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29 fevereiro 2016

A GRANDE AMEAÇA AOS "DESIGREJADOS"

Um alerta contra os papas virtuais 

Por Alan Capriles

Sempre tive simpatia pelos desigrejados, um fenômeno cristão relativamente recente, o qual parece continuar crescendo. Para quem não sabe, um verdadeiro desigrejado não é um crente desviado, mas sim um cristão autêntico que, a contra gosto, precisou deixar a igreja onde congregava quando esta se desviou do evangelho. Sei que isso parece uma contradição - uma igreja se desviar do evangelho - mas é o que tem ocorrido em diversos lugares do Brasil e do mundo.

Muitos pastores tem trocado a simplicidade do evangelho de Cristo pela sedutora "teologia da prosperidade", ou pelo pragmático sistema G12 e suas variantes, ou por atraentes espetáculos durante os cultos, ou por esquisitices atribuídas ao Espírito Santo, ou ainda por tudo isso junto e sabe-se lá mais o quê! Acredito que muitos pastores não façam isso por mal, mas apenas porque foram sutilmente contaminados pelo ensino errôneo de outros pastores mais famosos. De fato, grande parte dos programas que estão na chamada mídia gospel,  bem como de livros que se dizem evangélicos, têm servido mais à propagação de heresias do que para nos edificar na verdade. Pastores brasileiros renomados, que outrora eram conhecidos pela fidelidade bíblica, passaram a pregar e ensinar um outro evangelho, geralmente importado das megaigrejas estrangeiras. E assim, "pacotes" de sucesso numérico e financeiro tem sido adotados por muitos pastores que,  no afã de fazer crescer e enriquecer sua igreja, copiam as pregações e a dinâmica das igrejas que, segundo eles, deram certo. E tais novidades, que não tem respaldo bíblico (e que geralmente são antibíblicas) passam a ser empurradas pela goela abaixo das ovelhas.   

Todo esse mal tem se alastrado como câncer por muitas igrejas evangélicas do nosso país, causando tristeza e frustração naqueles que almejam permanecer fiéis à palavra de Deus. E quase sempre a história se repete: esses irmãos deixam a igreja na qual congregaram por anos, em busca de alguma igreja que não tenha se corrompido, para então descobrir que todas ao seu redor também estão assim, desviadas do evangelho. O que fazer então? Aqueles que saíram sozinhos costumam permanecer solitários, tentando alimentar-se através da leitura bíblica individual e de certas pregações pela internet. Mas outros, que saíram em grupo, decidem continuar se reunindo toda semana, geralmente na casa de um deles - não para iniciar uma nova denominação, mas simplesmente para se manter a edificação mútua e o cuidado de um para com o outro. A meu ver, isso é ser igreja em sua essência. Ou seja, se a compreensão do evangelho for buscada em oração e plena confiança no Espírito Santo, não haverá problemas, mas uma igreja saudável, que crescerá em Cristo.

O problema geralmente começa quando alguém do grupo deseja impor suas ideias e interpretações bíblicas aos demais irmãos. O diálogo respeitoso vai deixando de existir, bem como a mútua edificação ensinada por Paulo aos Coríntios (1 Cor 14:26). E, se ninguém perceber a tempo, logo essa reunião no lar se transformará em algo tão manipulador e danoso quanto o que acontecia nas igrejas de onde esses irmãos saíram.

Como se vê, o problema não está no local, mas na disposição das pessoas que se ali reúnem, seja numa casa, ou em qualquer outra edificação. Este é um ponto crucial, que precisa ser muito bem compreendido, principalmente porque alguns costumam demonizar qualquer denominação, como se o problema estivesse no fator "instituição", ou na sua edificação de alvenaria. No entanto, o verdadeiro problema não consiste em nada disso, mas reside no coração do homem, esteja este homem congregando em casa, ou numa denominação evangélica. Muitos desigrejados com quem converso reconhecem que só deixaram suas antigas denominações porque seus líderes se corromperam, deixando de ensinar na pureza e simplicidade que há em Cristo. Se assim não fosse, teriam eles permanecido na mesma congregação. Isso comprova que o problema não está na denominação em si, mas naqueles que pastoreiam, pregam e ensinam, os quais deveriam se manter sempre submissos a Cristo. Sendo assim, uma igreja não se torna mais santa só porque se reúne nos lares, assim como não se torna infiel só porque se reúne num prédio. Tudo dependerá da sincera devoção a Cristo de quem está se reunido, seja lá onde for. 

Todavia, não bastasse o risco de que alguém do pequeno grupo queira dominar sobre os demais, percebo que há um perigo ainda maior sondando as igrejas nos lares. Falo dos indivíduos que se promovem pela internet com a duvidosa intenção de oferecer ajuda espiritual aos desigrejados. Não estou criticando quem se presta ao aconselhamento virtual, pois eu mesmo respondo a inúmeros e-mails de pessoas que me pedem conselhos bíblicos. Refiro-me a quem se promove às custas dos desigrejados, ou seja, colocando-se como autoridade papal sobre os mesmos. Sem muito esforço, consigo me lembrar de pelo menos cinco nomes que se tornaram famosos na internet apresentando-se como mestres desse movimento.

