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24 julho 2015

SERÁ QUE DEUS EXISTE?

Como manter a fé em meio a tanto sofrimento

 

Por Alan Capriles

Questionar a existência de Deus não é algo que ocorre somente aos ateus e agnósticos.[1] E também não se trata de modismo passageiro. Essa dúvida tem ocorrido até mesmo nas pessoas mais religiosas, especialmente quando se deparam com tragédias pessoais, como a perda de um ente querido.

Por mais religioso que alguém seja, o que dizer para um pai que está em prantos pela morte do filho? Os amigos de Jó bem que tentaram lhe dizer alguma coisa, mas melhor seria se houvessem permanecido calados.[2] E aquela costumeira frase, de que “Deus sabe de todas as coisas”, dificilmente consolará pais que só querem ter o seu filho de volta.

Ainda que quase ninguém o diga, muitos na hora da dor se perguntam: “Será que Deus existe mesmo?”[3] E, se existe, por que permite que tamanho mal aconteça? O fato é que, mais cedo ou mais tarde, todos que dizem acreditar em Deus terão sua fé provada pelo sofrimento. Ninguém escapa de sofrer, nem o mais rico dos homens.

Mas, então, se todos sofrem, por que insistimos na crença em Deus?

Não é bem assim. Tem sido cada vez maior o número dos que se dizem ateus e agnósticos devido ao sofrimento. E o mais curioso é que a maioria desses professava determinada religião. Alguns passaram a duvidar da existência de Deus mesmo após chegar ao sacerdócio, como foi o caso do historiador Bart Ehrman. Em um de seus livros, intitulado O Problema com Deus, Ehrman tenta justificar seu agnosticismo elaborando perturbadoras questões relacionadas ao sofrimento:

“Por que os doentes continuam a definhar com dores indizíveis? Por que bebês ainda nascem com defeitos congênitos? Por que crianças são sequestradas, estupradas e assassinadas? Por que há secas que deixam milhões de pessoas famintas, levando vidas horrendas e excruciantes que terminam com mortes horrendas e excruciantes? [...] Por que uma criança – uma simples criança! – morre de fome a cada cinco segundos?”

Por que Deus permitiria tanta dor e maldade? Não ter encontrado uma resposta plausível para tanto sofrimento no mundo levou Ehrman a duvidar que Deus exista. Nesse mesmo capítulo ele completa: “Eu não sei se existe um Deus; mas acho que se houver um, ele certamente não é aquele proclamado pela tradição judaico-cristã, aquele poderosa e ativamente envolvido com este mundo. E assim, deixei de ir à igreja.”

Bart Ehrman parece ter sido sincero ao apontar o sofrimento como principal motivo para abandonar sua fé. Mas ele também se revelou humilde ao confessar algo que os ateus não estão dispostos a reconhecer: “eu não sei se existe um Deus”.

Certamente, esse é o ponto crucial. Não se pode comprovar que Deus não exista. Mas, se Deus fosse do jeito que Ehrman gostaria que fosse, então ele aceitaria que existe um Deus e não haveria problema. Ou melhor, nenhum problema, pois o mundo seria perfeito e todos seriam felizes para sempre! Agnósticos – a exemplo de Barth Ehrman – criam a imagem do deus que eles gostariam que existisse, mas quando percebem que o seu deus não se encaixa com a realidade que há, então passam a duvidar que Deus realmente exista. Os ateus também fazem o mesmo, embora neguem sequer imaginar qualquer tipo de deus, bem como a possibilidade de haver um Criador. Como se vê, os agnósticos parecem ser mais humildes e honestos, pois os ateus também não podem provar que não haja um Criador, a não ser pela desculpa de que Deus não é como eles gostariam que fosse. Mas admitir isso é algo que os ateus não estão dispostos a fazer.

Portanto, o x da questão é a premissa na qual ateus e agnósticos se baseiam para que Deus possa existir, ou seja, a de que a felicidade suprema e pessoal seria o propósito de toda existência humana. Mas, como há sofrimento e pessoas infelizes, então eles concluem que Deus não deve existir.

Essa noção, de que a existência do sofrimento implique na inexistência de Deus, não é uma ideia recente.[4] Porém, numa sociedade cada vez mais individualista, é natural que o número de pessoas que pense assim esteja crescendo rapidamente. Um crescimento alimentado pela mídia, que todos os dias tenta nos fazer acreditar que somos especiais e merecedores de todo conforto, luxo e divertimento possíveis. Evidentemente, essa mentalidade deturpada também contamina o meio religioso. Não por acaso o slogan “chega de sofrer” tornou-se um chamariz (que funciona) para igrejas onde os pregadores prometem o céu na terra. Essas igrejas estão sempre lotadas porque é nisso que as pessoas querem acreditar! O problema é que isso não é verdade.

Os crentes, assim como os ateus e agnósticos, também estão sujeitos a sofrer. A despeito do que ensinam certos pregadores, o sofrimento não é consequência da falta de fé. A pregação religiosa que promete uma vida sem sofrimento pode surtir efeito a curto prazo, atraindo os mais carentes e incautos. Mas, a longo prazo, quando esses voltarem a sofrer, ou eles irão procurar outra igreja, que não lhes engane, ou abandonarão de vez a fé, traumatizados por uma expectativa de plena prosperidade que não se concretizou. Temo que esse último cenário esteja ocorrendo com maior frequência. Uma religião deturpada pode gerar muito mais ateus que o secularismo hodierno.

Como se vê, não é difícil identificar as causas do crescente ateísmo. Mas, quanto ao sofrimento, identificar o seu porquê não é tarefa tão simples assim. Há muitas explicações, que variam de acordo com as mais diversas posições religiosas e filosóficas. Não caberia nesse texto esmiuçar as diferentes respostas apresentadas para se explicar o sofrimento. Obviamente, algumas se contradizem e não é possível que todas estejam certas.

Mas, francamente, não penso que a crença religiosa ou filosófica seja tão relevante quanto a compreensão e aceitação do óbvio: por mais doloroso que seja, o sofrimento faz parte da vida. E talvez faça parte da vida porque o sofrimento é bastante didático e revelador. Didático, porque aprendemos mais quando nos deparamos com o sofrimento do que quando tudo vai bem. E revelador, porque no sofrimento manifesta-se quem realmente somos. Foi o que ocorreu, por exemplo, na conhecida parábola do bom samaritano. Os religiosos, que aparentavam ser pessoas melhores, revelaram-se indiferentes à dor alheia, enquanto aquele desprezado samaritano se revelou misericordioso e solidário para com um estranho que sofria.[5]

Não obstante, além de nos ensinar sobre nós mesmos e sobre o próximo, o sofrimento também é a melhor oportunidade para exercitarmos a fé e o amor que dizemos ter. É provável que você já tenha notado que as maiores manifestações de fé geralmente ocorrem quando somos diretamente atingidos pela dor. São nesses momentos difíceis que passamos a buscar a Deus com mais intensidade – o que também revelará se confiamos ou não na providência divina. Mas é quando nos deparamos com a dor alheia que temos a chance de exercitar o verdadeiro amor, o qual se concretiza na compaixão pelo próximo, levando-nos a socorrer aos que precisam de ajuda.

Suponho que não haveria fé e amor neste mundo se não houvesse também o sofrimento, que os promove por toda parte. Se não houvesse sofrimento seríamos todos indiferentes ao próximo e descrentes em Deus, pois não necessitaríamos buscá-lo. Seríamos também insuportavelmente arrogantes e soberbos, julgando sermos grande coisa por não conhecermos qualquer aflição. Tudo e todos perderiam seu valor, pois nunca saberíamos o que é a dor de uma perda.[6]

Como se vê, o sofrimento não é de todo mal. Porém, em alguns casos, o sofrimento parece mesmo não fazer o menor sentido e jamais conseguiremos entender plenamente o seu propósito. Resta-nos apenas confiar em Deus – algo que não deveria nos surpreender e nem mesmo incomodar. Ora, se soubéssemos de tudo, nós é que seríamos Deus e não apenas homens.

