, o movimento mitologista vem crescendo, com defensores tão confiantes de suas opiniões e contestações – mesmo bem articuladas – em sua radical denúncia da ideia de que Jesus realmente existiu? É, em grande parte, porque esses que negam [a existência de] Jesus são os mesmos que denunciam a religião – um tipo de pessoa que agora está muito na moda. E que melhor maneira de caluniar a visão religiosa da grande maioria das pessoas do mundo ocidental, que se mantém, apesar de tudo, predominantemente cristã, do que a alegação de que o fundador histórico de sua religião era, na verdade, o produto da imaginação de seus seguidores?

Mas a visão dos fundadores era diferente. A realidade – triste ou salutar – é que Jesus era real. E este é o tema de meu novo livro, “Jesus existiu?”.

É verdade que Jesus não é mencionado em nenhuma fonte romana de sua época. Mas isso não deveria ser contabilizado para se negar sua existência, uma vez que essas mesmas fontes quase não mencionam ninguém de sua época e lugar. Nem mesmo o famoso historiador judeu, Josefo, ou até, mais particularmente, a figura mais poderosa e importante de sua época, Pôncio Pilatos.

Também é verdade que as nossas melhores fontes sobre Jesus, os Evangelhos, estão cheias de problemas. Eles foram escritos décadas após a vida de Jesus por autores tendenciosos que estão em desacordo uns com os outros em cada linha. Mas os historiadores nunca podem descartar fontes apenas porque elas são tendenciosas. Você pode não confiar na visão de Rush Limbaugh de Sandra Fluke, mas ele certamente fornece evidências de que ela existe.

A questão não é se as fontes são tendenciosas, mas se fontes tendenciosas podem ser usadas para fornecer informação histórica confiável, uma vez que o joio tendencioso é separado do cerne histórico. E os historiadores têm buscado meios de fazer isso.

Com relação a Jesus, temos numerosos relatos independentes de sua vida nas fontes por trás dos Evangelhos (e os escritos de Paulo) – fontes que foram originalmente escritas em aramaico, a língua nativa de Jesus, e que podem ser datadas dentro de apenas um ano ou dois de sua vida (antes de a religião cristã ser mudada para converter os pagãos). Fontes históricas como essas são bastante surpreendentes para figuras antigas de qualquer tipo. Além disso, temos escritos relativamente extensos de um autor do primeiro século, Paulo, que adquiriu sua informação da vida de Jesus dentro de alguns anos e que sabia, em primeira mão, de Pedro, o discípulo mais próximo de Jesus e de seu próprio irmão Tiago. Se Jesus não existiu, você pensaria que seu irmão saberia.

Além disso, a afirmação de que Jesus foi simplesmente inventado não se sustenta. Os alegados paralelos entre Jesus e os deuses-salvadores “pagãos” na maioria dos casos residem na imaginação moderna. Não sabemos quantos outros nasceram de uma virgem, morreram como expiações pelo pecado e, em seguida, foram ressuscitados dos mortos (apesar do que os sensacionalistas afirmam ad nauseum em suas propaladas versões).

Além disso, aspectos da história de Jesus não teriam simplesmente sido inventados por quem deseja fabricar um novo salvador. Os primeiros seguidores de Jesus declararam que ele era um Messias crucificado. Mas antes do Cristianismo, não havia absolutamente nenhum tipo de judeu que pensava que haveria um futuro messias crucificado. O Messias era pra ser uma figura de grandeza e poder que derrotaria o inimigo. Qualquer um que quisesse inventar um messias faria dessa forma. Por que os cristãos não fariam também? Porque acreditavam especificamente que Jesus era o Messias. E eles sabiam muito bem que ele foi crucificado. Os cristãos não inventaram Jesus. Eles inventaram a ideia de que o Messias tinha de ser crucificado.

Alguém pode escolher repetir as preocupações de nossos menosprezadores culturais modernos e pós-modernos da religião institucionalizada (ou não). Mas, certamente, a melhor maneira de promover qualquer agenda desse tipo é negar o que virtualmente todos os historiadores sensatos do planeta – cristãos, judeus, muçulmanos, pagãos, agnósticos, ateus, o que for – concluíram baseados em uma gama de evidências históricas convincentes.

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Resenha do livro "Did Jesus Existed?" (Jesus Existiu?) escrito por Bart D. Ehrman, mas ainda não publicado no Brasil. 
Bart Ehrman é um historiador e teólogo norte-americano que tem se destacado como um dos principais estudiosos do cristianismo primitivo, tendo se doutorado pela Universidade de Princeton e atualmente sendo docente da Universidade da Carolina do Norte. Alguns de seus livros já foram lançados em português, como "O que Jesus Disse? O que Jesus não Disse?", "Quem Jesus foi? Quem Jesus não foi?", "Pedro, Paulo e Maria Madalena", "Evangelhos Perdidos", entre outros. Como agnóstico declarado, sua firme posição em assegurar que Jesus existiu causou grande incômodo entre aqueles que negam sua existência.
O texto foi traduzido por Betone Souza e compilado de seu blog.
Veja o texto original em inglês clicando aqui.

01 outubro 2012

COMO O PASTOR DESTRÓI A SI MESMO

Por Frank Viola

O moderno pastor prejudica não apenas o povo de Deus, ele prejudica a si mesmo. A posição de pastor, de uma forma ou de outra, atrofia os que assumem essa função. As freqüentes depressões, vazio, estresse, e o desequilíbrio emocional são terrivelmente constantes entre os pastores. Nesse momento há mais de 500 mil pastores servindo nas igrejas nos Estados Unidos. [1] Deste grande número, considere a seguinte estatística que revela o perigo mortal da posição de pastor:

  • 94 % sentem-se pressionados a ter uma família ideal.
  • 90 % trabalham mais de 46 horas por semana.
  • 81 % reportam uma insuficiência de tempo com seu cônjuge.
  • 80 % crêem que o ministério pastoral prejudica a família.
  • 70 % não têm o que se considera um amigo íntimo.
  • 70 % têm menos auto-estima agora do que tinham quando entraram no ministério.
  • 50 % sentem-se incapazes de cumprir as necessidades de sua posição.
  • 80 % estão desanimados ou tratando de uma depressão.
  • 40 % reportam sofrer pela timidez, horários frenéticos e falsas expectativas.
  • 33 % consideram o ministério pastoral um perigo para a família.
  • 33 % consideraram renunciar suas posições durante o último ano.
  • 40 % das renúncias pastorais devem-se ao vácuo (a chama se apagou).

Espera-se que a maioria dos pastores exerça 16 tarefas simultâneas. E a maioria acaba pulverizada pelas pressões. Por esta razão, mensalmente, 1.600 ministros entre todas as denominações nos Estados Unidos são demitidos ou são forçados a renunciar. Durante os últimos 20 anos a média do pastoreado reduziu de sete para pouco mais de dois anos!

Lamentavelmente, poucos pastores se dão conta de que é a posição de pastor que causa esta turbulência subjacente. Naturalmente, Jesus Cristo nunca desejou que alguma pessoa desempenhasse a variedade de coisas que se requer do pastor! Ele nunca desejou que alguém carregasse uma carga tão pesada.

As demandas do pastorado são terríveis. Tanto que leva qualquer mortal ao esgotamento. Imagine-se por um momento trabalhando em uma companhia que lhe paga para manter seus colegas de trabalho animados. Que você faria se seu pagamento dependesse do teu grau de ocupação e amistosidade, da popularidade de sua esposa e filhos, da qualidade de suas roupas, e da perfeição de seu comportamento?

Dá para imaginar o completo estresse que isso lhe causaria? Dá para ver o papel que seria obrigado a exercer, da presunção a arrogância — tudo para poder manter seu poder, prestígio e segurança no trabalho? (Por esta razão, a maioria dos pastores é insensível quanto a receber qualquer tipo de ajuda).

A profissão de pastor dita padrões de conduta como qualquer outra profissão como professor, médico ou advogado. A profissão dita como o pastor deve vestir-se, falar e atuar. Esta é uma das principais razões pela qual tantos pastores vivem vidas tão artificiais.

Nesse aspecto, o rol pastoral fomenta a desonestidade. A congregação espera que seu pastor esteja sempre alegre, disponível a todo o momento, nunca ressentido, nunca amargurado, espera que ele tenha uma família perfeitamente disciplinada, e que seja completamente espiritual a todo o momento. Os pastores exercem este papel como atores de um drama grego. Isto explica a voz afetada da maioria dos pastores em suas pregações e orações. Isto explica a maneira piedosa de cumprimentar, a maneira peculiar com que dizem “o Senhor” e a maneira especial como se vestem.[2]

Todas estas coisas são em grande parte fumaça e luar — totalmente desprovidas de realidade espiritual. A maioria dos pastores não pode permanecer nesse ofício sem ser corrompido em algum nível. O endêmico poder político do ofício é um problema enorme que isola muitos deles e envenena a relação deles uns com os outros.

Em um inquietante artigo para pastores intitulado Prevenindo a Cauterização do Clero, o autor sugere algo assustador. O conselho dele para os pastores nos dá uma visão clara do poder político que ronda o pastorado. Ele implora aos pastores: “Exerça uma posição de companheirismo com o clero de outras denominações. Estas pessoas não podem prejudicá-lo eclesiasticamente, porque eles não pertencem ao seu círculo oficial. Não há nenhum tapete político que eles possam puxar para derrubá-lo”.

A solidão profissional é outro vírus que contamina fortemente os pastores. A praga da ilha solitária leva alguns pastores a buscar outras carreiras. Outros encontram destino mais cruel.