Assim como as megaigrejas estrangeiras, esses papinhas nacionais também oferecem seus pacotes, e com a mesma prepotência de quem se acha dono da verdade. Obviamente, eles são carismáticos, simpáticos e falam muito bem - razão pela qual conseguem seguidores. O que tais seguidores talvez não estejam percebendo é que eles saíram de um erro para cair em outro que pode ser ainda pior! Digo isso porque, via de regra, esses mestres dos desigrejados não incentivam as práticas cristãs mais básicas, tais como a constante oração, a meditação na palavra, o bom testemunho, a santificação, o cuidado com outros irmãos, a prática secreta da caridade, bem como a obediência à maioria dos ensinamentos de Cristo - o qual sempre nos exige a renúncia de nossa própria vontade. Ao invés disso, costumam ser agressivos contra quem discorda de suas posições teológicas, pois apresentam-se como sabedores de tudo, apesar de não realizarem nada de produtivo à sociedade. Além de não ensinarem o que Jesus ensinou, passam a maior parte do tempo criticando toda e qualquer denominação cristã, fomentando ódio no coração já ferido de irmãos que precisam tanto de cura. 

Desconfio que esse papas dos desigrejados nunca foram desigrejados de verdade. O que eles realmente querem é aparecer, e não fazer com que Cristo apareça. Não fosse assim, eles promoveriam os ensinamentos de Cristo e não a si mesmos, aconselhariam a que os irmãos confiem na liderança do Espírito Santo e não em sua própria liderança, passariam mais tempo ensinando a reconciliação, o perdão, enfim, a palavra de Deus, ao invés de alimentar a discórdia entre irmãos.

Espero que eu tenha sido claro. Não sou contra um verdadeiro desigrejado, alguém que realmente deseja ser fiel a Cristo, confia no Espírito Santo, e ama reunir-se com irmãos que almejam a mesma fidelidade. Mas sou totalmente contra esses papas que tentam aprisionar os desigrejados em suas denominações virtuais, como se isso fosse o verdadeiro evangelho. Não, não é. Por isso encerro minhas palavras com o mesmo alerta indignado de Paulo aos gálatas, os quais, após experimentarem a liberdade em Cristo, estavam se deixando aprisionar por uma deturpação do evangelho:

"Estai pois firmes na liberdade com que Cristo nos libertou,
e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão."
Gálatas 5:1


28 setembro 2015

AS CONTROVÉRSIAS CRISTÃS SOBRE O DÍZIMO

E a correta destinação das ofertas


Por Alan Capriles

Qualquer pessoa que pesquise na internet sobre a questão do dízimo irá se deparar com diversas e contraditórias posições a respeito do assunto. Algo extremamente confuso e perigoso para quem não sabe como fazer uma boa investigação online.[1] Muitos acreditam no primeiro "estudo" encontrado, ou no primeiro vídeo assistido, sem compará-lo com qualquer interpretação contrária. Outros prosseguem na pesquisa, mas acabam abraçando a posição teológica que mais lhes agrada, sem fazer um exame sério das Escrituras. Também há quem busque a verdade com a sua própria "verdade" preconcebida. Esse tipo de atitude, muito comum na internet,  ignora qualquer opinião divergente, mas prossegue na busca até encontrar apoio para si mesmo. E, como disse o Senhor: "quem procura... acha!"

Antes de deixar o meu parecer, apresento abaixo alguns vídeos com diferentes posições a respeito da questão do dízimo. Começando pela opinião mais tradicional, defendida nos dois primeiros vídeos - a de que o dízimo continuaria valendo para hoje - até a posição mais controvertida, ou seja, a de que o dízimo não faz parte da nova aliança. Entre os extremos, dois vídeos de pastores que são da mesma denominação cristã, a Presbiteriana do Brasil, mas que divergem quanto ao assunto. Para Hernandes Dias Lopes, o dízimo é mandamento de Deus; para Augustus Nicodemus, uma "tradição da igreja de Cristo", mas que deve ser mantido, pois segundo ele, "sempre funcionou". Ora, isso não seria pragmatismo?! Porém, o que mais me chama a atenção nestes quatro vídeos é que todos se dizem pastores reformados. Mas, como você verá a seguir, parece que alguns se reformaram mais e outros menos:

Posição de Walter McAlister, bispo primaz da aliança das Igrejas Cristãs de Nova Vida



Posição de Hernandes Dias Lopes, pastor na Igreja Presbiteriana do Brasil



Posição de Augustus Nicodemus, pastor na Igreja Presbiteriana do Brasil



Posição de Tim Conway, pastor na Graça Church, mesma igreja de Paul Washer



Espero que você tenha assistido a todos os vídeos, especialmente aos dois últimos, nos quais Nicodemus reconhece que o dízimo "não é obrigatório, mas um referencial" e Tim Conway chama de mito a ideia de que o dízimo seria padrão do donativo na igreja cristã do Novo Testamento. O fato, admitido por todos,  é que apenas uma vez o dízimo é mencionado no Novo Testamento, na passagem onde o Senhor critica os fariseus que davam o dízimo de tudo, mas omitiam o principal da Lei (Mateus 23:23 - o mesmo versículo também em Lc 11:42). O Senhor conclui com a seguinte orientação: "Façam isso, sem omitir aquilo". Como se percebe, Cristo não condenou o dízimo, mas parece tê-lo incentivado. Mas será que foi mesmo? E, caso tenha sido, o Senhor ainda o incentivaria hoje?