Porém, se pudéssemos ver além de nossas limitações humanas e temporais, perceberíamos que todo sofrimento sempre resultará em algo bom e melhor; compreenderíamos que toda dor pela qual passamos foi terminantemente necessária para sermos edificados e fortalecidos; reconheceríamos o quanto Deus nos ama, a ponto de sofrer juntamente conosco, se fazendo um homem experimentado em dores, na pessoa do seu filho, Jesus.

Notas


[1] Diferença entre ateus e agnósticos: ateus negam categoricamente que possa existir um deus; agnósticos dizem que não há como alguém saber se Deus existe ou não.

[2] Referência ao livro de Jó, personagem bíblico que num só dia perdeu todos os seus bens e também todos os filhos. Três amigos tentaram consolá-lo, buscando justificativas para sua dor, mas tudo quanto disseram foi repreendido por Deus. Confira em Jó 2:11-13, 4:1, 42:7.

[3] Por exemplo, questionar se Deus existe foi o compreensível desabafo do pai do cantor sertanejo Cristiano Araújo, cuja carreira foi abruptamente interrompida num acidente de carro.

[4] Essa discussão é tecnicamente chamada de Teodicéia, um termo que se refere a resolver a seguinte questão: como pode haver sofrimento no mundo se Deus é amor e tem todo o poder? Embora esse termo tenha surgido somente a partir do século XVII, o problema já havia sido apresentado muito antes, há cerca de 2.500 anos, pelo filósofo grego Epícuro.

[5] Uma das parábolas mais famosas de Jesus Cristo, registrada em Lucas 10:25-37.

[6] Coincidência ou não, na semana em que escrevi esse texto tornei a assistir, pela enésima vez, ao documentário “Estou Vivo – O milagre nos Andes”, que conta como 16 jovens conseguiram sobreviver por 70 dias na cordilheira andina, após a queda do avião em que estavam. Dois deles, Nando Parrado e Roberto Canessa, precisaram caminhar na neve por exaustivos 60 quilômetros, atravessando as montanhas, até conseguirem ajuda. Considero inteiramente apropriado, como complemento desse texto, parte do depoimento que eles deram neste documentário, revelando as lições que aprenderam com todo aquele sofrimento:

“Percebi que precisamos de coisas simples para sermos felizes. E como exigimos mais do que precisamos na vida!” - Roberto Canessa

“Aprecio o fato incrível de estar vivo, todo dia, a cada respiração... A vida é mais simples do que parece. Para mim o amor é a coisa mais importante do mundo. O amor por nossas famílias nos mantém vivos.” - Nando Parrado

Você pode conferir esse incrível documentário clicando aqui.

Alan Capriles

25 junho 2015

A DIVINA HUMANIZAÇÃO DE CRISTO

A Busca pelo Jesus Histórico e a Divindade de Cristo
Por Alan Capriles


A chamada busca pelo Jesus histórico é o esforço acadêmico de se analisar a vida de Cristo somente pela perspectiva histórica, como um simples homem, ou seja, despido de qualquer suposto mito que o identifique como Deus. Neste sentido, os evangelhos e demais escritos do Novo Testamento necessitam ser examinados com extrema cautela, uma vez que qualquer milagre, especialmente o da ressurreição, não pode ser avaliado (e muito menos abalizado) segundo os parâmetros históricos.

Não se trata de má vontade dos acadêmicos, mas do simples fato de que o sobrenatural não pode ser comprovado por metodologia científica. Além disso, muitos estudiosos asseguram que os evangelhos foram escritos de 35 a 65 anos após a morte de Jesus, o que aumentaria a probabilidade de que seus autores não tenham sido testemunhas oculares dos relatos que escreveram. Para um historiador, o depoimento de alguém que presenciou o fato relatado é de grande relevância histórica. Mas, segundo supõem alguns pesquisadores, os evangelhos foram escritos por pessoas que não conheceram Jesus pessoalmente. Como se não bastasse, afirmam que existem discrepâncias na leitura paralela dos evangelhos, ou seja, que surgem divergências quando comparamos a ordem e os detalhes descritos da vida de Jesus em cada evangelho.[1]

Sendo assim, a pesquisa sobre o Jesus histórico consiste, principalmente, numa tentativa de se retirar supostas camadas de mito religioso que teriam sido acrescentadas sobre a pessoa do Nazareno. O assunto é extenso e polêmico, mas acho necessário apresenta-lo resumidamente a seguir, para somente depois revelar o impacto que tais estudos causaram em mim.

A chamada primeira busca pelo Jesus histórico se deu em meados do século XVIII, motivada pelo Iluminismo, o movimento europeu que exaltava o uso da razão como a única forma de se chegar à verdade. Muitos eruditos começaram a reescrever a vida de Jesus sob uma perspectiva extremamente racional (leia-se: que nega sua divindade), concluindo que o Nazareno poderia ter sido apenas um político mal sucedido que tencionava ser o rei de Israel, ou talvez um curandeiro que fazia uso de práticas terapêuticas, ou apenas um mito criado a partir de narrativas do Antigo Testamento, ou simplesmente uma lenda, baseada em pouquíssimo material histórico.

Tantas opiniões divergentes acerca de quem foi Jesus acabaram resultando em ceticismo quanto à possibilidade de se conhecê-lo por uma perspectiva histórica. Em 1911, Albert Schweitzer publicou sua famosa obra sobre o assunto, A Busca do Jesus Histórico, na qual demonstrou que os pesquisadores haviam falhado em suas biografias de Jesus porque cada autor projetava nele o próprio ideal ético que mais almejava. A despeito disso, Schweitzer também aventou sua hipótese acerca de quem foi o Nazareno: apenas mais um profeta judeu apocalíptico, que a princípio anunciava a vinda de uma figura escatológica, o Filho do Homem, o qual desceria do céu para estabelecer o reino de Deus na terra, mas que depois teria mudado de ideia, acreditando ser ele mesmo esse Filho do Homem. O teólogo Rudolf Bultmann foi ainda mais pessimista quanto à busca pela verdade histórica. Segundo ele, a única coisa relevante no aspecto da história é que Jesus existiu. Qualquer tentativa de se saber o que realmente aconteceu seria uma tarefa impossível do ponto de vista metodológico, e desnecessária do ponto de vista teológico. Bultmann afirmava que o importante é o Cristo da fé, ressuscitado e vivo no coração de cada crente, o qual se baseava em tradições acerca de Jesus que jamais poderiam ser historicamente comprovadas. Sendo assim, o assunto parecia definitivamente morto e enterrado.

Mas eis que, após algumas décadas de compreensível silêncio, houve uma ressurreição na busca pelo Jesus histórico. Reavivados por uma nova pergunta, os pesquisadores desejavam então saber se o Querigma (a exaltação fundada na cruz e na ressurreição) teria alguma base na pregação de Jesus, ou seja, se determinados ditos e ações provinham mesmo dele ou se eram visões posteriores da Igreja. Talvez possamos estabelecer precisamente o início dessa segunda busca em 23 de Outubro de 1953, quando o professor Ernest Käsemann, na conferência denominada O Problema do Jesus Histórico, defendeu a criação de uma teologia baseada na realidade histórica sobre o que Jesus de fato ensinou. Ele argumentou que isso não somente era necessário, mas que já era possível, devido aos avanços nas áreas da Arqueologia, História, Antropologia e Filosofia. Abandonava-se o interesse pela cronologia dos eventos e da publicação de novas biografias de Jesus, mas mantinha-se o ceticismo em relação aos milagres – uma herança do Iluminismo. A partir de então o foco seria determinar quais ensinamentos de Cristo eram autênticos ou não. Os parâmetros para essa pesquisa começavam a consolidar-se, resultando em um boom no interesse pelo Jesus histórico a partir do final do século XX.

Atualmente experimentamos o que se pode chamar de terceira busca, na qual Jesus é reinserido em seu contexto judaico, possibilitando aos judeus perceberem-no como parte de sua história. O interesse histórico-social substituiu o teológico, razão pela qual agora se admite a investigação de fontes não canônicas e até heréticas, tais como o apócrifo Evangelho de Tomé. O maior exemplo desse empenho se deu na formação do The Jesus Seminar, projeto norte-americano iniciado em 1985, no qual pesquisadores passaram a reunir-se duas vezes ao ano para avaliarem Jesus segundo os modernos métodos da pesquisa crítica e histórica.[2] Em sua primeira fase os participantes deveriam votar em quais ditos seriam autênticos ou não, tratando a questão como se ela pudesse ser resolvida democraticamente. Essa polêmica votação estabeleceu que pouquíssimos ditos atribuídos a Cristo nos evangelhos, incluindo o de Tomé, seriam provavelmente autênticos. Apenas quinze, para ser mais exato! Isso causou desconforto para os pesquisadores europeus, os quais discordam deste método, e indignação para muitos teólogos que se perguntam de qual Jesus estaríamos falando.