Todas estas patologias encontram sua raiz na história do pastorado. É “solitário o cume” porque Deus nunca quis que ninguém fosse para o cume — exceto Seu Filho! Com efeito, o pastor moderno coloca sobre seus ombros as 58 exortações do Novo Testamento que deveriam ser mutuamente compartilhadas pelos crentes. Não é de admirar que a maioria dos pastores sofre esmagada pelo peso.
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Fonte:
Trecho do livro "Cristianismo Pagão - A Origem das Práticas de Nossa Igreja Moderna" (Frank Viola)

As notas deixadas pelo autor são muito mais extensas do que as que seguem abaixo. Estas foram selecionadas por eu considerá-las mais necessárias à compreensão do texto.

[1] Este número foi extraído do Barna Research Group (East Hillsborough Christian Voice, February 2002, p. 3). Metade destas igrejas tem menos de 100 membros ativos (“Flocks in Need of Shepherds”, The Washington Times, July 2, 2001).

[2] Sei que nem todos os pastores caem nesta armadilha. Mas os poucos que podem resistir esta incrível pressão são exoticamente raros. Eles constituem dramáticas exceções a uma norma bem trágica.

20 setembro 2012

CONSTANTINO - PAI DO EDIFÍCIO DA IGREJA


Por Frank Viola

A história de Constantino (285-337 d.C.) abre uma página tenebrosa na história da cristandade. Foi ele quem iniciou a construção dos edifícios eclesiásticos. [1] A história é assombrosa.

Quando Constantino entrou em cena, era favorável que os cristãos escapassem de sua condiçãode desprezo e de minoria. A tentação pela aceitação foi por demais forte para resistir e a bola de neve constantiniana começou a rolar.

Em 312 d.C., Constantino tornou-se César do Império Ocidental.[2] Em 324, ele tornou-se Imperador de todo Império Romano. Pouco tempo depois ele começou a ordenar a construção de edifícios de igreja. Ele fez isso para promover a popularidade e a aceitação da cristandade. Se os cristãos tivessem seus próprios edifícios sagrados — como tinham os judeus e os pagãos — a fé cristã seria legitimada no Império.

É importante entender a tática de Constantino — porque ele foi o útero que concebeu o edifício da igreja. O pensamento de Constantino era dominado pela superstição e pela magia pagã. Mesmo após tornar-se Imperador, ele permitiu às velhas instituições pagãs permanecerem como eram antes.

Mesmo após sua conversão ao cristianismo, Constantino nunca abandonou sua adoração ao deus sol. Ele manteve a imagem do sol cunhada na moeda. Ele montou uma estátua do deus sol que sustentava sua própria imagem no Foro de Constantinopla (sua nova capital). Constantino também mandou construir uma estátua da deusa Cibele, (embora apresentada em postura de adoração cristã).

(Historiadores continuam a debater se Constantino foi ou não um genuíno cristão. O fato de ter ordenado a execução de seu filho mais velho, seu sobrinho, e seu cunhado, não fortalece o expediente no que diz respeito à sua conversão. Mas não estamos aqui para levar avante esse tipo de discussão).

Em 321 d.C., Constantino decretou o domingo como dia de descanso — um feriado legal. Parece que a intenção de Constantino era honrar ao deus Mitras, o Sol Invencível. (Constantino descreveu o domingo como “o dia do sol”). Confirmando sua afinidade com a adoração do sol, as escavações de São Pedro de Roma descobriram um mosaico de Cristo como o Sol Invencível.

Praticamente até o dia de sua morte Constantino “agia como um sumo sacerdote pagão”. Na realidade ele detinha o título pagão de Pontifex Máximus, que significa o chefe dos sacerdotes pagãos! (No século XV este mesmo título chegou a ser o título honorífico do Papa Católico).

Constantino usou decorações e rituais tanto pagãos como cristãos na dedicatória de sua nova capital, Constantinopla. Ele utilizou fórmulas de magia pagã para proteger as colheitas e sanar as enfermidades.

Além disso, toda evidência histórica indica que Constantino era egomaníaco. Quando construiu a nova “Igreja dos Apóstolos”, ele erigiu monumentos aos doze Apóstolos, os quais ladeavam um único sepulcro central. Esta tumba Constantino reservou para si mesmo — nomeando-se o décimo terceiro e principal Apóstolo! Constantino não apenas deu continuidade à prática pagã de veneração aos mortos, ele também pretendeu incluir-se no rol desses mortos ilustres!

Constantino também fortaleceu a noção pagã de objetos e espaços sagrados. Devido principalmente à sua influência, o comércio de relíquias passou a ser bem comum na igreja.Pelo século IV, a obsessão pelas relíquias [3] se disseminou de tal forma que alguns cristãos se posicionaram contra essa prática definindo-a como “Uma odiosa observância introduzida nas igrejas sob o disfarce da religião... Uma obra de idólatras”.

Constantino também se destacou por trazer à fé cristã a idéia de “lugar santo” baseado no modelo do santuário pagão. Foi por causa da aura do “sagrado” que os cristãos do século IV anexaram a Palestina, e a tornaram conhecida como “a Terra Santa” no século VI.

O que mais impressiona é que depois de morto Constantino foi declarado “divino”. (Este foi um costume aplicado a todos os Imperadores pagãos que morreram antes dele). Após a morte de Constantino, o Senado proclamou-o deus pagão. E ninguém os impediu de fazer isso.

Neste ponto, uma palavra precisa ser dita acerca de Helena, mãe de Constantino. Essa mulher ficou famosa por sua obsessão com relíquias. Em 326 d.C., Helena fez uma peregrinação à Terra Santa. Em 327 d.C., em Jerusalém, ela declarou ter encontrado a cruz e os pregos utilizados na crucifixão de Jesus. Consta que Constantino promoveu a idéia de que os pedacinhos de madeira da cruz de Cristo possuíam poderes mágicos! A verdade é que uma mentalidade de magia pagã operou no Imperador Constantino. Indiscutivelmente, o pai do edifício da igreja.

O Programa de Construção de Constantino

Depois da viagem de Helena a Jerusalém em 327 d.C., Constantino começou a construir os primeiros edifícios de igrejas ao longo do Império Romano. Ao fazê-lo, ele seguiu a trilha pagã de erigir templos para honrar a Deus.

É interessante o fato dele ter nomeado suas igrejas com nomes de santos — da mesma forma que os pagãos nomeavam seus templos com nomes de seus deuses. Ele construiu suas primeiras igrejas sobre os cemitérios onde os cristãos honravam seus santos mortos. Quer dizer, ele as construiu sobre os restos mortais dos santos mortos. Por quê? Porque, desde pelo menos um século antes os cemitérios onde os santos foram enterrados eram tidos como “campo santo”.

Muitas dessas gigantescas edificações foram construídas sobre as tumbas dos mártires. Essa prática era baseada na idéia de que os mártires tinham o mesmo poder anteriormente atribuído aos deuses pagãos. Mesmo sendo uma prática pagã os cristãos adotaram esta idéia mordendo o anzol.

Os mais famosos “espaços santos” foram: São Pedro, sobre o Monte do Vaticano (erigido em cima da suposta tumba de Pedro); São Paulo, do lado de fora dos muros da cidade (construída em cima da suposta tumba de Paulo); a deslumbrante e magnífica igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém (construída em cima da suposta tumba de Cristo), e a igreja da Natividade em Belém (construída sobre a suposta gruta onde Cristo nasceu). Constantino construiu nove igrejas em Roma e muitas outras em Jerusalém, Belém e Constantinopla.

Querido cristão observe! As raízes do “sagrado” edifício da igreja são completamente pagãs. O edifício da igreja foi inventado por um professo ex-pagão dotado de uma mente completamente pagã. Tais edifícios da igreja foram construídos sobre a idéia pagã de que o morto cria um espaço santo. Por favor, lembre-se disto toda vez que você escutar alguém se referir a um edifício como casa “santa” e “sagrada” de Deus.

Explorando os Primeiros Edifícios de igrejas

Pelo fato da edificação ser considerada sagrada, o congregante necessitava passar por um ritual de purificação antes de entrar. Então, no século IV, foram construídos tanques no pátio para que os cristãos pudessem lavar-se antes de entrar no edifício.

Os edifícios de Constantino eram espaçosos, magníficos e tidos como “dignos de um Imperador”. Eram tão esplêndidos que seus contemporâneos pagãos notaram que “estes gigantescos edifícios imitavam” a estrutura dos templos pagãos![4] E isto não era por acaso. Constantino decorava abundantemente os novos edifícios com arte pagã![5]

Os edifícios das igrejas construídas por Constantino eram desenhados exatamente conforme o modelo da basílica. A basílica era o edifício governamental mais comum. Era desenhada segundo o estilo dos templos pagãos.

As basílicas cumpriam mesma função dos auditórios das universidades de hoje. Com assentos extremamente confortáveis para acomodar as pessoas dóceis e passivas que presenciavam os eventos. Esta foi uma das razões pelas quais Constantino escolheu ao modelo da basílica.

Ele também a favoreceu por sua fascinação com a adoração ao sol. As basílicas foram desenhadas de tal maneira que os raios solares caíam sobre o orador enquanto este falava à congregação. Igual aos templos gregos e romanos, as basílicas cristãs foram construídas com a fachada voltada para o leste.

Exploremos a basílica cristã por dentro. Era uma réplica exata da basílica romana usada pelos magistrados e oficiais romanos. As basílicas cristãs possuíam uma plataforma elevada de onde os clérigos ministravam. A plataforma tinha uma elevação com vários degraus. Também havia uma grade que separava o clero dos leigos.[6]

No centro do edifício ficava o altar. Era uma mesa (mesa do altar) ou arca coberta por uma tampa. O altar era considerado o lugar mais santo do edifício por duas razões. Primeiramente, este continha relíquias dos mártires. (Após o século V, a presença de uma relíquia no altar era essencial para a legitimação da igreja). Em segundo lugar, a Eucaristia (o pão e o cálice) estavam sobre o altar.