Antes de uma conclusão precipitada, consideremos algumas questões:
  • Em primeiro lugar, o dízimo destinava-se à manutenção do templo de Herodes. Ora, quando Jesus falou sobre o dízimo esse templo ainda estava em pleno funcionamento, mas sabemos que o mesmo foi completamente destruído no ano 70 d.C. Se o dízimo tinha um propósito que não existe mais, para onde os cristãos de hoje deveriam destiná-lo? 
  • Além disso, por que o livro de Atos e as epístolas nada falam sobre o assunto? Lembre-se de que a maioria das epístolas foi escrita para gentios (não judeus). Com certeza eles nada sabiam sobre dízimo. Sendo assim, por que nenhuma epístola trás orientações a respeito do assunto?
  • E, finalmente, quando a igreja se reúne para normatizar a conduta dos cristãos gentios (Atos 15) a questão do dízimo nem sequer entra na pauta. Não seria essa uma excelente oportunidade para se ensinar que os gentios deveriam também pagar o dízimo? Por que os apóstolos se calaram a esse respeito?
A resposta para todas as perguntas acima é simples e óbvia: o dízimo não era praticado pela igreja apostólica. Ao menos, e com toda certeza, não pela igreja formada por gentios. Pode até ser que os primeiros judeus convertidos a Cristo tenham continuado a pagar o dízimo ao Templo, mas apenas enquanto ainda existia um templo. Quanto aos gentios, muito provavelmente eles nem sequer foram ensinados a respeito do dízimo, visto que tratava-se de uma questão concernente ao templo judeu e seus sacerdotes.

Por outro lado, as ofertas eram incentivadas pelos apóstolos e praticadas pelos verdadeiros cristãos. E quanto cada um deveria ofertar? Ora, o máximo que fosse possível! Isso fica evidente em certas passagens do Novo Testamento, tais como na Segunda Carta de Paulo aos Coríntios, capítulos 8 e 9. Sendo assim, o valor sempre superava os dez por cento do dízimo, como vemos no exemplo de Barnabé, que deixou aos pés dos apóstolos toda a quantia do terreno que vendeu (Atos 4:37).

A ênfase no dízimo se torna um limitador na arrecadação da igreja. Desculpe-me a comparação, mas o dízimo acaba sendo um tiro pela culatra. O fato é que, após a entrega do dízimo, que geralmente ocorre uma vez por mês, o valor de cada oferta costuma não ser maior que o de uma esmola. Muitos cristãos não tem consciência de que devem ofertar sempre o melhor que puderem, mas pensam que seu dever é limitado a dez por cento do que recebem. Cumpri minha obrigação e o que passar disso será lucro, argumentam.

Se o dízimo não era praticado pela igreja bíblica, por que as igrejas de hoje o praticam?

Identifico três principais motivos:

  • Falta de fé por parte da liderança: Existe o temor de que, se a verdade for descoberta, os irmãos ofertarão menos do que deveriam. Ou seja, menos de dez por cento. De fato, numa época materialista e de tanto egocentrismo é bem provável que isso realmente aconteça.
  • Avareza por parte da igreja: Pela mesma razão do ponto anterior é muito provável que a maioria prefira continuar dando somente dez por cento. Além do mais, o dízimo trás a promessa de que se abrirão as janelas do céu e é nisso que o povo quer acreditar. Ou seja, os crentes dão, mas apenas pelo interesse de ganhar algo em troca e não simplesmente pelo prazer de ajudar.
  • O mau uso das finanças: Sem dúvida, esse é o maior dos problemas. Quando a arrecadação de uma igreja é mal empregada por seus dirigentes isso pode gerar insatisfação, desmotivando a entrega de maiores ofertas por parte dos irmãos. Isto é, refiro-me a irmãos que realmente conheçam a Palavra - e não a falsos convertidos, que gostam de ser enganados. Prosseguirei comentado melhor esse último ponto.

Primeiramente, pergunto a você:
- Como eram utilizadas as ofertas na época em que Barnabé se sentiu motivado a vender seu terreno e doar toda a quantia para a igreja ? 

Não me admira se você disser que não sabe, pois quase ninguém prega ou ensina sobre isso. Mas, vejamos o que nos revela o livro de Atos dos Apóstolos:

"Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido e o depositavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha. Então, José, cognominado, pelos apóstolos, Barnabé (que, traduzido, é Filho da Consolação), levita, natural de Chipre, possuindo uma herdade, vendeu-a, e trouxe o preço, e o depositou aos pés dos apóstolos." (Atos 4:34-37)

Barnabé se sentiu motivado a fazer tamanha doação porque a quantia seria repartida segundo a necessidade de cada irmão. Mas de quem os apóstolos aprenderam isso? Ora, do próprio Senhor Jesus:

"Vendei o que tendes, e dai esmolas, e fazei para vós bolsas que não se envelheçam, tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão, e a traça não rói. Porque onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração." (Lucas 12:33)

Jesus não era hipócrita. O que Cristo ensinava, isso mesmo ele praticava. Ora, é sabido que o Senhor vivia da coleta de ofertas, mas o principal objetivo dessa arrecadação não era para o seu  enriquecimento. Jesus, assim como os apóstolos, vivia de forma simples e compartilhava o que recebia com os mais pobres. Por esse motivo alguns apóstolos pensaram que Judas (que era quem carregava a bolsa) havia deixado a última ceia por ordem do Senhor "para que desse alguma coisa aos pobres". (João 13:29)

Infelizmente, não vemos mais essa prática de caridade nas igrejas. Geralmente, os mais pobres são esquecidos. Alguns até sofrem preconceito, como se fossem pobres porque não tem fé, ou porque estão em pecado.[2]

Ao invés de se ajudar os irmãos mais pobres, o que temos visto é o uso das ofertas para o embelezamento do templo, para o maior conforto dos frequentadores e para o enriquecimento do pastor, bispo, ou "apóstolo". Com o agravante de que essas igrejas não ajudam irmãos que padecem no campo missionário. 