As conclusões mais recentes acerca do Jesus histórico estão amplamente disponíveis em língua portuguesa. Obras de pesquisadores conceituados, como Geza Vermes, John Dominic Crossam e John Paul Meier podem ser encontradas com certa facilidade nas melhores livrarias brasileiras. O ex-pastor evangélico (agora agnóstico) Bart Ehrman popularizou ainda mais o assunto, escrevendo livros com títulos sensacionalistas, tais como “O que Jesus disse, o que Jesus não disse” e “Como Jesus se tornou Deus”. Neste último, Ehrman escancara o que até então estava nas entrelinhas dos demais autores, ou para a maioria deles: Deus não se fez homem em Jesus, mas o próprio homem é que teria elevado Jesus ao status de Deus.

Particularmente, o estudo do Jesus histórico não me levou a essa conclusão. Na verdade, consolidou ainda mais a minha fé em Cristo. E ninguém pode me acusar de leviandade, pois não somente li todos os livros de Ehrman, com também li as principais obras de Crossan, Vermes, Schweitzer, além de autores ainda não mencionados, tais como Reza Aslan e André Leonardo Chevitarese. Este último merece especial consideração, por ser o historiador brasileiro que mais tem incentivado o estudo do Jesus histórico em nosso país. Tive o privilégio de participar de alguns cursos ministrados na UFRJ por excelentes professores ligados a Chevitarese, tais como Daniel Justi, Juliana Cavalcanti e Lair Amaro Faria.[3] Participei desses cursos não como pastor ou teólogo, mas com a sincera disposição de um aprendiz.

E aprendi muito, reconheço; tanto nas aulas, quanto nos livros. Aprendi, principalmente, a refletir sobre a opinião da maioria eruditos acerca do Jesus Histórico, cujos pontos pricipais apresento a seguir:

  • Jesus não teria nascido em Belém, mas em Nazaré, uma aldeia insignificante, que sequer aparecia nos mapas, e cuja historicidade chegou a ser questionada, mas que foi comprovada por achados arqueológicos a partir do fim do século XIX;
  • Jesus teria crescido sendo chamado de filho da prostituição, pois ninguém acreditaria na história de que sua mãe foi engravidada pelo Espírito Santo;
  • Jesus teria sido analfabeto, como o restante dos camponeses pobres que moravam em Nazaré, pois seria praticamente impossível que ele aprendesse a ler morando naquela pequena e desprezível aldeia, onde sequer haveria alguém para ensinar as letras;
  • Jesus teria sido pedreiro (ofício ainda menos rentável que o de carpinteiro) e possivelmente tenha trabalhado em Séforis, cidade greco-romana mais próxima de Nazaré e que estava sendo reconstruída pelos romanos no período da vida adulta de Jesus;
  • Jesus teria sido um dos discípulos de João Batista, dando continuidade ao ministério deste após sua morte, mas com a sua própria mensagem;
  • Jesus teria feito seu ministério público tal como um mendigo, ou filósofo cínico, que pregava perambulando pelas aldeias sem ter onde dormir;
  • Jesus teria sido apenas mais um dentre os vários pregadores apocalípticos judeus que surgiram antes e depois dele;
  • Jesus teria tido menos seguidores do que se pensa e o número de apóstolos talvez se resumisse a seis ou sete – doze teria sido uma invenção posterior da igreja;
  • Jesus não teria realizado milagres de qualquer natureza, mas era reconhecido pelo povo como curandeiro e exorcista;
  • Jesus não teria desejado morrer na cruz para salvar ninguém, mas esperava por uma intervenção divina apocalíptica que não ocorreu;
  • Jesus teria sido crucificado por causa de sedição - ou seja, pela suspeita de que liderava um movimento contrário ao imperialismo romano - e não por causa de seu discurso religioso;
  • Jesus não teria sido sepultado, mas lançado numa vala comum, como os demais condenados à crucificação, e seu corpo logo teria sido comido por animais;
  • Jesus não teria ressuscitado.

Por favor, examine mais uma vez a listagem acima. Não é fantástico que alguém tão medíocre assim, como se revela "Jesus" nos parâmetros históricos, tenha se tornado o personagem mais famoso e querido de toda a história? 

Seria mesmo possível que tudo mais quanto se lê no Novo Testamento acerca de Cristo tenha sido inventado? Como poderia tamanha mentira ir adiante, uma vez que muitas pessoas que conheceram Jesus ainda estavam vivas enquanto Paulo pregava e escrevia suas epístolas sobre Cristo? E por que alguém tão insignificante teria sido tão popularmente comentado a ponto de sua memória ser preservada numa tradição oral que deu origem aos evangelhos? E por que os evangelhos inventariam fatos que complicariam sua credibilidade, tal como um dos apóstolos tê-lo traído, ou sua ressurreição ter primeiro sido atestada por mulheres? E por que os discípulos de Cristo dariam sua vida por algo que soubessem não ser verdade?

Enquanto os pesquisadores do Jesus histórico buscam, de todas as formas, comprovar a humana divinização de Jesus, para mim parece claro que, quanto mais frágil e humano ele se revela, tanto maior se torna o assombro, o milagre e a certeza de sua divindade. Ao menos para mim. 

Sinceramente, esse foi o resultado a que tais estudos me levaram. Agora percebo, impactado, que há um propósito divino na mais humilhante possível humanização de Cristo, bem como na atual redescoberta desse Jesus frágil, desse Jesus homem. A saber: a nossa própria e definitiva conversão a ele.

Alan Capriles
Notas
[1] A respeito das discrepâncias nos evangelhos, confira meu artigo intitulado As Divergências nos Evangelhos Sinóticos.
[3] Lair Amaro Faria é autor da excelente obra “Quem vos ouve, ouve a mim: oralidade e memória nos cristianismos originários”, a qual pode ser encomendada pelo site da editora Kline: http://www.klineeditora.com/catalogos.html

Referências bibliográficas
CHEVITARESE, André L. & FUNARI, Pedro Paulo. Jesus Histórico: Uma Brevíssima Introdução. Rio de Janeiro: Kline Editora, 2012.
THEISSEN, Gerd & MERZ, Annette. O Jesus Histórico: um Manual. São Paulo: Edições Loyola, 2002.
ASLAN, Reza. Zelota: A Vida e a Época de Jesus de Nazaré. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

07 agosto 2014

VOCÊ CONHECE A DEUS?

MEU COMENTÁRIO SOBRE UM VÍDEO ATEÍSTA



Por Alan Capriles

O vídeo em questão apenas reforça o que tenho afirmado: são as religiões que fomentam o ateísmo. Longe de ser uma prova da inexistência de Deus, o vídeo faz uma inteligente crítica às religiões criadas pelo homem - o que também inclui o cristianismo. Aliás, por falar em Cristo, vale ressaltar que, segundo os evangelhos, Jesus nunca orientou seus discípulos a tornarem-se católicos, protestantes, mórmons, adventistas, ou qualquer outro segmento que se diga cristão. De fato, Jesus nem parecia querer que seus seguidores se identificassem por um rótulo, como o de cristãos! [1] Uma análise mais profunda dos evangelhos ainda revela que Cristo não buscava iniciar uma nova religião, mas despertar as pessoas para o fato de que somos todos irmãos, filhos de um só Deus, cuja essência é o amor - sendo esse amor o caminho de retorno para o próprio Deus. [2]

O ensinamento de Cristo para toda a humanidade resume-se nisso: "Faça ao teu próximo o que você gostaria que ele fizesse a você." Em termos práticos: arrependa-se de toda prática do mal, perdoe o seu próximo e passe a lhe fazer o bem - isso é andar em amor e isso é ser salvo! Como concluiu Tiago em sua epístola: "a misericórdia triunfa sobre o juízo". [3]