A Eucaristia, agora vista como um sacrifício sagrado, era oferecida sobre o altar. Por serem considerados como “homens santos”, apenas e tão somente ao clero era permitido receber a Eucaristia dentro do cercado!

Em frente ao altar havia a cadeira do Bispo chamada de cátedra. A expressão ex-cátedra deriva desta cadeira. Ex-cátedra significa “desde o trono”. A cadeira do Bispo, ou “trono” segundo seu nome original, era a maior e mais elegante dentro do edifício. Esta cadeira ficava no lugar da cadeira do juiz da basílica romana. Era rodeada por duas fileiras de cadeiras reservadas para os anciãos.

O sermão era pregado desde a cadeira do Bispo. O poder e a autoridade repousavam nessa cadeira. A cadeira era coberta com um pano feito de linho branco. Os anciãos e diáconos se sentavam em ambos os lados, formando um semicírculo. A distinção hierárquica encravada na arquitetura da basílica era inconfundível.

É interessante que a maioria dos edifícios das igrejas modernas possuem cadeiras especiais para o pastor e seus auxiliares situadas sobre a plataforma atrás do púlpito. Assim como no caso do trono do Bispo, a cadeira do pastor geralmente é a maior! Tudo isso são vestígios da basílica pagã.

Somando-se a tudo isso, Constantino não destruiu templos pagãos em uma larga escala, nem tampouco os fechou. Em alguns lugares os templos pagãos existentes foram esvaziados de seus ídolos e convertidos em edifícios cristãos. Os cristãos usaram materiais das ruínas de templos pagãos e construíram novos edifícios cristãos nesses locais.

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Fonte:
Trecho do livro "Cristianismo Pagão - A Origem das Práticas de Nossa Igreja Moderna" (Frank Viola)

As notas deixadas pelo autor são muito mais extensas do que as que seguem abaixo. Estas foram selecionadas por eu considerá-las mais necessárias à compreensão do texto.

[1] A Historical Approach to Evangelical Worship, p. 103; History of the Christian Church: Volume 3, p. 542. Schaff escreve: “Depois da cristandade ser reconhecida pelo estado e autorizada a ter propriedades, ela erigiu casas de adoração em todas as partes do Império Romano. Provavelmente havia mais edifícios deste tipo no século IV do que houve em qualquer período, talvez com exceção do século XIX nos Estados Unidos...” Veja também To Preach or Not to Preach?, p. 29. Norrington mostra que na medida em que os Bispos dos séculos IV e V cresciam em riqueza, eles canalizaram tais riquezas através de um elaborado programa de construção de igrejas. Everett Ferguson escreve, “Até a era Constantino não encontramos edifícios especialmente construídos, primeiro eram simples salões, depois basílicas constantinas. Antes de Constantino, todas as estruturas usadas para reuniões da igreja eram “casas ou edifícios comerciais modificados para uso da igreja” (Early Christians Speak, p. 74).

[2] No ano 312 d.C., Constantino derrotou o Imperador Maxentius do Ocidente na batalha da Ponte Milviana. Constantino afirmou que na véspera da batalha ele viu um sinal da cruz nos céus e foi convertido a Cristo. (Ken Connolly, The Indestructible Book, Grand Rapids: Baker Books, 1996, pp. 39-40)

[3] Relíquia é um material relacionado aos restos materiais de um santo após a morte dele como também qualquer objeto sagrado que entrou em contato com o corpo dele. A palavra “relíquia” vem da palavra latina reliquere, que significa “deixado para trás”. A primeira evidência da reverência a relíquias surgiu por volta de 156 d.C. no Martyrium Polycarpi. Neste documento, as relíquias de Policarpo são consideradas mais valiosas que pedras preciosas e ouro (The Oxford Dictionary of the Christian Church, Terceira Edição, p. 1379); Father Michael Collins and Matthew A. Price, The Story of Christianity (DK Publishing, 1999), p. 91; The Early Liturgy, pp. 184-187.

[4] Esta frase é do escritor anticristão Porfírio (The Secular Use of Church Buildings, p. 8). Porfírio disse que os cristãos eram inconsistentes porque ao mesmo tempo em que criticavam a adoração pagã erguiam edifícios imitando templos pagãos! (Building God’s House in the Roman World, p. 129).

[5] The Story of Christianity (Gonzalez), p. 122. De acordo com o Professor Harvey Yoder, Constantino construiu a igreja original de Hagia Sophia (a igreja de sabedoria) no local de um templo pagão e importou 427 estátuas pagãs do Império para decorá-la. ("From House Churches to Holy Cathedrals,”. Conferência proferida em Harrisburg, VA, Oct., 1993).

[6] “Ver o edifício da igreja dessa forma significava que este não era mais a casa do povo de Deus para seu culto comum, mas a Casa de Deus que lhes permitia prestar a devida reverência. Eles tinham que entrar na nave (onde a congregação sentava ou permanecia em pé) e se abster de entrar no santuário (a plataforma do clero) que era o lugar do coro ou o santuário reservado para o sacerdócio” (From Temple to Meeting House, p 244; The Growth of Church Institutions, pp. 219-220).

19 agosto 2012

QUASE O PARAÍSO

Por Cefas Carvalho

“Sabia que sua imediata obrigação era o sonho”
(Jorge Luis Borges em As ruínas circulares)


Aportou na praia cansado, ofegante, após longa e difícil navegação. Saboreou os pés descalços na areia molhada e olhou em volta. Como sabia, como sempre soube, a ilha estava absolutamente deserta. Afastou a jangada da praia e observou-a perder-se no oceano, não mais precisava dela, sua viagem era só de ida. Contemplou a praia, a ilha, a vegetação, as árvores, imaginou-se entre os animais, livrando-se de insetos, tendo de improvisar uma cabana com pedaços de pau e cipós e percebeu que poucas vezes na vida estivera tão feliz. Na primeira noite dormiu na relva, sob a música suave dos mosquitos que tentaram dilacerar sua carne. Não importava, estava feliz. Com o passar dos dias, construiu uma cabana improvisada para se proteger das chuvas fortes que viriam e de possíveis animais selvagens. Descobriu um pequeno córrego, onde a água era límpida e cristalina. Se alimentava de frutas e pequenos animais, fazia fogo friccionando varetas, como aprendera quando criança. Decidiu não contar o tempo e o tempo se passou sem que se desse conta. Decidiu não se preocupar com a aparência (por que o faria?) e passou a andar nu cada vez mais e a não cortar cabelo, barba ou bigode. De vez em quando cantava ou assobiava uma velha canção, dos tempos em que ainda vivia no mundo (no inferno?) apenas para passar o tempo, embora tivesse perdido a noção do que era o tempo.

Os dias se passavam, as luas traziam as noites, ele dormia, acostumado com os mosquitos, acordava com o sol no dia seguinte e recomeçava sua vida baseada em se alimentar e se proteger das chuvas. Estava no paraíso. Ou, assim pensava. E o tempo, sempre implacável, continuava a trabalhar sob a ilha, sob seu corpo e sua alma, e subitamente, como uma pedra que cai sobre a cabeça, ele percebeu que não estava totalmente feliz, não estava totalmente satisfeito com a vida que levava e que ali talvez não fosse o paraíso. Faltava algo. Inquietou-se durante dias para descobrir o que poderia lhe faltar, posto que abdicara do mundo e das felicidades ilusórias.

Um dia, percebeu o que lhe faltava. Faltava a dor. Não se vive sem dor, não se pode ser feliz sem se sentir dor. A vida sem dor é ilusória, descobriu ele, entre o alívio e o desespero. Começou a se impingir dor física. Com uma pedra, cortou-se na barriga. Fez talhos nas pernas, deixou sangrar as feridas e espalhou areia nelas. Sentiu dor, mas não como queria. Não como era para se sentir dor. Tomou uma decisão. Com a faca de sílex que improvisou, arrancou de si uma costela. Achou que fosse morrer vendo o mar de sangue na areia da praia e os ossos fraturados. Não importava. Talvez fosse melhor morrer. Dormiu então, aquele sonho entre a febre e o devaneio. Dormiu acreditando que não mais acordaria. Mas, despertou, não soube quanto tempo depois, e ao acordar, viu diante de si, uma mulher, sentada com as mãos abraçando os joelhos, observando-o atentamente. Não demorou a perceber que ela nascera de sua costela e que em sua pele uma imensa cicatriz se fazia ver. A mulher sorriu. Ele então percebeu que a amaria. E que, por esta razão, começaria a sofrer. Sentiria dor. Seria arrancado do paraíso. Para sempre. E sorriu, tremendo de felicidade.
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Do livro Encontos & Desencontos (Cefas Carvalho - Natal (RN): Mekong, 2009)
Cefas Carvalho é jornalista, poeta e escritor. Publicou os romances Ponto de Fuga, Três e o livro de poesias Reinvenções, além de diversos folhetos de cordel. Faz parte da coordenação do Concurso de Poesia Zila Mamede e participa do grupo literário Verborrágicos. Foi menção honrosa no Concurso Câmara Cascudo (Funcarte) por duas vezes, com os romances inéditos Carla Lescaut e Os Puxadores de Piano, este último também finalista do prêmio nacional Sesc de Literatura. 

17 agosto 2012

ESCATOLOGIA APOCALÍPTICA E ESCATOLOGIA SAPIENCIAL

Por John Dominic Crossan

A escatologia apocalíptica anuncia o apocalipse (palavra grega que significa “revelação”) da intervenção divina iminente e cataclísmica, para restaurar a paz e a justiça de um mundo desordenado. Se depois disso existirá o paraíso na terra ou a terra no paraíso, não fica muito claro, mas eles, os maus, desaparecerão para sempre e nós, os abençoados, estaremos no comando sob as ordens de Deus. Exemplos da promessa reveladora divina da escatologia apocalíptica são, no mundo antigo, João, de Patmos, na Grécia, e no mundo moderno, David Koresh, de Waco, no Texas.