Porém o que mais me entristece é que grande parte dos que se dizem cristãos aprovam que o dinheiro seja usado dessa forma. O fato é que eles gostam disso! Recentemente eu soube que alguém teria ficado muito impressionado com o luxo de uma certa igreja e que teria dito a respeito do seu rico pastor: "Ele vive a prosperidade que prega!" - Sem se dar conta de que o pastor está rico por meio das ofertas que lhe são entregues com promessas de riqueza para quem as dá. E quem vai ficando cada vez mais rico é ele mesmo, o pastor! Mas o povo ganancioso gosta desse tipo de expectativa. Eles querem mesmo acreditar que ficarão tão ricos quanto o pastor. E por que desejam isso? Ora, porque nunca compreenderam o evangelho, jamais se converteram a Cristo. Ainda que chamem Jesus de Senhor, seus anseios e práticas revelam que na verdade são servos de Mamom![3]

E, concluindo, mais triste ainda é perceber que muitos dos que condenam o dízimo são motivados pela própria avareza. Eles não buscam a verdade, que nos orienta a dar muito além do dízimo, mas buscam uma desculpa para dar muito menos do que isso. Como se percebe, o problema não está no dízimo, mas no próprio homem, na sua hipocrisia, no seu apego aos bens materiais, na sua falta de conversão a Cristo.

Notas

[1] Confira o artigo: Fatos ou boatos - dez dicas para uma boa investigação.

[2] Confira o artigo: Onde está o erro na teologia da prosperidade.

[3] Mamom: Palavra de origem aramaica, utilizada pelo Senhor para se referir ao falso deus filisteu que personificava as riquezas. (Mateus 6:24)

Alan Capriles

02 fevereiro 2015

A CRUZ DO FACEBOOK


Por Alan Capriles

Dentre os mais de um bilhão de usuários do Facebook, certamente já ocorreu a mais alguém a seguinte pergunta:

- Por que a logomarca da maior rede social do mundo é um f minúsculo e não maiúsculo, como seria de se esperar?

Pensar nisso nos conduzirá, inevitavelmente, a uma nova questão:

- O que não há na imagem do F maiúsculo para que o mesmo fosse descartado da logomarca do facebook?

Após refletir um pouco, nada mais encontrei senão isto: a similaridade do f minúsculo com o formato de uma cruz. Ora, no maiúsculo isso não acontece. Não estou sugerindo que o criador do Facebook, Mark Zuckerberg, seja cristão. Ele mesmo declara ser ateu. Mas, então, por qual motivo um ateu permitiria a ideia da cruz na logomarca de sua empresa? Antes de arriscarmos uma resposta, consideremos que a letra f minúscula, embora lembre o formato de uma cruz, não é uma cruz perfeita, mas encurvada na parte superior. Isso me levou a pensar se existiria algum tipo de cruz com esse formato específico.

Qual não foi minha surpresa ao lembrar-me do falecido papa João Paulo II. Ele costumava carregar um estranho cajado, o qual continha no alto um enorme crucifixo que se entortava na ponta. A preferência desse papa por um crucifixo com esse formato gerou bastante polêmica na época de seu pontificado. E não é pra menos: o crucifixo vergado teria sido uma criação de satanistas no século VI para distorcer a imagem de Cristo e representar a marca da besta em seus rituais.[1]


Mas a logomarca do Facebook tem ainda maior semelhança com outro aparato, também utilizado por adeptos do satanismo. Trata-se da chamada cruz da confusão, ou cruz satânica. Segundo sites que estudam o ocultismo, a parte encurvada representa um ponto de interrogação, cujo propósito seria questionar a eficácia do sacrifício de Jesus na cruz pela salvação da humanidade.[2] 

Essa interrogação aparece na parte de baixo porque no satanismo toda cruz é representada de forma invertida. Mas, ao ser novamente colocada na posição correta, torna-se evidente a semelhança com a logomarca do Facebook.