Uma mensagem tão simples como essa, que Jesus pregava e vivia, certamente incomodava os religiosos de sua época, que complicavam o caminho da salvação com dogmas que nem eles mesmos conseguiam compreender e seguir. Seria cômico, se não fosse trágico, que o mesmo ainda ocorra hoje com aqueles que se dizem cristãos - os quais continuam complicando tudo e não aceitam a simples mensagem de que no amor há salvação, pois Deus é amor. Caso Jesus aparecesse novamente hoje, apregoando essa mesma mensagem, estou convencido de que muitos cristãos o expulsariam de seus templos, chamando-o de louco, condenando-o como herege - ou até mesmo rotulando-o como... ateu. [4]
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NOTAS
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[1] O termo cristão começou a ser usado de forma pejorativa, para ridicularizar os primeiros seguidores de Cristo. No entanto, por orientação dos apóstolos, isso tornou-se uma honra para os discípulos (1Pe 4:16) os quais,  nas gerações seguintes, vieram a criar os dogmas de uma nova religião: o cristianismo. Mas nada indica que Jesus tenha desejado criar uma nova religião, ou atacar as que já existiam. O relato dos evangelhos revelam que ele se mostrava neutro em relação a esse assunto. E a razão é simples: a evidência da salvação não está naquilo em que acreditamos (cada um acredita numa coisa) mas está naquilo que somos. Aquilo em que acreditamos pode nos influenciar a sermos pessoas melhores, ou piores, mas não são as crenças, em si mesmas, que nos salvam. Aliás, a salvação nem é algo que se dê somente após a morte, mas um estado de espírito que começamos a experimentar aqui e agora. Por isso Jesus dizia que o reino de Deus já havia chegado e que estava entre nós, ou em nós.

[2] Explico melhor isso em minha tese intitulada "A Salvação Segundo Jesus Cristo"

[3] "A misericórdia triunfa sobre o juízo" (Tiago 2:13) é somente um dos muitos versículos que claramente confirmam que a prática do amor (ágape) como evidência de que alguém está trilhando o caminho da salvação - algo que não deve ser confundido com "salvação pelas obras". Outros dois versículos incontestáveis são estes: "Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados" (Lucas 6:37) e "Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele." (1João 4:16) A salvação não é apenas um destino onde se chega, mas sobretudo um caminho por onde se vai - e esse caminho é o amor, razão pela qual a misericórdia triunfa sobre o juízo.

[4] Sim, Jesus poderia ser chamado de ateu! Não é por acaso que os primeiros seguidores de Cristo foram acusados de ateísmo. Isso não se devia somente ao fato de que esses discípulos não adorassem imagens, pois os judeus também não as adoravam e, no entanto, não eram assim perseguidos. Os primeiros discípulos eram acusados de ateísmo porque, de fato, eles não defendiam nenhuma religião! Suas reuniões eram somente uma celebração da vida, onde eles se edificavam uns aos outros trocando suas experiências, relembrando o que Cristo os ensinou e onde comiam e bebiam em sua memória - adorando, não ao Nazareno, mas ao Logos que nele se manifestara. Eles não tinham templos, nem rituais, nem dogmas, mas apenas os ensinamentos de Cristo, que os faziam viver em simplicidade e amor. E, justamente por viverem em amor, eles também não condenavam  aqueles que frequentavam templos, ou seguiam rituais, ou dogmas, mas os orientavam a que se arrependessem do mal e se perdoassem mutuamente. Por isso, contavam com a simpatia do povo, que a cada dia convertia-se a essa forma de viver, abandonando seus falsos deuses e suas crenças vãs. (Atos 2:47)

Alan Capriles

29 janeiro 2014

A CRUCIAL DIFERENÇA ENTRE CRER E TER FÉ

Por Alan Capriles

A confusão que se faz entre fé e crença é um equívoco tão antigo, quanto comum e perigoso, mas essa ignorância e risco não ocorrem por acaso. Esse problema começou no século V, quando não houve uma palavra que traduzisse corretamente para o latim o sentido original de fé na língua grega, induzindo milhões de cristãos a confundirem fé com crença. Um equívoco dessa natureza poderia ser facilmente reparado, bastando que os tradutores nos alertassem a respeito disso em notas de rodapé, ou numa breve introdução ao Novo Testamento. Porém não há qualquer menção a esse assunto na maioria das versões da Bíblia em português.[1] Como resultado, temos a incompreensão da profundidade daquilo que o texto bíblico realmente nos diz quando menciona fé, e principalmente quando a menciona em ação, conjugada no limitado verbo crer em português. 

O assunto é mesmo tão antigo e crucial que fico me perguntando se a simples compreensão da diferença entre crer e ter fé não teria evitado o absurdo das Cruzadas e da chamada Santa Inquisição – vergonhosas páginas da história "cristã", onde tanto sangue se derramou em nome de Cristo. Equívocos na interpretação de um texto podem realmente ocasionar consequências catastróficas e é bem possível que tal erro tenha sua parcela de culpa nesses terríveis episódios.

As raízes desse problema remontam ao final do século IV e início do século V, quando um erudito em hebraico e grego chamado Jerônimo, incentivado por Dâmaso I, bispo da igreja em Roma, realizou a tradução dos escritos do Antigo e Novo Testamento para o latim, resultando no que ficou conhecido como Vulgata: a primeira versão da Bíblia para um só idioma. Vulgata significa "comum" em latim, significando que a "versio vulgata" destinava-se a ser uma versão comum, ou seja, acessível a todo o povo, tendo em vista que naquela época o latim já era mais falado que o grego. Foi nessa inédita e ousada tradução da Bíblia que a confusão entre fé e crença teve o seu início. 

Ao deparar-se com o verbo grego pisteuou, que significa ter fé, Jerônimo precisou encontrar um termo latino que o substituísse – uma escolha que certamente não foi fácil.[2] Ocorre que na língua grega – idioma mais rico que o latim – o substantivo fé (pistis) possui um correlato verbal (pisteuou), ou seja, a fé pode ser conjugada verbalmente, ao contrário do que ocorre no português e demais línguas de origem latina[3]. Ora, não havendo verbo em latim para o termo grego que significava a ação da fé, Jerônimo optou por um verbo latino que substituísse pisteuou e que, a seu ver, se aproximava do que significava ter fé. Sua escolha foi o verbo credere (crer).[4] O problema está em que o verbo crer também é sinônimo de acreditar e foi esse último sentido, o de crença, que prevaleceu com o passar dos séculos. Mas fé, como veremos, é algo mais profundo que meramente acreditar, embora comece com o crer. 

A escolha de Jerônimo pode ter sido a melhor em sua época, mas atualmente (e há mais de mil anos!) tornou-se um problema para o entendimento de diversas passagens neotestamentárias. Existe mais de uma centena de versículos no Novo Testamento onde os leitores facilmente confundirão fé com crença, pois onde agora lemos o verbo “crer” originalmente o autor falava de “fé”, mas num sentido ainda mais profundo que o atual.[5] 

Não obstante, mesmo que Jerônimo tivesse substituído o verbo grego pisteuou por uma equivalência dinâmica[6] - o que resultaria na tradução ter fé - ainda assim precisaríamos compreender o que o termo fé (pistis) e sua ação (pisteuou) significavam naquela época. 

Nos dias atuais a maioria das pessoas define a “fé” como meramente se “acreditar” em alguma coisa. Entretanto, a fé praticada pelos primeiros cristãos tinha um significado muito mais profundo do que apenas concordar que Jesus tenha existido, ou acreditar em seus feitos. Originalmente, “fé” tinha o sentido de confiança, consonância, comprometimento, lealdade, ou fidelidade.[7] Ou seja, ter fé em alguém significava estar em sintonia com essa pessoa. Não se tratava de apenas acreditar em alguma doutrina, mas sim de se estar comprometido com esse ensinamento. Desta forma, para os primeiros cristãos, somente aquele que praticasse o que Cristo ensinou seria visto como alguém que realmente tinha fé em Jesus. 