A escatologia sapiencial, por outro lado, enfatiza a sapiência (palavra latina que significa “sabedoria”) de como se deve viver hoje, aqui e agora, de forma que o poder presente de Deus seja convenientemente óbvio para todos. Exemplos do desafio de um estilo de vida radical da escatologia sapiencial são, no mundo antigo, Diógenes, na Grécia, vivendo em seu barril, e no mundo moderno, Gandhi, na Índia, vivendo uma vida de não-violência.

A escatologia apocalíptica é a negação do mundo pela ênfase na iminente intervenção divina: nós esperamos pelos atos de Deus; a escatologia sapiencial é a negação do mundo pela ênfase na imitação divina imediata: Deus espera pelos nossos atos. A primeira é a mensagem de João Batista; a última, a de Jesus.
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Trecho de "O Essencial de Jesus" (John Dominic Crossan - São Paulo: Jardim dos Livros, 2008) 
John Dominic Crossan é professor de estudos bíblicos da DePaul University, em Chicago. Ele é autor de muitos best sellers, incluindo Jesus Histórico, Jesus: uma Biografia Revolucionária e The Cross that Spoke, vencedor do American Academy of Religion Award for Excelence. 

03 março 2012

UM CHAMADO À INTIMIDADE - PREFÁCIO

Ao receber o convite para prefaciar “Um Chamado à Intimidade” confesso que me senti completamente incapaz de fazê-lo. Não somente pela amizade que tenho com René Burkhardt, que me torna um tanto suspeito, mas também por conhecer seus escritos e saber da profundidade dos mesmos. Afinal, como definir o indefinível?

O máximo que posso fazer, e o faço com total sinceridade, é dizer do impacto que este livro causou em minha vida. Livro que, aliás, não poderia ter um título mais apropriado. “Um Chamado à Intimidade” é exatamente isso: um apelo urgente para nos achegarmos, desnudos de nosso ego, ao coração de Deus, ao cerne de sua vontade, revelada em Cristo Jesus. Desta forma, cada capítulo levou-me a uma sincera introspecção, na qual fui confrontado com minha soberba e total dependência do Espírito Santo para transformar, capacitar e conduzir o meu ser no caminho que devo andar.

De maneira que este não é meramente um livro para ser lido, mas um verdadeiro chamado de Deus para ser atendido. Sendo assim, o leitor perceberá que esta não é uma obra de rápida leitura, mas de necessária reflexão, na qual somos, por diversas vezes, levados a parar e meditar em nossas próprias vidas.

Aos que chegarem ao final desta jornada, posso garantir que não mais lhes pesará o fardo da culpa e da condenação. Em lugar disso, a compreensão de quem somos em Cristo Jesus: amados filhos de Deus, que nos chama para uma perfeita e maior intimidade com Ele.

Alan Capriles
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Faça o download gratuito de "Um Chamado à Intimidade", de René Burkhardt, clicando aqui.

26 agosto 2011

CRUCIFICANDO O ESPÍRITO

Por Nikos Kazantzakis
(Trecho de A Última Tentação de Cristo)
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Tiago já se resignara à morte do mestre e remoia em pensamento o que fariam quando fossem deixados na terra sem ele.

- Não podemos nos opor à vontade divina, nem à do nosso mestre. Como dizem os profetas, mestre, é seu dever morrer; e o nosso, viver. Viver para que as palavras que você proferiu não se percam. Devemos colocá-las por escrito nas novas Santas Escrituras; criaremos leis, construiremos nossas próprias sinagogas e selecionaremos nossos próprios sumos sacerdotes, escribas e fariseus.

- Estarão com isso crucificando o espírito – gritou Jesus, apavorado. – Não, não, não quero nada disso.

- É a única forma de impedir que o espírito se desvaneça no ar – contrapôs Tiago.

- Mas então ele não será mais livre; não será mais espírito.

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Comentário:
Não estou aqui recomendando a leitura desse livro, a não ser que você tenha maturidade espiritual para examiná-lo. Mas, particularmente, considero esse o melhor trecho do livro, o qual não foi retratado no filme que se baseou nessa obra de Kazantzakis. Para ser franco, creio que Jesus não queria mesmo nada disso. Ou queria?

25 agosto 2011

O BEIJO DE JUDAS DO "NOSSO" CRISTIANISMO

Por Huberto Rohden

E Jesus morreu condenado pelos dois poderes máximos do século, o poder religioso de Israel e o poder político-militar do Império Romano.

Com a morte de Jesus, parecia o cristianismo definitivamente extinto – mas estava mais vivo do que nunca; em vez de uma dúzia de discípulos do Cristo, surgiram milhares em todos os pontos do Império Romano: Europa, Ásia e África. Realmente, “o sangue dos mártires era a semente de novos cristãos”, como se dizia naquele tempo. [...]

Finalmente, em 64, o imperador romano Nero iniciou uma perseguição por atacado, decretando por lei a matança de todo e qualquer discípulo do Cristo. Depois de algum tempo, não havia mais um cristão sobre a face da terra – mas debaixo da terra havia muitos: no fundo das catacumbas de Roma continuavam a germinar os discípulos do Cristo, e tão firmemente enraizados estavam eles nesses subterrâneos que três séculos de inauditas violências não valeram exterminá-los. O cristianismo subterrâneo era mais vivo e vigoroso que o próprio cristianismo terreno. O Jesus morto na superfície da terra continuava como o Cristo vivo debaixo da terra, e ressuscitava sempre, contra todas as proibições dos poderes anti-crísticos, religiosos e civis.

Finalmente em princípios do quarto século, o primeiro imperador romano pseudo-cristão, Constantino Magno, resolveu mudar de tática e de estratégia: convencido de que a política de violência não podia matar o Cristo e seu Reino, passou da violência aberta de Caifás, Pilatos, Nero e Diocleciano, para a traição disfarçada de Judas Iscariotes: “Aquele a quem eu beijar esse é – prendei-o!”. Beijou o Cristo com um beijo de Judas e o jogou às mãos de seus piores inimigos. Pelo edito de Milão de 313, Constantino proclamou a liberdade do cristianismo e o fez religião oficial do Império Romano. Se o Cristo não fosse mesmo imortal, teria morrido de vez com esse beijo de Judas: “Amigo, com um beijo tu atraiçoas o Filho do Homem?”

Constantino Magno injetou ao cristianismo os piores venenos – e não conseguiu matá-lo [isto é, matar os verdadeiros cristãos]; deu-lhes três presentes gregos: armas, política e dinheiro; armas – para matar seus inimigos; política, para enganar seus amigos; e dinheiro – para comprar e vender consciências.

Mas, nem com esse tríplice veneno concentrado o [verdadeiro] cristianismo morreu, porque estava imunizado pelo Cristo. [...]

A partir do século IV até o século XX [e agora, século XXI], tem-se repetido inúmeras vezes essas tentativas de envenenamento do [verdadeiro] cristianismo por parte dos [falsos] cristãos, mas inexplicavelmente, a traição do Cristo por parte dos [falsos] cristãos foi tão ineficaz como a violência contra Jesus por parte de judeus e pagãos. [...] Persiste e sobrevive sempre o Cristo imortal, não em nossas organizações sociais, mas nas almas individuais cristificadas. [...]

Na idade média a traição a Jesus atingiu o apogeu da sua perversidade: No tempo das Cruzadas, milhares de pagãos foram trucidados em nome do Cristo; milhares de [verdadeiros] cristãos foram assassinados pela Inquisição em nome de Deus. [...]

Com o reconhecimento da parte duma chamada igreja cristã estava oficialmente abolido o espírito do Cristo, estava a bandeira do Cristo hasteada sobre o quartel-general do Anti-Cristo [...] enganando a milhões e milhões de almas sinceras em busca do Cristo.

“Guias cegos guiando outros cegos... vós roubastes a chave do conhecimento do reino de Deus; vós mesmos não entrastes,nem permitis que outros entrem.”

Hoje em dia, é quase impossível encontrar o Cristo no cristianismo; quem não encontra o Cristo fora do nosso cristianismo, dificilmente o encontrará.
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Huberto Rohden
Extraído de “O Drama Milenar do Cristo e do Anti-Cristo” - Editora Alvorada.
O título desse artigo e as palavras entre colchetes não constam da obra de Rohden, mas foram acrescentados para facilitar a compreensão do texto, não ferindo seu sentido original.

11 julho 2011

A FESTA DE DEUS


Fiquei profundamente comovido ao ler essa história, contada por Brian D. McLaren em seu livro chamado "A Mensagem Secreta de Jesus". Isso sim é compreender o evangelho e viver no Reino de Deus. Vale a pena conferir:
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Jesus sempre comparava o Reino a festas, celebrações e banquetes. Hoje em dia poderíamos dizer que Deus convida as pessoas para deixarem gangues violentas e participarem de uma festa; a deixarem seu vício de trabalhar de forma doentia, em uma espécie de competição insana, e se unirem a uma festa; a deixarem sua solidão e seu isolacionismo e entrarem em uma festa; a deixarem seus partidos exclusivistas (por exemplo, os políticos que ganham eleições colocando os eleitores uns contra os outros), e se juntarem a um partido inclusivo que festeja continuamente por ser de uma espécie diferente; a pararem de brigar e de reclamar, de odiar e de competir, e, em vez disso, começarem a festejar e a celebrar a bondade do amor de Deus. [...]