Até mesmo o tom azulado dessa logomarca não ocorreria por acaso, pois o azul é a cor que se relaciona diretamente com Lúcifer nas práticas ocultistas.[3] Aliás, a cruz satânica ainda representaria os três príncipes infernais: Satanás, Belial e Leviatán. Exatamente por isso quem se utiliza dessa cruz estaria indicando sua completa sujeição a Lúcifer.[4]

Confesso que, ao chegar nesse ponto de minhas pesquisas, meu primeiro impulso foi concluir que tudo isso não passa de uma grande coincidência. A cor azul, por exemplo, predominante no Facebook, não seria por causa de uma consagração dessa rede social a Lúcifer, mas sim porque Mark Zuckerberg possui um tipo raro de daltonismo, que o impede de fazer distinção entre o vermelho e o verde.[5]

Mas o que me manteve intrigado foi descobrir que há indícios de que Zuckerberg seja mesmo praticante de ocultismo. Um dos exemplos mais convincentes ocorreu durante uma entrevista, na qual ele precisou retirar sua jaqueta, pois estava banhado em suor.[6] Sem que ele tivesse tempo de reagir, a repórter tomou de suas mãos a jaqueta, na qual se revelou algo inesperado e muito estranho: escondido na parte interior da mesma havia um enorme desenho circular, com inscrições e uma estrela de seis pontas ao centro com o número 2010. Impossível ver essa imagem e não pensar em algo como magia negra, ou satanismo - especialmente se considerarmos que 2010 foi considerado o melhor ano para o Facebook e também para seu criador, que foi eleito a personalidade do ano pela revista Time. [7]

Ainda reluto contra essa ideia, pois me parece absurdamente fantasiosa. Senão, vejamos: a logomarca do Facebook seria propositalmente um f minúsculo para que se pareça com uma cruz satânica, chamada de cruz da confusão; essa cruz, por sua vez, representa uma ligação com Lúcifer, cuja cor é o azul; não por acaso, o azul é a cor predominante do Facebook, a qual ninguém pode alterar (diferentemente do extinto Orkut); tudo isso seria um indício do pacto que Zuckerberg teria feito com Lúcifer para obter sucesso a nível mundial; o estranho desenho na jaqueta do criador do Facebook confirmaria sua prática ocultista; no centro da imagem, 2010, considerado como o melhor ano do Facebook

Acho que fui mesmo longe demais... Eu mesmo não consigo acreditar em nada disso! Por outro lado, durante minhas pesquisas me deparei com duas coincidências que não consigo desconsiderar:

A primeira delas é o improvável (mas talvez não impossível) propósito que haveria no Facebook de se gerar confusão entre os homens. De fato, essa rede social tem trazido perturbação na vida de milhares de pessoas. Se por um lado o Facebook “aproxima” quem está longe, por outro afasta quem está perto. Tenho certeza que a maioria dos leitores conhece pelo menos um caso de briga conjugal, ou mesmo de adultério, no qual o Facebook faça parte da história. Sem se falar no vício que essa rede social tem gerado na vida de pessoas que já não conseguem mais viver em sociedade, nem mesmo com familiares que vivem sob o mesmo teto. Alguém dirá que tais pessoas fazem mau uso do Facebook. Mas, pergunto eu, como seria o bom uso? A invenção do botão “curtir”, por exemplo, tem gerado mais discórdias do que amizades. E a necessidade inconsciente de se curtir tudo que seus “amigos” publicam tem tomado cada vez mais o precioso tempo dos usuários. Sem se falar nos comentários, que geralmente são mal interpretados (pois também são mal escritos) e acabam gerando confusão nos relacionamentos onde antes havia paz.  Como se não bastasse, muitos parecem ficar paranoicos na rede, compartilhando tudo que lhes está ocorrendo, chegando ao absurdo de publicar até mesmo a foto do que estão para comer! Esses, que já não conseguem viver desconectados, talvez não percebam que tal conexão é que lhes tem roubado a verdadeira vida.[8]

A segunda e última coincidência seria o suposto propósito de se questionar a eficácia do sacrifício de Jesus pela salvação da humanidade. De fato, poucas coisas são tão deprimentes para um pastor (como é o meu caso) quanto se examinar no Facebook a linha do tempo de certas pessoas que se dizem cristãs. Impossível não me questionar se foi para isso que Jesus morreu na cruz, ou seja, para gerar esse tipo de discípulos, que vivem completamente distraídos de sua missão. Se o Facebook é mesmo um terreno maligno, deveríamos entrar nele como sabotadores do seu propósito de aprisionar as pessoas – e não como seus usuários mundanos, que compartilham das mesmas porcarias que a maioria tem curtido.

Será que estou sugerindo que o diabo esteja por detrás disso? E não somente disso, mas também de outras redes similares, tais como Twitter e WhatsApp, que igualmente tem aprisionado milhões de almas no vício da internet? Bem, seja você crente, satanista, ou mesmo ateu (como se diz o criador do Facebook), de uma coisa podemos ter certeza, e nisso eu acho que todos nós estamos de acordo:

Deus não tem mesmo nada a ver com isso.

Alan Capriles

Notas

[1] "Vejamos o que diz o autor católico Piers Compton, em seu livro The Broken Cross: Hidden Hand in the Vatican, Neville Spearman, 1981. Este crucifixo vergado é "... um símbolo sinistro, usado pelos satanistas no século VI, que foi novamente colocado em uso ao tempo do Concílio Vaticano II. Nesse crucifixo vergado, era exibida uma figura repulsiva e distorcida de Cristo, que todos os praticantes de magia negra e feiticeiros da Idade Média usavam para representar o termo bíblico "Marca da Besta". Entretanto, não somente o papa Paulo VI, mas seus sucessores, os dois Joões, João Paulo I e João Paulo II, carregavam esse objeto e o exibiam para ser reverenciado pelas multidões, que não tinham a menor idéia que representa o Anticristo." (pág. 72). Na página 56, Compton mostra uma fotografia do papa João Paulo II, segurando essa cruz vergada, exatamente como mostramos aqui."