Mas, como antes já foi dito, esse conceito primordial de fé acabou sendo deturpado no decorrer dos séculos e passou a ser substituído por uma ideia de crença.[8] Segundo esse conceito, já não haveria muita importância em quem você é, mas sim apenas naquilo em que você diz acreditar. Obviamente, isso não ocorreu da noite para o dia, mas em etapas muito sutis, geração após geração. Como exemplo, cito um dos sermões de Lutero, onde ele explica que “a fé não requer informação, conhecimento e certeza, mas uma livre entrega e uma feliz aposta na bondade impercebida, não experimentada e desconhecida [de Deus]”.[9] Isso nos demonstra dois fatos importantes: primeiro, que já no século XVI o conceito de fé precisava ser revisto, pois havia quem pensasse em fé apenas como informação, conhecimento e certeza; e, segundo, que esse conceito já perdera o sentido original de consonância e comprometimento (ou fidelidade), passando a ser visto – ao menos para Lutero – como uma feliz aposta na bondade de Deus. Apesar de ser uma bela definição para fé, a realidade é que, como vimos há pouco, tal ideia não condiz perfeitamente com o conceito de fé que se tinha entre os cristãos do primeiro século, o qual era mais profundo. 

Quando, por exemplo, Jesus ensinou que “tudo é possível ao que crê”, não devemos entender esse crer como meramente acreditar. Uma tradução mais correta seria “tudo é possível ao que tem fé”, ou seja, àquele que está em perfeita sintonia, ou ligação, com Deus — algo que só é possível através de Cristo, único mediador entre Deus e os homens. Feita essa ressalva, torna-se mais fácil compreender o que Jesus quis dizer com “aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará” (João 14:12). Se o termo crer desse versículo fosse meramente acreditar alguém poderia dizer que Jesus houvesse mentido, pois milhares de pessoas realmente acreditam em Jesus, mas nunca fizeram qualquer obra sequer parecida com o que ele realizou. No entanto, se corretamente compreendemos que o Senhor está falando de estarmos em consonância com ele, ou seja, confiando plenamente em sua pessoa e seguindo o seu exemplo, então desaparecem as dúvidas, pois dificilmente encontra-se alguém que realmente ande como Jesus andou, especialmente no que concerne à sua prática de renúncia e constante oração – mas quem o fizer pela motivação correta, receberá do Pai o mesmo poder que nele havia, dando os mesmos frutos e podendo realizar obras ainda maiores. Cristo foi bem claro a respeito da correlação entre se praticar o que ele ensinou, por amor, e se receber o Espírito Santo: "Se alguém me ama guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada." (João 14:23).

Mas o desconhecimento que a maioria das pessoas tem acerca desse problema é tão comum quanto previsível. De fato, nossas versões do Novo Testamento em português dão mesmo a entender que a salvação é apenas uma questão de crença, o que nos induz a concluir que basta acreditar que Jesus existiu, ou que ele morreu na cruz por nossos pecados, para sermos salvos. Mas a salvação não é uma questão de crença e sim de fé. E ter fé em Cristo significa também fidelidade, isto é, estar em consonância com seus ensinamentos – ou, como prefere dizer João (tanto em seu evangelho quanto nas epístolas), ter fé significa permanecer nele. E “nisto sabemos que estamos nele: aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou.” (I João 2:6) Paulo prefere usar a expressão “estar em Cristo”, o que também traduz o conceito primordial de fé – que significava estar em sintonia com Deus, ou seja, com a sua vontade, que se resume no amor e na santificação. Portanto, a fé salvadora é um caminho no qual devemos andar e não meramente uma crença que precisamos acatar. A crença, na verdade, é apenas o primeiro estágio da fé, a qual prossegue para a plena confiança e culmina no mais sincero comprometimento.  Sendo assim, fé significa não apenas crer, mas também confiar e comprometer-se. 

Quando Cristo afirmou que ele é “o” caminho para o Pai, sua clara intenção foi apontar a si mesmo - tanto pela verdade de seus ensinamentos, quanto pela prática de sua vida - como nosso referencial de salvação. Ele não estava falando de crença, mas de nós andarmos em sintonia com ele, ou seja, confiando em sua pessoa e, sendo assim, praticando o que ele nos ensinou. Não devemos separar a pessoa de Cristo dos seus ensinamentos. Neste sentido é que Jesus é o caminho, a verdade e a vida (João 14:6). Note que esse versículo não fala explicitamente de fé, nem de crer, mas ele sempre é interpretado como se fosse uma questão de crença, ou seja, como se a salvação ocorresse apenas por se acreditar que Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Esse equívoco ocorre porque o atual conceito de fé está de tal forma contaminada pela ideia de crença, que os leitores do Novo Testamento ficam condicionados a interpretá-lo dessa forma incorreta. Cristo não é apenas para ser acreditado, mas vivido!

A solução, obviamente, não é deixar de ler a Bíblia, ou aguardar por uma versão que consiga transmitir o sentido original de todo o texto grego do Novo Testamento. Minha sugestão é que façamos uma releitura do Novo Testamento, porém cientes do verdadeiro sentido da fé e apercebidos de que esse mesmo significado está implícito na conjugação do verbo crer. Para muitos talvez nem seja uma releitura, mas uma primeira leitura, pois quem aprendeu que "basta acreditar em Jesus para ser salvo" raramente irá se interessar por seus ensinamentos. De fato, para que conhecer o que Jesus ensinou se, para ser salvo, basta somente acreditar que ele existiu? Essa conclusão equivocada explica por que a maioria dos evangélicos não se interessa pelos evangelhos, tendo em vista que eles já acreditam que Jesus nasceu de uma virgem, viveu sem pecado, morreu numa cruz, ressuscitou ao terceiro dia e voltará. Por outro lado, há também aqueles que leram todo o Novo Testamento, mas pela motivação errada, apenas adquirir conhecimento, ou ainda pior, apenas para discutir teologia, porém sem qualquer compromisso com seus ensinamentos. 

Minha esperança e oração é que a correta compreensão da fé nos faça ir além de uma crença e confiança em Jesus visando apenas a salvação da alma, mas nos motive a um relacionamento de fiel compromisso com Cristo agora mesmo, no qual cheios do Espírito Santo consigamos andar como ele andou.[10] 

Alan Capriles
(Texto revisto e melhorado em 22/07/2023)


NOTAS

[1] A única exceção que conheço é a tradução de Huberto Rohden , a qual recebeu o título de "A Mensagem Viva do Cristo" e que contém somente os quatro evangelhos. Porém, a despeito de ter acertado neste ponto, não se trata de uma versão confiável, tendo em vista as heresias desse filósofo.

[2] O trecho de duas cartas de Jerônimo revelam o seu temor para com a tradução do texto bíblico:

 "Obrigas-me fazer de uma Obra antiga uma nova […] Qual, de fato, o douto e mesmo o indouto que, desde que tiver nas mãos um exemplar, depois de o haver percorrido apenas uma vez, vendo que se acha em desacordo com o que está habituado a ler, não se ponha imediatamente a clamar que eu sou um sacrílego, um falsário, porque terei tido a audácia de acrescentar, substituir, corrigir alguma coisa nos antigos livros? Um duplo motivo me consola desta acusação. O primeiro é que vós, que sois o soberano pontífice, me ordenais que o faça; o segundo é que a verdade não poderia existir em coisas que divergem, mesmo quando tivessem elas por si a aprovação dos maus".
(Obras de São Jerônimo, edição dos Beneditinos, 1693, t. It. Col. 1425)

"Numa tradução custa muito para conservar a mesma elegância que aparece na expressão de outra língua. Exprime-se alguma coisa com propriedade por uma única palavra? [...] Se traduzo palavra por palavra, ressoa como absurdo; se, por necessidade, modifico por pouco que seja a construção ou o estilo, parecerá que me demito da tarefa de tradutor." 
(Jerônimo - Carta a Pammachium, escrita em 395 d.C.) 

[3] O mesmo ocorre na língua inglesa. Apesar de não ser um idioma de origem latina, o inglês não possui verbo para o substantivo faith (fé) e, sob a influência da Vulgata, as versões inglesas do Novo Testamento substituíram o verbo grego pisteuou por believe (crer).

[4] ARMSTRONG, Karen – Em Defesa de Deus, pág. 98. Não estou aqui recomendando a leitura deste livro, pois é de cunho teológico liberal.