Meu amigo Tony Campolo conta em história real que também serve como uma excelente parábola nesse sentido. Ele se encontrava em um local que tinha um fuso horário bem diferente e não conseguia dormir. Então, bem depois da meia-noite, saiu perambulando até chegar a uma confeitaria. Algumas prostitutas locais também ali entraram no meio da madrugada, depois de suas atividades habituais. Lá ele não pôde evitar de ouvir uma conversa entre duas delas. Uma, chamada Agnes, disse à outra: “Sabe de uma coisa? Amanhã é o meu aniversário. Vou fazer 39 anos.” Sua amiga respondeu rispidamente: “E o que você espera de mim? Uma festa de aniversário? É isso? Quer que eu arrume um bolo e cante parabéns prá você?” Agnes respondeu: “Ah, pára com isso, por que tem que ser assim tão má? Por que tem que me botar pra baixo? Só estou dizendo que é meu aniversário. Não quero nada de você. Quer dizer, por que eu teria uma festa de aniversário? Nunca tive uma em toda a minha vida. Por que uma logo agora?”

Quando saíram, Tony teve uma idéia. Perguntou ao proprietário da confeitaria se Agnes ia lá todas as noites, e, quando ele disse que sim, convidou-o a participar de uma conspiração para organizar uma festa surpresa. Até a esposa do proprietário se envolveu. Juntos, arrumaram um bolo, velas de aniversário e decoração para que festejassem com Agnes, que para Tony não passava de uma completa estranha. Na noite seguinte, quando ela entrou, todos gritarem: “Surpresa! Surpresa!” – e Agnes não podia acreditar no que seus olhos estavam vendo. Os fregueses da confeitaria cantaram e ela começou a chorar tanto que mal conseguiu soprar as velinhas. Quando chegou a hora de cortar o bolo, Agnes perguntou se não se importariam de não cortá-lo para que pudesse levá-lo para casa – apenas para poder saborear aquele momento mágico por mais alguns instantes. Em seguida, ela saiu carregando seu bolo como se fosse um tesouro.

Tony conduziu os convidados em um momento de oração por Agnes e o proprietário da loja disse que não fazia a menor idéia de que Tony fosse um pregador. E então perguntou a Tony de que tipo de igreja ele era. Tony respondeu que era uma igreja em que se dão festas de aniversário para prostitutas às 3:30 horas da madrugada. O homem não podia acreditar. “Não, isso não é possível. Não existe uma igreja assim. Se existisse, eu me juntaria a ela. É, com certeza eu faria parte de uma igreja desse tipo.”

Infelizmente, existem muito poucas igrejas como essa; no entanto, se mais de nós compreenderem a mensagem secreta de Jesus, esse número crescerá intensamente.

Brian D. McLaren

12 novembro 2010

LONGE DEMAIS PARA VOLTAR ATRÁS

Por Alan Capriles
“A aventura pode ser louca,
mas o aventureiro tem que ser lúcido.”
(Gilbert Chesterton)

Aos dezenove anos de idade arrisquei-me numa das maiores aventuras da minha vida: viajar de São Paulo para o Rio de Janeiro pedindo carona na estrada. Uma experiência incrível e inesquecível, na qual aprendi muito, especialmente uma grande lição, que agora compartilho com você.

Eu trabalhava na capital paulista e queria aproveitar o longo feriado de Páscoa para rever meus pais e amigos no Rio. Mas o pagamento havia atrasado e não havia outra forma de viajar a não ser pedindo dinheiro emprestado, ou pedindo carona na estrada. Influenciado pela leitura do livro On The Road, de Jack Kerouac, optei pela aventura.

A primeira carona foi fácil. Na noite anterior ao feriado aproveitei uma vaga no carro de um amigo que iria para Taubaté, onde fui convidado para dormir na casa dos pais dele. Aos primeiros raios de sol me aprontei, enchi meu cantil e coloquei a mochila nas costas. Os pais do meu amigo tentaram me convencer a continuar por lá, mas, resoluto, fui para a estrada, com o dedão em riste, a fim de tentar a sorte.

Para minha surpresa, não demorou muito e uma caminhonete parou. O motorista se inclinou sobre o banco do passageiro, abriu a porta e me disse estar indo para “Pinda”. Perguntei se aquele lugar ficava na direção do Rio de Janeiro. Diante de sua afirmativa, aceitei a carona, contente por tamanha sorte. O motorista não gostava de papo. Limitou-se a dizer: “É chão até o Rio, hein...” Mas a carona não durou muito. Logo descobri que a tal “Pinda” tratava-se de “Pindamonhangaba”, cidade a cerca de vinte quilômetros de Taubaté, meu ponto de partida.

Assim sendo, lá estava eu novamente na estrada, tentando a sorte de uma carona que me levasse mais longe. Após uma hora de tentativas frustrantes, decidi continuar insistindo, porém não mais parado. Fui caminhando pela beira do asfalto, em direção ao meu destino. Lembro de ter passado por um pedágio, um posto de gasolina e depois por uma placa na qual havia uma inscrição inacreditável: “Proibido pedir carona nas imediações do posto”! Tive que rir de minha falta de sorte. Já passava do meio dia. O calor era escaldante.

Após haver caminhado algumas horas eu já me perguntava se deveria desistir. Mas foi então que cheguei a um local onde havia um pátio com diversos caminhões estacionados. Os motoristas conversavam e comiam num bar, parecendo todos velhos amigos. Abordei alguns deles, os que achei mais simpáticos, perguntando se alguém poderia me ajudar com a sonhada carona para o Rio. Dois caminhoneiros pareceram amistosos e prometeram levar-me ao meu destino. Porém, disseram que ainda demorariam muito por ali, que eu deveria voltar para a estrada e continuar tentando, pois talvez conseguisse uma carona melhor.

Com minha esperança renovada, retomei a caminhada pela beirada do asfalto, agora com a certeza de que, caso ninguém parasse, aqueles caminhoneiros amistosos parariam, tão logo me avistassem. Eu estava tão certo disso que quase não pedia mais carona, limitando-me a olhar para trás quando ouvia um ronco forte de motor, pois poderia ser o caminhão dos meus novos amigos. Enquanto caminhava, contemplava o visual, que era magnífico, experimentando uma indescritível sensação de liberdade.

Após cerca de meia-hora hora avistei um caminhão semelhante ao que eles estavam. Parei, tentando visualizar seus ocupantes. Eram eles mesmos! Acenei com a mão, sorridente. Mas o caminhão, ao invés de reduzir, acelerou ainda mais e veio para o acostamento com violência, na minha direção, obrigando-me a pular para o meio do mato.

Cansado, banhado em suor, faminto, levantei-me com raiva de mim mesmo. Como eu poderia ser tão ingênuo a ponto de acreditar na honestidade de caminhoneiros que eu não conhecia? E como eu pude ser tão tolo a ponto de achar que alguém lúcido daria carona para um desconhecido na Via Dutra, a estrada que liga as duas cidades mais violentas do Brasil?

Atordoado com esses pensamentos, pensei em desistir e voltar para São Paulo. Quando eu já estava a ponto de atravessar para o outro lado da pista, avistei uma placa anunciando um restaurante cinco quilômetros à frente. Tratava-se do local de parada para os ônibus de viagem, onde os passageiros podiam comer alguma coisa. Eu mesmo conhecia bem aquele lugar. Por diversas vezes passara por ali na infância, em viagens do Rio para Campinas, onde moravam meus primos.

Tive então a ideia de tentar uma carona junto àquele restaurante. Não para o Rio, mas uma carona de volta a São Paulo, pois eu já decidira desistir dessa louca aventura. Após uma longa e cansativa caminhada, cheguei ao restaurante, chamado Tamborindegui e entrei no toalete para lavar-me do suor. Fiquei um bom tempo olhando para mim mesmo no espelho, enquanto pessoas entravam e saíam, apressadas, cada qual com seu destino. Invejei-as, desejando ter um assento confortável para sentar, numa condução que me levasse de volta para casa.

Assim que saí do toalete, notei um bonito mapa, desenhado em azulejo português, que estava na parede do restaurante. Do lado esquerdo do mapa, São Paulo, meu ponto de partida; do lado direito, o meu sonhado destino, Rio de Janeiro. E bem ao centro, aquele restaurante, localizado próximo a uma cidade chamada Roseira. Bem ao centro, entre Rio e São Paulo. Espere aí... Bem ao centro! Então eu já estava na metade do caminho!

Olhei novamente para aquele mapa. Na verdade, eu não conseguia tirar os olhos dele. Apesar de já se terem passado mais de vinte anos, ainda me lembro de suas cores azul e branca e de como ele brilhava, pintado naquele azulejo português. Sentia com se ele me dissesse alguma coisa. Sim, ele me dizia, repetidamente: “Você já foi longe demais para voltar atrás... Você já foi longe demais para voltar atrás... Você já foi longe demais...”

Então pensei: se a distância para voltar é praticamente a mesma se eu prosseguir, está decidido. Eu não vou voltar atrás! Sigo em frente!

Ajeitei a mochila nas costas, atravessei pelo saguão do restaurante, cruzei pelos ônibus estacionados e me detive no pátio do estacionamento, com a ideia de abordar os motoristas dos carros que partiam em direção ao Rio. Após ouvir desculpas de todo tipo, um sujeito a quem eu já havia abordado se aproximou de mim, perguntando se adiantaria alguma coisa se ele me deixasse em São João de Meriti, município da baixada fluminense. “Onde o senhor me deixar está bom”, respondi. Ele olhou para o amigo que estava no assento do carona e depois apontou para a traseira do seu furgão. “Então, entre aí!” Havia também uma criança com eles, o que me deu mais confiança. Pensei: "Eles não me matariam na frente de uma criança..."