[2] "O ponto de interrogação, logicamente, questiona a divindade de Cristo e a validade do Seu sacrifício na cruz do Calvário. É usada pela Nova Era e pelo Satanismo."

[3] "A cor de Lúcifer é azul, azul-elétrico. A maioria dos demônios também tem a aura azul. Aqueles de nós que viu o Inferno concorda que ele tinha uma aura azul. USE AZUL."
http://alegriadesatan.weebly.com/ritual.html

[4] "En el marco del ocultismo representa a tres príncipes infernales: Satanás, Belial y Leviatán. Connota una completa sujeción a Lucifer, y era antiguamente usado por los romanos."

[5] "Segundo Zuckerberg, azul é a cor dominante do Facebook porque é a cor que ele mais enxerga. “Azul é a cor mais rica para mim – eu posso ver todo o azul”, disse."

[6] Vídeo com a entrevista:
http://youtu.be/G4XGbZ7IrC8


[8] Dica de leitura: VERTIGEM DIGITAL - Porque as redes sociais estão nos dividindo, diminuindo e desorientando. Andrew Keen - Editora Zahar.
http://www.zahar.com.br/sites/default/files/arquivos/r1331.pdf

12 setembro 2014

APASCENTANDO OVELHAS OU ENTRETENDO BODES?

Por Charles Haddon Spurgeon

Algo mal acontece no declarado arraial do Senhor, tão grosseiro em seu descaramento, que até os cegos espirituais dificilmente deixarão de perceber. Este mal tem se desenvolvido em proporções anormais durante os últimos anos e vem agindo como o fermento, até que toda a massa fique levedada. Raramente o diabo fez algo tão engenhoso quanto sugerir à igreja que sua missão consiste em prover entretenimento para as pessoas, tendo em vista ganhá-las para Cristo.

Da pregação ousada, como faziam os Puritanos, a igreja foi baixando o tom de seu testemunho; depois, tolerou e justificou as frivolidades de sua época, para, em seguida, começar a aceitá-las em suas fronteiras; agora, a igreja as adotou sob o pretexto de ganhar as multidões.

Meu primeiro argumento é este: as Escrituras não afirmam, em parte alguma, que prover entretenimento para as pessoas é uma função da igreja. Se esta é uma obra cristã, por que o Senhor Jesus não falou sobre ela?

"Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura." (Mc 16:15) Isto está bastante claro. Se Cristo tivesse acrescentado: "E oferecei entretenimento para aqueles que não gostam do evangelho", assim teria acontecido. No entanto, não se encontram tais palavras. Nem sequer lhe ocorreram.

E mais: "Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres" (Ef 4:11). Onde aparecem nesse versículo os que providenciariam entretenimento? O Espírito Santo silenciou a respeito deles. Os profetas foram perseguidos porque divertiam as pessoas ou porque recusavam-se a fazê-lo? Os concertos de música não têm um rol de mártires.

Em segundo lugar, prover distração está em direto antagonismo ao ensino e à vida de Cristo e de seus apóstolos. Qual era a atitude da igreja em relação ao mundo? "Vós sois o sal da terra", algo que o mundo desprezará, não o "docinho". Pungente e curta foi a afirmação de nosso Senhor: "Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos". Ele estava falando com terrível seriedade!

Se Cristo tivesse introduzido mais brilho e elementos agradáveis em seu ministério ele teria sido mais popular, ao invés de as pessoas O deixarem por causa da natureza inquiridora do seu ensino. Porém, não O vejo dizendo: "Pedro, corra atrás do povo e diga-lhe que teremos um culto diferente amanhã, algo atraente e breve, com pouca pregação. Teremos uma noite agradável para as pessoas. Diga-lhes que com certeza gostarão desse tipo de culto. Vá logo, Pedro, temos de ganhar as pessoas a qualquer custo!"

Jesus teve compaixão dos pecadores, lamentou e chorou por eles, mas nunca procurou entretê-los.

Pesquisaremos em vão as cartas do Novo Testamento a fim de encontrar qualquer indício deste evangelho de entretenimento. A mensagem das cartas é: "Retirai-vos, separai-vos e mantenham-se afastados!" É evidente a ausência de qualquer coisa que tenha aparência de brincadeira. Os apóstolos tinham confiança irrestrita no evangelho e não utilizavam qualquer outra arma.

Depois que Pedro e João foram encarcerados por pregarem o evangelho, a igreja se reuniu para orar, mas não suplicaram: "Senhor, concede aos teus servos que, por meio do prudente e discriminado uso da inocente recreação, mostremos a essas pessoas quão felizes nós somos." Eles não pararam de pregar a Cristo, por isso não tinham tempo para arranjar entretenimento para seus ouvintes. Espalhados por causa da perseguição, foram por todo lugar lugar pregando o evangelho. Eles "transtornaram o mundo." (Atos 17:6) Essa é a única diferença! Senhor, limpe a igreja de todo o lixo e futilidade que o diabo impôs sobre ela e traga-nos de volta ao método dos apóstolos.