[5] Mais uma vez, a única exceção parece ser a versão de Huberto Rohden, onde ele optou por ter fé como tradução para o verbo pisteuou. Por exemplo, o famoso “para que todo aquele que nele crê não pereça” foi traduzido por Rohden como “para que todo aquele que nele tiver fé não pereça”. Interessante observar que essa não foi sua primeira versão das Escrituras. Rohden, que foi padre jesuíta até 1945, já traduzira todo o Novo Testamento diretamente do grego, mas, estranhamente, nessa primeira versão manteve o equívoco da Vulgata. Teria ele sido pressionado pela igreja católica para manter a tradição? Ou ainda não havia se dado conta da gravidade do problema? Anos depois, quando livre do catolicismo, Rohden escreveria o seguinte alerta, em tom de desabafo: “A substituição de ter fé por crer há quase dois mil anos está desgraçando a teologia, deturpando profundamente a mensagem do Cristo.” (A Mensagem Viva do Cristo, pág. 91) E uma vez mais enfatizo que não estou recomendando a literatura do filósofo Huberto Rohden, mas apenas reconhecendo que nesse ponto ele está corretíssimo. 

[6] A “equivalência dinâmica” é o método de tradução que procura transmitir o sentido de determinada palavra, ou frase, tal como era compreendida na época em que foi originalmente escrita.

[7] ARMSTRONG, Karen – Em Defesa de Deus; São Paulo: Companhia das Letras, 2011, pág. 98. RODHEN, Huberto – A Mensagem Viva do Cristo; São Paulo: Editora Alvorada, 1983, pág. 90 e 91. CHOURAQUI, André – A Bíblia: O Evangelho Segundo Mateus; Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.

[8] Fé não é crença, mas as seguintes definições de fé, formuladas no último século, demonstram como seu conceito está completamente deturpado por uma ideia de crença:

"Fé: crença, não baseada em provas, no que é contado por alguém que fala sem conhecimento de coisas sem paralelo." (Ambrose Bierce)

"A fé pode ser definida, em resumo, como uma crença ilógica na ocorrência do improvável." (Henry Louis Mencken)

"Fé é crença sem evidência." (Sam Harris)

[9] Lutero, Sermão 25:7, em Pelikan, The Christian Tradition, IV, p. 163.

[10] A verdadeira fé resultará em transformação interior e prática exterior, que são obra do Espírito Santo na vida de quem sinceramente se rende a Jesus Cristo não somente como suficiente Salvador, mas também como único Senhor.

“Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor.” (Gálatas 5:6)

"A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo." (Tiago 1:27)

“Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta.” (Tiago 2:26)

"Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou." (1 João 2:6)

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24 novembro 2012

JESUS EXISTIU?


Por Bart D. Ehrman

Em uma sociedade em que as pessoas ainda afirmam que o Holocausto não aconteceu, e em que há afirmações contundentes de que o presidente americano é, na verdade, um muçulmano nascido em solo estrangeiro, é alguma surpresa aprender que a maior figura da história da Civilização Ocidental, o homem sobre quem foi construída a mais poderosa e influente instituição social, política, econômica, cultural e religiosa do mundo – a Igreja Cristã – o homem que é adorado, literalmente, por bilhões de pessoas hoje – é alguma surpresa ouvir que Jesus nunca sequer existiu?

Essa é uma afirmação feita por um grupo pequeno mas crescente de escritores, blogueiros e viciados em internet que chamam a si mesmos de mitologistas. Esse grupo extraordinariamente vociferante de negativistas sustenta que Jesus é um mito inventado para propósitos nefastos (ou altruístas) pelos primeiros cristãos, que modelaram seu salvador através da linhagem divina de um homem pagão que também nasceu de uma virgem em 25 de dezembro, que também fez milagres, morreu como expiação pelo pecado e foi, então, ressuscitado dos mortos.

Poucos desses mitologistas são realmente estudiosos formados em História Antiga, religião, estudos bíblicos ou qualquer campo similar, sem falar nas línguas antigas geralmente estudadas por quem quer dizer alguma coisa com algum grau de autoridade sobre um professor judeu que (supostamente) viveu na Palestina do primeiro século. Existem algumas exceções: das centenas – milhares? – de mitologistas, dois (que eu saiba) realmente têm doutorado e credenciais em áreas relevantes de estudo. Mas mesmo tendo isso em conta, não há um único mitologista que ensina Cristianismo Primitivo ou até mesmo as civilizações da Antiguidade Clássica em alguma instituição de ensino superior respeitada no mundo ocidental. E não é de se admirar o porquê. Essas opiniões são tão radicais e tão pouco convincentes para 99,99 por cento dos verdadeiros especialistas daquela área como seria para eles pegarem uma vaga de emprego em um respeitado departamento de Religião como criacionistas ou como defensores da formação do mundo em seis dias num departamento de Biologia.

Por que, então, o movimento mitologista vem crescendo, com defensores tão confiantes de suas opiniões e contestações – mesmo bem articuladas – em sua radical denúncia da ideia de que Jesus realmente existiu? É, em grande parte, porque esses que negam [a existência de] Jesus são os mesmos que denunciam a religião – um tipo de pessoa que agora está muito na moda. E que melhor maneira de caluniar a visão religiosa da grande maioria das pessoas do mundo ocidental, que se mantém, apesar de tudo, predominantemente cristã, do que a alegação de que o fundador histórico de sua religião era, na verdade, o produto da imaginação de seus seguidores?

Mas a visão dos fundadores era diferente. A realidade – triste ou salutar – é que Jesus era real. E este é o tema de meu novo livro, “Jesus existiu?”.

É verdade que Jesus não é mencionado em nenhuma fonte romana de sua época. Mas isso não deveria ser contabilizado para se negar sua existência, uma vez que essas mesmas fontes quase não mencionam ninguém de sua época e lugar. Nem mesmo o famoso historiador judeu, Josefo, ou até, mais particularmente, a figura mais poderosa e importante de sua época, Pôncio Pilatos.

Também é verdade que as nossas melhores fontes sobre Jesus, os Evangelhos, estão cheias de problemas. Eles foram escritos décadas após a vida de Jesus por autores tendenciosos que estão em desacordo uns com os outros em cada linha. Mas os historiadores nunca podem descartar fontes apenas porque elas são tendenciosas. Você pode não confiar na visão de Rush Limbaugh de Sandra Fluke, mas ele certamente fornece evidências de que ela existe.

A questão não é se as fontes são tendenciosas, mas se fontes tendenciosas podem ser usadas para fornecer informação histórica confiável, uma vez que o joio tendencioso é separado do cerne histórico. E os historiadores têm buscado meios de fazer isso.

Com relação a Jesus, temos numerosos relatos independentes de sua vida nas fontes por trás dos Evangelhos (e os escritos de Paulo) – fontes que foram originalmente escritas em aramaico, a língua nativa de Jesus, e que podem ser datadas dentro de apenas um ano ou dois de sua vida (antes de a religião cristã ser mudada para converter os pagãos). Fontes históricas como essas são bastante surpreendentes para figuras antigas de qualquer tipo. Além disso, temos escritos relativamente extensos de um autor do primeiro século, Paulo, que adquiriu sua informação da vida de Jesus dentro de alguns anos e que sabia, em primeira mão, de Pedro, o discípulo mais próximo de Jesus e de seu próprio irmão Tiago. Se Jesus não existiu, você pensaria que seu irmão saberia.

Além disso, a afirmação de que Jesus foi simplesmente inventado não se sustenta. Os alegados paralelos entre Jesus e os deuses-salvadores “pagãos” na maioria dos casos residem na imaginação moderna. Não sabemos quantos outros nasceram de uma virgem, morreram como expiações pelo pecado e, em seguida, foram ressuscitados dos mortos (apesar do que os sensacionalistas afirmam ad nauseum em suas propaladas versões).

Além disso, aspectos da história de Jesus não teriam simplesmente sido inventados por quem deseja fabricar um novo salvador. Os primeiros seguidores de Jesus declararam que ele era um Messias crucificado. Mas antes do Cristianismo, não havia absolutamente nenhum tipo de judeu que pensava que haveria um futuro messias crucificado. O Messias era pra ser uma figura de grandeza e poder que derrotaria o inimigo. Qualquer um que quisesse inventar um messias faria dessa forma. Por que os cristãos não fariam também? Porque acreditavam especificamente que Jesus era o Messias. E eles sabiam muito bem que ele foi crucificado. Os cristãos não inventaram Jesus. Eles inventaram a ideia de que o Messias tinha de ser crucificado.