Tive que me espremer entre sacos pretos enormes, que não procurei saber o que continham. Entre a cabine e a parte traseira, onde eu estava, havia um vidro que impedia nossa comunicação. Foi melhor pra mim, porque pude dormir um pouco. Apesar do desconforto, o cansaço era maior. Por volta das dezesseis horas chegamos à descida da Serra das Araras, onde eles pararam e me ofereceram um caldo de cana, que tomei com enorme prazer. Percebi que o garoto que estava com eles olhava pra mim com admiração, como se eu fosse um personagem de filme, ou coisa parecida.

Ali ficou decidido que eles me deixariam na Avenida Brasil, de onde eu poderia pegar um ônibus para o centro do Rio, com o pouco dinheiro que eu carregava. E assim foi feito.

Lembro que o grande relógio da Central do Brasil marcava exatamente dezoito horas quando ali cheguei. Logo a seguir, o metrô me levaria para Botafogo, bairro onde morava meu pai, que custou a crer em tamanha loucura. Mas eu havia chegado, são e salvo, e era isso que importava!

Hoje, ao reler o caderno onde escrevi estas memórias, uma frase revela o quanto eu estava “duro” naquela viajem: “Só restaram dez cruzeiros e alguns centavos na minha carteira.” E, logo abaixo, uma data: 28 de Abril de 1990.

Após todos estes anos, compartilho com meus amigos não somente essa aventura, mas a maior lição que ela me deixou, revelada nos desenhos de um velho mapa:

“Você já foi longe demais para voltar atrás.”

Por muitas vezes, diante dos maiores desafios da vida, torno a me lembrar daquele mapa e de sua mensagem, que continua ecoando em meu coração: “Você já foi longe demais para voltar atrás... Você já foi longe demais para voltar atrás... Você já foi longe demais...” E decido então seguir em frente.

Alguns anos depois daquela aventura, descobri que as proporções daquele mapa não eram exatas, e que eu não estava na metade do caminho, mas a menos de um terço do trajeto! Mas isso já não importava... O mapa me fez crer que eu havia ido longe demais, que seria tolice desistir, e foi precisamente isso que me fez seguir em frente.

Mas, sabe de uma coisa? Pensando bem, aquele mapa estava certo. Ao longo da vida descobri que o caminho de qualquer desistência é sempre maior que a mais longa estrada, e não menos doloroso que a mais difícil conquista. Vale a pena prosseguir. Persevere! Você também já foi longe demais para voltar atrás.

Alan Capriles



09 novembro 2010

VOCÊ SERIA FELIZ NO CÉU, SE DEUS NÃO ESTIVESSE LÁ?

Por Alan Capriles

“Se eu te adorar por medo do inferno,
Queima-me no inferno.
Se eu te adorar pelo paraíso,
Exclua-me do paraíso.
Mas, se eu te adorar pelo que Tu és,
Não esconda de mim a Tua face.”
(Rabia, 800 d.C.)

Paul Washer, um dos pregadores que mais admiro, é um crítico feroz dos métodos de evangelismo moderno. Entre outros problemas, ele aponta para o erro de se evangelizar com a inútil pergunta: “Você quer ir para o céu?” Segundo ele, esta é uma pergunta inútil porque sua resposta é óbvia: “Todos querem ir para o céu, até o diabo, mas a maioria não quer que Deus esteja lá quando chegarem!”

E não é verdade? Todos querem ir para o céu. Ninguém, em sã consciência, desejaria arder no lago de fogo e enxofre, nem mesmo o próprio diabo. Ao mesmo tempo, quem não desejaria passar uma eternidade sem tristeza, dor, cansaço, gozando de perfeita paz e alegria? Todos querem isto! Porém, por pior que seja o inferno, e por melhor que seja o paraíso, não devemos conduzir alguém a Cristo por estes motivos.

Ao contrário do que muitos pensam, tão errado quanto aproximar-se de Jesus por interesses materiais é adorá-lo por interesses espirituais. Sendo assim, a questão é: por qual motivação eu tenho seguido a Cristo?

John Piper faz uma brilhante análise acerca desse tema em seu livro “Deus é o Evangelho”*. Lembrando que muitos não entendem direito o que são as boas novas do evangelho, Piper sugere a seguinte pergunta:

“Por que saber que seus pecados estão perdoados é boas-novas para você?”

“Uma pessoa pode responder: “Ser perdoado é boas-novas, porque eu não quero ir para o inferno”. Outra pode dizer: “Ser perdoado é boas-novas, porque uma consciência culpada é algo horrível, e encontro muito alívio em pensar que meus pecados estão perdoados”. Outra talvez responda: “Quero ir para o céu”. Mas temos de perguntar por que as pessoas querem ir para o céu. Talvez respondam: “Porque o alternativo é doloroso”. Ou: “Porque a minha esposa está lá”. Ou: “Porque haverá um novo céu e uma nova terra, nos quais a justiça e a beleza finalmente estarão em todos os lugares”.

Piper prossegue: “O que há de errado nestas respostas? É verdade que ninguém quer ir para o inferno. O perdão proporciona alívio a uma consciência culpada. No céu, seremos restaurados à comunhão com os queridos que morreram em Cristo, escaparemos do sofrimento do inferno e desfrutaremos da justiça e da beleza da nova terra. Tudo isso é verdade. Então, o que está errado nessas respostas? O que está errado nelas é que não consideram a Deus como o bem final e mais sublime do evangelho.”

Para que definitivamente entendamos a importância deste assunto, John Piper nos deixa uma excelente ilustração, traçando uma analogia perfeita em relação às nossas motivações para com Deus. Imagine a seguinte situação:

“Suponha que eu levante pela manhã e, enquanto caminho em direção ao banheiro, tropeço na cesta de roupas sujas que minha esposa havia deixado ali para lavar no dia seguinte. Em vez de eu mesmo remover a cesta gentilmente e pensar o melhor a respeito de minha esposa, reajo de um modo completamente desproporcional à situação e lhe digo algo bastante grosseiro, quando ela ainda está acordando. Ela se levanta, pega a cesta de roupas e desce a escada diante de mim. Posso dizer pelo silêncio e por minha própria consciência que nosso relacionamento entrou em séria dificuldade.

“Enquanto desço, a consciência me acusa. Sim, a cesta não deveria estar naquele lugar. Sim, eu poderia ter quebrado o pescoço. Contudo, esses pensamentos são principalmente argumentos carnais autodefensivos. A verdade é que minhas palavras foram incoerentes. A dureza emocional não somente fora desproporcional à seriedade da falha como também a Bíblia me ensina a não atentar para o erro. “Por que não sofreis, antes, a injustiça? Por que não sofreis, antes, o dano?” (1 Co 6:7)

“Por isso, quando entro na cozinha, há um clima de frieza, e minha esposa está de costas para mim, trabalhando no balcão da cozinha. O que precisa acontecer ali? A resposta é evidente: preciso desculpar-me e pedir perdão. Isto seria o correto a fazer. Mas, eis a analogia: Por que eu quero o perdão de minha esposa? Para que ela faça o meu café da manhã favorito? Para que meus sentimentos de culpa desapareçam e eu consiga me concentrar no trabalho hoje? Para que tenhamos uma boa relação sexual esta noite? Para que nossos filhos não nos vejam em desarmonia? Para que ela finalmente admita que a cesta de roupa suja estava no lugar errado?

“Talvez, cada um desses desejos seja verdadeiro. Mas são todos motivos fracos para eu obter o perdão de minha esposa. O que está faltando é isto: eu quero ser perdoado para que tenha de volta a agradável comunhão com minha esposa. Ela é a razão por que eu desejo ser perdoado. Quero o relacionamento restaurado. O perdão é apenas um meio de remover os obstáculos, de modo que possamos olhar novamente um para o outro, com alegria”.

John Piper, após esta brilhante ilustração, conclui com graves considerações, que transcrevo a seguir. Afinal, este é um assunto de vida e morte, no qual todos devemos meditar muito seriamente.

“[...] todas as bênção do evangelho são meios de remover os obstáculos para que conheçamos a Deus e desfrutemos mais plenamente dEle”.

“O evangelho não é uma maneira de levar as pessoas ao céu; é um meio de trazer as pessoas a Deus”.

“Se não queremos Deus acima de todas as outras coisas, não fomos convertidos pelo evangelho”.

“E as pessoas que seriam felizes no céu sem a presença de Cristo, não estarão no céu”.

Você entendeu bem? Elas simplesmente “não estarão no céu.”

E você, estará?

Por Alan Capriles

* Este artigo contém trechos do livro “Deus é o Evangelho - Um Tratado Sobre o Amor de Deus como Oferta de Si Mesmo” de John Piper, Editora Fiel.

26 maio 2010

OS INDIANOS ORAM POR NÓS

Por Alan Capriles

A revelação encontra-se no livro "Oração de Avivamento" de Leonard Ravenhill. Apesar de ser uma obra escrita nos anos 60, o texto que compartilho abaixo continua mais atual do que nunca!