Por último, a missão de prover entretenimento falha em alcançar os fins desejados. Ela causa danos entre os novos convertidos. Permita que falem os negligentes e zombadores, que foram alcançados por um evangelho parcial; que falem os cansados e oprimidos que buscaram paz através de um concerto musical. Levante-se e fale o alcoólatra para quem o entretenimento na forma de drama foi um elo no processo de sua conversão! Ninguém irá responder! A razão é óbvia: a missão de prover entretenimento não produz convertidos verdadeiros.

A necessidade imediata para o atual ministro do evangelho é uma instrução bíblica fiel, bem como ardente espiritualidade; uma é resultado da outra, assim como o fruto procede da raiz. A necessidade de nossa época é a doutrina bíblica, de tal forma entendida e experimenta, que ponha os homens em chamas.

Charles Haddon Spurgeon
Pastor britânico (1834-1892)
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Leia também: As 12 razões para eliminar o entretenimento em sua igreja

Vídeos recomendados sobre Charles Haddon Spurgeon:
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28 julho 2014

TRADIÇÃO OU TRAIÇÃO?

Por Alan Capriles

Boa parte daquilo que ocorre no meio religioso pode ser chamado de tradição, ou seja, são práticas perpetuadas por gerações, mas que não possuem real valor para a fé que se diz professar. Em outras palavras, poderíamos viver muito bem sem elas – e, em alguns casos, muito melhor sem elas. No entanto, nem toda tradição é necessariamente negativa. Havendo coerência em tais práticas não há problema algum em mantê-las, especialmente quando servem para auxiliar em nosso desenvolvimento espiritual. O problema está nas tradições que contradizem ensinamentos essenciais da fé que se diz professar. Mais grave ainda é quando crentes decidem ignorar tais ensinamentos por causa de uma tradição. Nesse caso, uma tradição acaba se tornando não somente um empecilho, mas uma traição direta a essa mesma fé.

Encontramos no cristianismo diversos exemplos de tradições que contrariam o que Cristo ensinou. Estou certo de que no budismo também ocorra o mesmo em relação ao Buda, assim como no islamismo, em relação a Maomé.[1] Mas, como pastor, prefiro me ater ao cristianismo, especialmente em sua vertente evangélica – meio religioso que conheço muito bem, a ponto de sentir-me a vontade para questioná-lo. Certamente não conseguirei abordar todas as tradições evangélicas que se constituem numa traição a Cristo, pois temo que sejam muitas! No entanto, espero dar um ponto de partida, a fim de que o leitor faça suas próprias reflexões, descobertas e, se houver coragem, as devidas mudanças.

De fato, é preciso ter o mínimo de coragem para se questionar uma tradição. Recentemente, por exemplo, pensei que fossem me agredir apenas porque apontei, calma e educadamente, uma tradição cristã que se opõe ao que Cristo ensinou. Meu questionamento havia sido em relação às poltronas (geralmente luxuosas) que ficam sobre os altares de algumas igrejas e que dão proeminência para os pastores – uma tradição mantida pela maioria das igrejas evangélicas. Ora, por mais que isso pareça normal, não podemos negar que Cristo foi bastante claro em repudiar aqueles que fazem “as suas obras com o fim de serem vistos pelos homens” e que amam “as primeiras cadeiras” nos locais de culto. E ainda que o Senhor não tivesse sido tão direto, a simples lembrança de que “quem a si mesmo se exaltar será humilhado” deveria ser o bastante para que evitássemos qualquer autopromoção. Mas, lamentavelmente, esse é um cuidado que poucos crentes levam a sério.

E que tal isso: Jesus também ordenou que “o maior dentre vós será vosso servo”, todavia, na maioria das igrejas evangélicas o pastor é servido pelos demais irmãos – algo que é visto com a maior naturalidade. Não seria essa postura mais uma traição a Cristo que se passa por uma tradição cristã? Prova disso é que, como ocorre em toda tradição, fugir a essa regra não somente pode causar estranheza, mas também incômodo. Certa vez um pastor idoso que visitava nossa igreja não conseguiu se conter e repreendeu-me ao perceber que eu ajudava na preparação do culto. Segundo ele, que se julgava bastante experiente no ministério pastoral, deveria eu ficar sentado e não fazer coisa alguma, sugerindo que nós, pastores, seríamos diferentes dos demais irmãos. Prontamente o indaguei: “Mas não foi o próprio Senhor Jesus que disse ter vindo para servir e não para ser servido?” Como eu já imaginava, aquele pastor mudou de assunto e não me deu resposta. Mas, isso não importa – todos nós sabemos que não somos melhores do que Jesus. Da mesma forma, nossas tradições também não estão acima do que Cristo nos ensinou; mas, a despeito disso, milhares de igrejas as mantêm – na maioria das vezes, numa descarada traição ao Senhor.