Alguém pode escolher repetir as preocupações de nossos menosprezadores culturais modernos e pós-modernos da religião institucionalizada (ou não). Mas, certamente, a melhor maneira de promover qualquer agenda desse tipo é negar o que virtualmente todos os historiadores sensatos do planeta – cristãos, judeus, muçulmanos, pagãos, agnósticos, ateus, o que for – concluíram baseados em uma gama de evidências históricas convincentes.

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Resenha do livro "Did Jesus Existed?" (Jesus Existiu?) escrito por Bart D. Ehrman, mas ainda não publicado no Brasil. 
Bart Ehrman é um historiador e teólogo norte-americano que tem se destacado como um dos principais estudiosos do cristianismo primitivo, tendo se doutorado pela Universidade de Princeton e atualmente sendo docente da Universidade da Carolina do Norte. Alguns de seus livros já foram lançados em português, como "O que Jesus Disse? O que Jesus não Disse?", "Quem Jesus foi? Quem Jesus não foi?", "Pedro, Paulo e Maria Madalena", "Evangelhos Perdidos", entre outros. Como agnóstico declarado, sua firme posição em assegurar que Jesus existiu causou grande incômodo entre aqueles que negam sua existência.
O texto foi traduzido por Betone Souza e compilado de seu blog.
Veja o texto original em inglês clicando aqui.

20 junho 2012

O DESAFIO DE UM PSEUDO-ATEU



Resposta ao vídeo "10 perguntas que todo cristão deveria saber responder"

Por Alan Capriles

É provável que nem todos que se dizem cristãos realmente saibam responder a essas dez perguntas, que foram formuladas por um pseudo-ateu*. Mas a verdade é que não tive dificuldade alguma em respondê-las, o que considerei surpreendente, pois confesso que eu esperava por um desafio mais estimulante.

Assista ao vídeo-texto e, depois, confira minhas respostas:

1ª) Por que Deus não cura os amputados?

Não há como se afirmar que Deus jamais tenha curado um amputado. Para ser franco, já ouvi falar de milagres desse tipo. No entanto, o próprio Jesus dizia que a fé de cada um é que lhes curava. Obviamente, é necessário muito mais fé para se crer na regeneração de um membro amputado, do que na cura de qualquer enfermidade. Certamente é por isso que dificilmente saberemos de casos assim.

2ª) Por que há tanta gente no mundo morrendo de fome?

Porque Deus espera que nós acabemos com a fome de nosso semelhante. Jogar a culpa em Deus é fugir de nossa própria responsabilidade.

3ª) Por que Deus ordena a morte de tantas pessoas inocentes na Bíblia?

Eles não eram inocentes, mas pessoas que deliberadamente desobedeceram os mandamentos de Deus. Os exemplos citados no Antigo Testamento serviam para demonstrar o quanto o pecado é abominável para Deus, ao invés de ser algo trivial, como o autor do vídeo sugere.

4ª) Por que a Bíblia contém tantas bobagens anti-científicas?

O autor do vídeo-texto parece não conhecer bem as Escrituras. A Bíblia não diz que Deus criou o mundo há seis mil anos. A inundação do dilúvio não cobriu o Everest, pois não foi global, mas ocorreu apenas até onde os homens habitavam na época. Quanto a Jonas, Adão e a própria criação do mundo, entramos no âmbito do sobrenatural. Ao definir como "bobagens sem sentido" aquilo que foge à explicação humana, o autor parece não aceitar que Deus seja Deus... Ora, se tudo pudesse ser explicado pelo homem, que Deus seria esse?

5ª) Por que Deus se inclina tanto em promover a escravidão na Bíblia?

Em nenhuma das passagens citadas Deus promove a escravidão.

6ª) Por que coisas ruins acontecem com pessoas boas?

Porque, segundo o próprio Jesus, não existem pessoas boas. Aliás, deveríamos perguntar o contrário: como é que um Deus santo e justo ainda tolera pecadores como nós e, especialmente, pecadores arrogantes como o autor desse vídeo-texto? Deus não é injusto, mas muito misericordioso. Nós não merecíamos nem o ar que respiramos.

7ª) Por que nenhum dos milagres de Jesus na Bíblia deixou alguma evidência?

Isso deve ser uma piada! O que o autor dessas perguntas queria? Que ainda tivéssemos alguma mostra dos pães e peixes que o Senhor multiplicou? Mas existe sim a grande evidência de um milagre. O fato de poucas dezenas de discípulos de Jesus se multiplicarem em mais de dois bilhões de cristãos é a maior evidência de seu maior milagre: a ressurreição. Se Jesus tivesse mentido a esse respeito, todos teriam deixado de segui-lo, pois ninguém arriscaria sua vida por uma mentira.

8ª) Como explicamos o fato de Jesus nunca ter aparecido de fato para você?

Mais uma piada!!! Por que Jesus teria obrigação de aparecer para os cristãos? Só por que algum deles pede isso? Ora, não somos nós que mandamos em Cristo, mas ele sim, em nós. Por isso é que o chamamos de Senhor. Isso também significa que ele pode aparecer para alguém, se assim o quiser. Eu mesmo, por exemplo, tive a inesquecível experiência de ouvir o Senhor me chamar pelo nome para o ministério pastoral.

9ª) Por que Jesus deseja que nós comamos sua carne e bebamos seu sangue?

Porque a ceia representa o fato de que Jesus tomou sobre si a condenação do pecado de todos que nele cressem. Somente os que crêem participam da ceia. Ao comermos o pão, que simboliza seu corpo, e bebermos o vinho, que simboliza seu sangue, estamos nos identificando com sua morte, ou seja, reconhecendo que nós merecíamos a condenação e que ele morreu por nossos pecados. A ceia do Senhor só parece algo grotesco, como sugere o autor do vídeo-texto, para quem não comprende o seu significado espiritual, como certamente é o caso desse indivíduo.

10ª) Por que os cristãos se divorciam na mesma proporção daqueles que não são cristãos?

Há cristãos que se divorciam por uma de duas razões: ou porque havia uma justificativa bíblica para o divórcio (tal como a traição ou o afastamento do cônjugue descrente), ou por falta de se exercer a fé para superar o problema conjugal (no caso de ambos serem cristãos). Mas o autor do vídeo-texto mente ao dizer os cristãos se divorciam na mesma proporção daqueles que não são cristãos. A não ser que ele esteja chamando de cristão aqueles que, apesar de não fazerem parte de igreja alguma, ainda se dizem cristãos. Há muitas pessoas que respondem a pesquisas estatísticas se dizendo cristãs, quando na verdade não praticam religião alguma.

Conclusão

Ao chamar de "fascinantes" as perguntas que ele mesmo elaborou, o autor do vídeo-texto revela ter um sério problema de egocentrismo. Ele diz ainda que a Bíblia foi escrita por homens ridículos e rudes, porém é notável que seu conteúdo esteja perdurando por milênios, o que certamente não ocorrerá com seu vídeo arrogante. Sinceramente, longe de serem fascinantes, suas dez perguntas foram decepcionantes. Eu esperava mais de um ateu com educação universitária.
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*Pseudo-ateu: Chamar o autor dessas perguntas infantis de "ateu" seria um desrespeito para com meus amigos ateus, que poderiam formular perguntas bem mais estimulantes do que as que respondi acima.

24 fevereiro 2012

UMA RESPOSTA (PÓSTUMA) A GEORGE CARLIN


Por Alan Capriles

Um dos vídeos de maior sucesso na internet, especialmente entre os ateus, é o trecho de uma apresentação do comediante George Carlin, já falecido, na qual ele, que era também ateu, zomba de Deus:

“A religião foi capaz de convencer as pessoas de que existe um homem invisível, vivendo no céu e que vigia tudo o que fazemos, o tempo todo. O homem invisível tem uma lista de dez coisas que ele não quer que a gente faça. Se você fizer qualquer uma dessas coisas, o homem invisível tem um lugar especial, cheio de fogo, fumaça, sofrimento, tortura e angústia onde ele vai lhe mandar viver, queimando, sofrendo, sufocando, gritando e chorando para todo o sempre. Mas ele ama você!” (George Carlin)

As gargalhadas do auditório me motivaram a escrever uma reposta a George Carlin, ainda que póstuma. Porque creio que isso não seja mera zombaria. Essas gargalhadas revelam também a ignorância de grande parte da sociedade a respeito de Deus e a enorme parcela culpa que nosso cristianismo tem por essas pessoas agirem assim.