Ravenhill divulga parte do artigo de um líder cristão na Índia, chamado Bakht Singh. Ao ler o artigo, de quase meio século atrás, perceba como o modelo de igreja evangélica norte-americana influenciou (e continua influenciando) os evangélicos brasileiros.
"As igrejas indianas têm um grande peso de intercessão pela América e estão orando para que Deus visite este país com o reavivamento.
Vocês lamentam tanto a nossa pobreza material na Índia, enquanto nós indianos, que conhecemos o Senhor, lamentamos a pobreza espiritual da América. Oramos para que Deus lhes dê o ouro refinado pelo fogo, o qual Ele prometeu a todos quantos conhecem o poder da sua ressurreição.
Em nossos cultos, gastamos de quatro a seis horas em oração e adoração, enquanto nosso povo passa toda a noite esperando no Senhor em oração. Mas na América, após uma hora de culto, você começam a olhar o relógio. Oramos para que Deus possa abrir-lhes os olhos para compreenderem o verdadeiro significado da adoração.
Para atrair as pessoas aos cultos, vocês dependem de grandes divulgações, cartazes, anúncios e de pregadores reconhecidamente ungidos e talentosos. Na Índia, tudo o que nós possuímos é o próprio Senhor Jesus, e Ele nos basta. Antes de uma reunião evangélica na Índia, jamais anunciamos quem será o pregador. Quando as pessoas vêm, elas querem buscar o Senhor, e não um ser humano ou um palestrante famoso e especial. Em nossas reuniões, temos tido aproximadamente 12 mil pessoas unidas para adorar ao Senhor Jesus Cristo e terem comunhão umas com as outras. Estamos orando para que as pessoas na América possam também vir às igrejas famintas pela presença de Deus, e não meramente desejosas de algum tipo diferente de entretenimento, ouvindo belos corais ou talentosos cantores." (Bakht Singh)
A seguir, vem o comentário de Leonard Ravenhill:
"Será que ficaremos ofendidos em nosso orgulho ao sabermos que a Índia está clamando a Deus contra a pobreza espiritual da abastada América? A autoridade de Bakht Singh está no fato de que tudo o que ele diz acontece. Ele tem considerado que os custos dos métodos de divulgação de nossas campanhas evangelísticas (necessitando da cobertura de Wall Street) não tem um mínimo de relação com o cristianismo do Novo Testamento. Será que temos nos extraviado a poonto de ser impossível voltar aos procedimentos da igreja primitiva? Esta é uma questão delicada."
Trecho de "Oração de Avivamento - uma mensagem poderosa e urgente para o Corpo de Cristo" de Leonard Ravenhill - Editora Motivar

22 maio 2010

O FIM DE UMA ERA - UM ALERTA PARA A IGREJA

Por Alan Capriles 

Sinto-me no dever de recomendar a todos, especialmente aos que se preocupam com os rumos da Igreja, a leitura de O Fim de Uma Era.  Além das razões teológicas, há um pouco de sentimento envolvido nesta recomendação. Seu escritor, bispo Walter McAlister, foi meu primeiro pastor, no final da década de 80, época de minha conversão a Cristo. Lembro-me do quanto eu gostava de ouvi-lo pregar, o que acontecia geralmente às quartas-feiras, na Igreja de Nova Vida em Botafogo. Seu pai, saudoso bispo Roberto, era quem costumava pregar aos domingos. Mas, confesso que não tinha tanta admiração pelo meu pastor quanto agora, depois da leitura de seu livro. Fiquei extremamente feliz ao constatar que, apesar dos desvarios de muitos líderes da igreja evangélica brasileira, o bispo Walter continua fiel às Escrituras e zeloso para com a obra de Deus.

Posso garantir que O Fim de Uma Era não é apenas uma opção de leitura, mas é uma obra que precisava ser escrita. As coisas não vão bem com a igreja e alguém precisava mostrar de forma clara e corajosa "o que" não vai bem. A verdade é que muitos líderes simplesmente não querem enxergar no que tem se tornado a Igreja em nosso país. Mas agora não terão mais desculpas para tamanha cegueira. Alguém deu o alerta.  E muito me alegra que tenha sido meu primeiro pastor, hoje bispo, Walter McAlister. Que Deus lhe conceda cada dia mais coragem, direção e sabedoria para continuar despertando, através do Espírito Santo, a Igreja do Senhor Jesus.

Eis a seleção de apenas alguns trechos de O Fim de Uma Era - editora Anno Domini:
Estamos no fim de uma era. A Igreja está definhando, se não no seu tamanho, certamente no seu testemunho. Nunca houve tantos que proclamaram a luz de Deus e que, paradoxalmente, vivem como filhos das trevas. Mais do que nunca precisamos ouvir a conclamação: "Desperta, ó tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo te ilumiará. Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus." (Efésios 5.14-16, NVI)
É altamente possível que a Igreja como nós a conhecemos hoje esteja prestes a desaparecer. Porque, quando a coisa apertar, e vai apertar, quando mais difícil for a situação, mais as pessoas vão abandonar as soluções imediatistas para procurar as verdadeiras. E, se a Igreja não as apresentar, pode definhar rapidamente, como já aconteceu na Europa e está ocorrendo nos Estados Unidos. As projeções nos Estados Unidos são que, dentro de trinta a quarenta anos, a Igreja caia para um quinto do seu tamanho.
A Igreja não é chamada para ser eficiente, grande ou rica. Ela é chamada para ser fiel. E fidelidade pode ser algo muito pequeno, demorado e sofrido. Para sermos fiéis temos de estar dispostos a sermos considerados malsucedidos pela sociedade - até irrelevantes -, porque a verdadeira Igreja é irrelevante para a sociedade.
Mas a Igreja quer aplausos, e já. Faz um grande evento, o governador aparece e todos acham que uma grande coisa aconteceu. (...) A busca de comendas, aplausos e reconhecimento da nossa contribuição à sociedade é vaidade e correr atrás do vento. Quem faz isso desperdiça seu ministério e sua vida.
Dentro desse contexto, creio que a Igreja está prestes a ser desagradavelmente surpreendida, pois vem usando sua liberdade religiosa como um marinheiro embriagado. No Brasil, a percepção de que a igreja é um bom negócio, de que o sacerdote é um sem-vergonha e de que tudo gira apenas em torno do dinheiro provavelmente fará com que a Igreja seja surpreendida por medidas do governo federal que poderão colibir sua liberdade. E uma Igreja banalizada não tem tônus espiritual para fazer frente a uma verdadeira perseguição. Então uma grande parte vai simplesmente fugir da igreja, que vai se esvaziar. Muitas vão quebrar. Essa festa vai acabar...
Os trechos acima podem ser conferidos na íntegra no site oficial do livro, que disponibiliza o primeiro capítulo para leitura:
http://www.ofimdeumaera.com.br/

11 março 2010

ROBERTO MCALISTER ALERTOU: "TELEVISÃO CRIA MONSTROS"

por Alan Capriles

O Bispo Robert McAlister, fundador da Igreja Pentecostal de Nova Vida, foi pioneiro em transmitir o Evangelho pela televisão brasileira. Em 1978, se tornou um dos primeiros televangelistas com o programa "Coisas da Vida", que apresentou por um bom tempo na TV Tupi.

Apesar de já não estar mais conosco desde 1993, somente agora se tornou pública a razão pela qual o bispo Roberto deixara de fazer programas na televisão, abrindo espaço para R.R. Soares, Silas Malafaia, entre outros.

A revelação vem por meio de seu filho, Walter McAlister, bispo primaz da Aliança das Igrejas Cristãs de Nova Vida, que lançou recentemente "O Fim de Uma Era", livro em que traça uma radiografia da Igreja evangélica brasileira desde o início do século XXI.

Numa época de tantos programas evangélicos na TV e de tantas celebridades no mundo gospel, esta revelação soa como um grave alerta, que deveria ser amplamente difundida. Levando em conta que o bispo Roberto McAlister foi pioneiro no televangelismo, aqueles que hoje fazem de tudo para continuar aparecendo na TV deveriam considerar as razões de suas palavras, e a impressionante conclusão de seu filho.

Segue, portanto, o trecho do livro de Walter McAlister, no qual não apenas revela porque seu pai preferiu se afastar da televisão, como também explica porque as programações evangélicas deveriam ser extintas da TV.

Meu pai fez um programa de televisão durante um tempo. Ele me disse: "Televisão cria monstros". Eu vi o quanto ele lutava contra a vaidade gerada pelo fato de ser conhecido na rua. Ele mesmo me confessou como a vaidade dele era um problema para ele, por causa de sua fama. Televisão evangélica apenas cria celebridades, não avança a causa de Cristo. Por quê? Porque não se assiste a televisão para ouvir a verdade. É como levar a mensagem do Evangelho para o circo e pregar entre o show dos macados amestrados e o dos palhaços. Pessoas não vão ao circo para ouvir o Evangelho, e sim para se divertir com os macacos, os palhaços, os acrobatas. Então, de repente, o Evangelho se insere num contexto completamente contrário àquele que tem a estrutura necessária para transmiti-lo. E o que acontece? Leva-se a Arca para fora do Santo dos Santos, para o campo de batalha. No popular: a Igreja vira circo. Com isso, a Igreja perde a batalha, pois, em vez de se concentrar naquilo que é sagrado, construir comunidade, ensinar a verdade e formar bons discípulos, está numa guerra voltada para determinar quem grita mais alto no meio do circo chamado "televisão".
 

O FIM DE UMA ERA - Walter McAlister - Editora Anno Domini - pág. 40
http://www.ofimdeumaera.com.br/

03 janeiro 2010

AMBIÇÃO CONTROLADORA


Fiquei surpreso e muito impressionado com o trecho de um livro que terminei de ler dias atrás. Quero muito compartilhar com os leitores deste blog, porque a experiência de Steve Gallagher, autor de "A Grande Apostasia" se parece muito com a própria experiência de libertação pela qual passei em 2009, ano que mudou por completo minha vida.
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Qualquer um com uma personalidade carismática, habilidades naturais e uma mensagem positiva pode desfrutar de enorme fama e sucesso [no mundo gospel].

Conheço muito bem o sistema porque houve um tempo em que vivi atrás do que ele oferecia. De todo coração eu queria obter sucesso nele.

Minha busca por significado interior e honra exterior me levavam a trabalhar incansavelmente e a fazer campanha por causa própria. Tentei conhecer as pessoas certas e estar nos programas mais populares. Lutei e me esforcei muito para subir "essa escada". Orava de todo coração para que Deus abençoasse meu ministério.

Eu até era sincero em meu desejo de ajudar os outros, mas o "eu" dominava grande parte de meus esforços. Em 1992, apareci em diversos programas de rádio e televisão de alcance nacional, então, quando parecia que estava prestes a "estourar", tive uma crise: Deus começou a expor meu orgulho e minha ambição.

Sempre que tentava seguir meu próprio caminho, me deparava com a disciplina de Deus. Foi um período muito difícil de sete anos de severo tratamento.

Hoje sou extremamente grato pelo Senhor ter me libertado de minha ambição controladora.

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Trecho do livro
A Grande Apostasia - Editora Propósito Eterno, 2009. Pág. 201

27 setembro 2009

O SEGREDO DE UM EVANGELISTA


Charles G. Finney

Para honra exclusiva de Deus, contarei um pouco da minha própria experiência no assunto. Fui poderosamente convertido na manhã do dia 10 de outubro. À noitinha do mesmo dia, e na manhã do dia seguinte, recebi batismos irresistíveis do Espírito Santo, que me traspassaram, segundo me pareceu, corpo e alma. 

Imediatamente me achei revestido de tal poder do alto, que umas poucas palavras ditas aqui e ali a indivíduos provocavam a sua conversão imediata. 

Parecia que minhas palavras se fixavam como flechas farpadas na alma dos homens. Cortavam como espada; partiam como martelo os corações. Multidões podem confirmar isso. Muitas vezes uma palavra proferida, sem que disso eu me lembrasse, trazia convicção, resultando, em muitos casos, na conversão quase imediata.

Algumas vezes me achava vazio desse poder: saía a fazer visitas e verificava que não causava nenhuma impressão salvadora. Exortava e orava, com o mesmo resultado.

Separava então um dia para jejum e oração, temendo que o poder me houvesse deixado e indagando ansiosamente pela razão desse estado de vazio.

Após ter-me humilhado e clamado por auxílio, o poder voltava sobre mim em todo o seu vigor. Tem sido essa a experiência da minha vida.

Poderia encher um volume com a história da minha própria experiência e observação com respeito a esse poder do alto. É um fato que se pode perceber e observar, mas é um grande mistério. [...]

Esse poder é uma grande maravilha! Muitas vezes já vi pessoas incapazes de suportar a palavra. As declarações mais simples e comuns cortavam os homens como espada, onde se achavam sentados, tirando-lhes a força física e tornando-os desamparados como mortos. Várias vezes já fiquei impossibilitado de levantar a voz, ou de falar em oração ou exortar a não ser de modo bem suave, sem dominar inteiramente os presentes. Não que eu pregasse de modo a aterrorizar o povo: os mais doces sons do evangelho os submergiam. Parece que às vezes esse poder permeia o ambiente das pessoas que o possuem. Muitas vezes em uma comunidade grande número de pessoas é revestido desse poder, e então toda a atmosfera do lugar parece ficar impregnada com a vida de Deus. Os estranhos que ali chegam de fora, de passagem pelo lugar, são, de repente, tomados de convicção de pecado e, em muitos casos, se convertem a Cristo.

Quando os cristãos se humilham e consagram novamente a Cristo tudo o que possuem, pedindo então esse poder, recebem muitas vezes esse batismo e se tornam instrumentos da conversão de mais almas em um dia do que em toda a sua vida até então. Enquanto os crentes permanecem humildes bastante para continuar de posse desse poder, a obra da conversão prossegue até que comunidades e mesmo regiões inteiras se convertem a Cristo. O mesmo acontece com pastores.
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Charles G. Finney

Trecho do livro "Uma Vida Cheia do Espírito"

14 setembro 2009

POR QUE TARDA O AVIVAMENTO?

O impressionante texto abaixo foi escrito em 1959, mas nunca esteve tão atual e urgentemente necessário.

Antes de tudo, quero lembrar que "avivamento" nada tem haver com pula-pula, gritaria, ou cai-cai. Trata-se de um despertamento espiritual e pleno para Deus e sua vontade, resultando em vidas realmente convertidas a Cristo. Nada parecido com os supostos "cultos de avivamento" propagados em nossos dias.

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Por Leonard Ravenhill

Por que tarda o avivamento? A resposta é muito simples.

Tarda porque os pregadores e evangelistas estão mais preocupados com dinheiro, fama e aceitação pessoal, do que em levar os perdidos ao arrependimento.


Tarda porque nossos cultos evangelísticos parecem mais shows teatrais do que pregação do evangelho.


O avivamento tarda porque os evangelistas de hoje têm receio de falar contra as falsas religiões.

Elias zombou dos profetas de Baal, e debochou da sua incapacidade de fazer chover. Seria melhor que saíssemos à noite (como fez Gideão), e derrubássemos os postes-ídolos dos falsos deuses, do que deixar de realizar a vontade de Deus. As seitas anticristãs e as religiões ímpias desta nossa hora final constituem um insulto contra Deus. Será que ninguém fará soar o alarme?
Por que não protestamos? Se tivéssemos metade da importância que julgamos ter e um décimo do poder que pensamos possuir, estaríamos recebendo um batismo de sangue, tanto quanto recebemos de água e fogo.
As portas das igrejas da Inglaterra se fecharam para João Wesley. E um de seus críticos disse que “ele e seus tolos pregadores leigos — esses grupos de funileiros, garis, carroceiros e limpadores de chaminés — estão saindo por aí a envenenar a mente das pessoas”. Que linguagem abusiva! Mas Wesley não tinha medo nem de homens nem de demônios. E se Whitefield era ridicularizado nas peças de teatro da Inglaterra da maneira mais vergonhosa possível, e se os cristãos do Novo Testamento foram apedrejados e sofreram todo tipo de ignomínia, por que será que nós, hoje em dia, não provocamos mais a ira do inferno, já que o pecado e os pecadores continuam sempre os mesmos? Por que será que somos tão gelados e enfadonhos? É bem verdade que pode haver muito tumulto sem avivamento. Mas, à luz do ensino bíblico e da história da igreja, não podemos ter avivamento sem tumulto.

O avivamento tarda porque não temos mais intensidade e fervor na oração.
Há algum tempo, um famoso pregador, ao iniciar uma série de conferências, fez a seguinte declaração: “Vim para esta série de conferências com grande desejo de orar. Agora peço àqueles que gostariam de carregar junto comigo esse peso que ergam uma das mãos, e que ninguém seja hipócrita”.
Um bom número de pessoas levantou a mão. Mas, lá pelo meio da semana, quando alguns resolveram promover uma vigília, o grande pregador foi dormir. Que hipocrisia!
Já não existe mais integridade. Tudo é superficial. O fator que mais retarda a vinda de um avivamento do Espírito Santo é essa ausência de angústia de alma. Em vez de buscarmos a propagação do reino de Deus, estamos fazendo mais propaganda. Que loucura! Quando Tiago (5.17) diz que Elias “orou”, estava acrescentando um valioso adendo à biografia dele registrada no Velho Testamento. Sem essa observação, ao lermos ali: “Elias profetizou”, concluiríamos que a oração não fez parte da vida dele.

Em nossas orações ainda não resistimos até o sangue; não mesmo. Como diz Lutero, “nem ao menos fizemos suar nossa alma”. Oramos com uma atitude tipo “o que vier está bom”. Deixamos tudo ao acaso. Nossas orações não nos custam nada. Nem mesmo demonstramos forte desejo de orar. Fica tudo na dependência de nossa disposição, e por isso oramos de forma intermitente e espasmódica.
A única força diante da qual Deus se rende é a oração. Escrevemos muito sobre o poder da oração, mas ao orar não temos aquele espírito de luta. Nós fazemos tudo: exibimos nossos dons espirituais ou naturais; expomos nossas opiniões, políticas ou religiosas; pregamos sermões ou escrevemos livros para corrigir desvios doutrinários. Mas quem quer orar e atacar as fortalezas do inferno? Quem irá resistir ao diabo? Quem quer privar-se de alimento, descanso e lazer, para que os infernos o vejam lutando, envergonhando os demônios, libertando os cativos, esvaziando o inferno, e sofrendo as dores de parto para deixar atrás de si uma fileira de pessoas lavadas pelo sangue de Cristo?


Em último lugar, o avivamento tarda porque roubamos a glória que pertence a Deus.
Reflitamos um pouco sobre essas palavras de Jesus: “Eu não aceito glória que vem dos homens”. “Como podeis crer, vós os que aceitais glória uns dos outros, e contudo não procurais a glória que vem do Deus único?” (Jo 5.41,44.) Chega de toda essa autopromoção nos púlpitos. Chega de tanto exaltar “meu programa de rádio”, “minha igreja”, “meus livros”. Ah, que repulsiva demonstração carnal vemos nos púlpitos: “Hoje, temos o grande privilégio...” E os pregadores aceitam isso; não, eles já o esperam. (E se esquecem de que só estão ali pela graça de Deus.) E a vaidade é que, quando ouvimos tais homens pregar, notamos que nunca ficaríamos sabendo que eram tão importantes, se não tivessem sido apresentados como tal.

Coitado de Deus! Ele não está recebendo muita glória! Então, por que ele ainda não cumpriu sua terrível mas bendita ameaça de que iria vomitar-nos de sua boca? Nós fracassamos; estamos impuros. Apreciamos os louvores dos homens. Buscamos nossos próprios interesses. Ó Deus, liberta-nos dessa existência egoística, egocêntrica! Dá-nos a bênção do quebrantamento! O juízo deve começar por nós, pelos pregadores!

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Trecho do livro "Por que Tarda o Pleno Avivamento?"
Leonard Ravenhill