Segue-se minha resposta a cada frase dita por Carlin nesse vídeo:

1º) “A religião foi capaz de convencer as pessoas de que existe um homem invisível, vivendo no céu e que vigia tudo o que fazemos, o tempo todo.”

A religião, incluindo o cristianismo, pode ter inventado isso, mas não o Cristo. Em primeiro lugar, Deus não é um homem, pois não é um ser existencial e transitório. Nesse sentido, nem sequer é correto dizer que Deus existe, pois o existir depende de um criador. Deus não foi criado, Deus é. Por isso Jesus Cristo, que é Deus encarnado, disse: “antes que Abraão existisse, ‘Eu Sou’”.

Em segundo lugar, Deus não é um ser invisível. Deus está além e acima da matéria, razão pela qual Jesus afirmou que Deus é espírito.

Em terceiro lugar, a idéia de “céu” expressa por Carlin é um tanto infantil. Obviamente, ele desconhece que o lugar onde Deus habita não é o céu que está acima de nossas cabeças, mas sim, uma dimensão espiritual.

Em quarto lugar, a ocupação de Deus não é vigiar tudo o que fazemos. A questão é simplesmente esta: Deus já sabe até o que iremos fazer. Deus está acima do tempo. Isso não significa que Deus fique nos vigiando, muito menos “o tempo todo”, o que seria ridículo.

2º) “O homem invisível tem uma lista de dez coisas que ele não quer que a gente faça.”

A questão não é “que ele não quer que a gente faça”. A questão é que essas dez coisas, às quais Carlin se referiu, são as orientações de Deus para uma vida plena e sadia: os dez mandamentos. Se nós não os seguirmos, o problema será nosso, não de Deus. Ou será que Carlin preferia uma sociedade baseada na idolatria, na mentira, no roubo, no adultério, na cobiça, no homicídio, no trabalho sem descanso? Imagine o caos que seria, se todos decidissem viver assim, sem limites...

3º) “Se você fizer qualquer uma dessas coisas, o homem invisível tem um lugar especial, cheio de fogo, fumaça, sofrimento, tortura e angústia onde ele vai lhe mandar viver, queimando, sofrendo, sufocando, gritando e chorando para todo o sempre.”

Esse lugar, ao qual Carlin se refere, não existe. Pelo menos, não da maneira fantasiosa como ele o imagina: um “lugar especial”, para o homem “viver”.

Primeiro que não é um lugar preparado para o homem. O Livro das Revelações nos ensina que esse lugar de castigo eterno foi preparado para o diabo e seus anjos (os demônios).

Em segundo lugar, não há homem que nunca peque. Qualquer um de nós já transgrediu os dez mandamentos – e fizemos isso por diversas vezes. O pecado é inerente ao ser humano. Sendo assim, não faz sentido a expressão usada por Carlin: “Se você fizer uma dessas coisas...” Ora, todos nós já fizemos uma dessas coisas, cada um de nós. Ninguém é salvo pela Lei de Deus. A Lei serve para nos mostrar o quanto somos pecadores e estamos longe do padrão de Deus.

Em terceiro lugar, Deus não quer que tenhamos esse terrível destino. A vontade de Deus é que nenhum de nós pereça, mas que todos sejamos salvos. O fato é que o ser humano se afasta de Deus de tal maneira, que ele mesmo se condena, ao se tornar semelhante ao diabo, sendo egoísta, soberbo e mau.

4º) “Mas ele ama você!”

Nesse ponto Carlin acertou! Deus nos ama tanto, que nos permite escolher entre viver para sempre com Ele ou morrer sem Ele. Se alguém se agrada em viver como o diabo, não há nada mais justo que, após a morte, sua alma continue com o diabo. E Deus permite isso! O fogo eterno foi preparado para o diabo, mas todo aquele que se identificou com ele, o diabo, terá o mesmo destino. Seria uma injustiça da parte de Deus se não fosse assim, não é? Afinal de contas, alguém que não se incomoda em ser egoísta, soberbo e mau não iria querer o céu - um lugar de cheio de amor, justiça e bondade.

No entanto, para os que se reconhecem pecadores e estão arrependidos, Deus providenciou salvação em seu Filho, Jesus Cristo, que nos justifica de todo pecado. Nossa fé em Jesus não nos salva apenas do inferno após a morte, mas nos salva de sermos um diabo nesta vida. Quanto mais temos um relacionamento pessoal com Jesus, mais parecidos com ele nos tornamos.

E talvez seja isso que Carlin não tenha entendido. Mas eu não o culpo. Há muitas pessoas que se dizem cristãs, mas que continuam sendo egoístas, soberbas e más. São pessoas que conheceram o cristianismo, mas que, com toda certeza, ainda não conheceram o Cristo. Falsos crentes, que fortaleceram a munição para as piadas de George Carlin e que continuam aumentando a fileira de ateus pelo mundo.

Alan Capriles

10 setembro 2011

A ADMIRÁVEL FÉ DOS ATEUS


Por Alan Capriles

Tenho alguns amigos que se dizem ateus e pelos quais tenho grande admiração. São pessoas de bem, extremamente sinceras, honestas, trabalhadoras e nas quais percebo que há uma fé bastante incomum. Isso mesmo: fé! Sei que dizer isso de um ateu parece algo incoerente, mas gostaria que você considerasse os meus argumentos:

É preciso ter muita fé para crer que o tudo veio do nada 
Se eu lhe mostrasse a um relógio e dissesse que ninguém o fabricou, você acreditaria? Mas os ateus conseguem ser mais crédulos do que os próprios crentes. Para um ateu é mais fácil crer que todos os corpos celestes do Universo e tudo que neles há surgiram do nada, do que crer que um simples relógio não tenha fabricante. Francamente, eu não consigo entender isso, razão pela qual concluo que somente uma fé descomunal pode justificar tal raciocínio.

É preciso ter muita fé para crer que uma explosão construiu ao invés de destruir
Não é preciso ser especialista em pirotecnia para saber que explosões destroem. Eu nunca soube de alguma explosão que tenha construído alguma coisa, por mais insignificante que seja. No entanto, a maioria dos ateus acredita na teoria do Big Bang, uma grande explosão que teria dado origem ao Universo. Ora, mediante o fato de que explosões destroem, é preciso ter uma fé muito explosiva para conceber tamanha incoerência.

É preciso ter muita fé para se viver sem a esperança da eternidade
Meus amigos ateus trabalham, constituem família, se divertem, constroem planos, os realizam – e tudo isso sem acreditar na vida após a morte! Confesso que admiro muito isso, pois eu mesmo não sei se construiria algo na vida imaginando que ela terminasse por completo na sepultura. Particularmente, tenho muita dificuldade para me dedicar a algo que não faça sentido. Ainda que eu fizesse alguma coisa boa por alguém, de que adiantaria se esta pessoa também seria extinta, não restando nada do seu ser e nem do meu? No entanto, apesar dos meus amigos ateus não crerem na existência do espírito, ainda assim tornaram-se pessoas de bom caráter, mais honestas até do que muitos religiosos. Além do que é preciso ter muita fé para continuar sorrindo mesmo sem a esperança da eternidade.

É preciso ter muita fé para se imaginar como Deus deveria ser
Um dos argumentos prediletos para se defender o ateísmo é o de que “se Deus existisse Ele não permitiria que o mundo fosse dessa maneira”. Por exemplo, sempre que ocorre uma grande catástrofe eles se apressam em questionar: “Onde está Deus?” O que talvez eles não estejam se dando conta é que isso não prova a inexistência de Deus; prova somente que eles creriam em Deus se Ele fosse do jeito que eles gostariam. Portanto, imagine o tamanho da fé necessária para se criar um molde grande o bastante para que Deus possa caber nele...

Realmente, é admirável a fé de meus amigos ateus!

Alan Capriles