Outro exemplo desse tipo de traição (alguém poderá rir) é a chamada cantina. Não tenho dúvidas de que esse comércio se tornou uma tradição, pois a cantina está presente em praticamente todas as igrejas evangélicas, funcionando logo após, ou mesmo durante a realização dos cultos. Reconheço que a prática dos cristãos comerem juntos é antiquíssima, remontando ao período apostólico, no qual esses encontros foram apelidados de ágapes. Ora, não há nada de errado nisso. Quando comemos juntos estamos fortalecendo a comunhão e promovendo o amor ao próximo, razão pela qual o termo ágape servia muito bem para tais ocasiões, nas quais o alimento era compartilhado. O problema é que hoje raramente se encontra uma igreja caracterizada pelo amor, ao menos não nesse sentido, pois tudo que se quiser comer ou beber será vendido na cantina – e não doado, como deveria ser. Quem tiver dinheiro, compra; quem não tiver, vai embora com fome. Ou então terá que passar pelo constrangimento de pedir, como já foi sugerido por certo pastor, que sempre anunciava no final de cada culto: “Temos cantina, mas se você não tem como pagar, venha falar comigo.” Até hoje não sei se o pastor pagava por esse lanche, ou se apenas emprestava o dinheiro. Seja como for, por que fazer alguém passar pelo constrangimento de dizer que está duro? Não seria muito melhor acabar com esse comércio e dar de graça o lanche para os irmãos?

Poucos percebem que a cantina, ou lanchonete, não é somente uma tradição nas igrejas, mas também uma traição a Cristo, que nos ensinou justamente o contrário dessa prática. Ou alguém se esqueceu de que foi o próprio Jesus quem expulsou os vendilhões do templo? O recado por trás disso é bastante claro, não fosse ele distorcido por pregadores que tratam de espiritualizar essa passagem bíblica, ao se alegar que o Senhor estaria somente ilustrando a purificação do nosso corpo, o templo do Espírito Santo. E assim, com essa manobra teológica, a cantina tem permanecido, fazendo com que a chamada “casa de Deus” continue sendo lugar de comércio e não da prática de amor ao próximo.

O mesmo aplica-se ao chamado bazar beneficente. Irmãos trazem roupas usadas que depois serão vendidas para a comunidade, geralmente na porta da igreja. Ainda que sejam repassadas por um preço acessível, não seria mais correto que essas roupas fossem doadas? De acordo com o que Jesus nos alertou, devemos proceder de tal forma que, no dia do juízo, o Senhor nos declare: “estava nu e me vestistes”. Ora, isso é muito diferente de “estava nu e me vendestes uma peça de roupa, bem baratinho.” Aliás, nem costuma ser mais tão baratinho assim...

Se você é um cristão evangélico sincero, certamente decidirá romper com essas tradições, mas devo alertá-lo: não espere que sua postura seja aplaudida pelos demais membros de sua igreja. Basta lembrarmos que o próprio Jesus também sofreu com isso, sendo acusado pelos religiosos de estar desprezando a tradição dos anciãos. Sua resposta foi um questionamento que continua válido para os religiosos de nossos dias: “E por que vocês transgridem o mandamento de Deus por causa da tradição de vocês?”[2]

Ora, dois mil anos se passaram, mas, como já foi demonstrado, continuam existindo tradições que se opõem à vontade de Deus. O apego a essas tradições é algo extremamente danoso, pois significa preferir o que aparentemente “dá certo” em lugar do que realmente “é certo”. Parece não haver nada de errado nas poltronas sobre o altar, pois elas têm a finalidade prática de facilitar que os pastores supervisionem o culto; mas aqueles que nelas se assentam poderão sentir-se orgulhosos e soberbos – especialmente se essas poltronas forem mais luxuosas que o assento dos demais irmãos – o que não é correto. A cantina pode até facilitar a vida de alguns membros da igreja, os quais não precisarão procurar uma lanchonete após o culto, mas também poderá gerar constrangimento nos irmãos mais pobres, que não terão dinheiro para comprar um lanche. Nesses dois casos, assim como nos exemplos anteriores, não vale à pena insistir na tradição, mas abandoná-la de uma vez por todas! Da mesma forma, deveríamos rejeitar a obrigatoriedade do uso de gravata e paletó para se pregar, algo que se torna sacrificante num país tropical como o Brasil, especialmente no verão. 

Por outro lado, há tradições cristãs que são inofensivas, tais como a bênção apostólica proferida no final de cada culto, ou o cumprimento dos pastores junto à porta de saída do templo, ou ainda a apresentação de crianças recém-nascidas à igreja. Outras, por conseguinte, somente serão tradições inofensivas quando houver a compreensão de que se tratam exclusivamente de tradições e não de mandamentos essenciais à fé. 

Como exemplos de tradições que costumam ser confundidas com ordenanças, podemos citar a prática do dízimo e a edificação de templos. Ainda que não seja errado fazer uma coisa ou outra, torna-se errado quando alguém as confunde com obrigatoriedade, condenando quem decida ofertar livremente, ou quem preferira congregar nos lares, ao invés de filiar-se a denominações cristãs. É importante lembrarmos que a entrega de dízimos, assim como a edificação de templos, não são mandamentos da parte de Deus (ao menos não na Nova Aliança), mas práticas que podem ou não auxiliar em nosso desenvolvimento espiritual. O dízimo, por exemplo, só será benéfico se for entregue espontaneamente e não sob ameaças de maldição; e o templo, por sua vez, se for visto como um local para reuniões e não como “casa de Deus”.[3] Ainda que haja muito barulho a respeito desses temas, o fato é que estamos falando de tradições – tradições sem as quais a igreja de Cristo sobreviveu muito bem nos três primeiros séculos de sua história. Os primeiros cristãos compreendiam que a prática do dízimo judaico caiu juntamente com os muros do templo de Herodes, ao qual ele se destinava. Compreendiam também que a igreja somos nós e não uma construção de pedra, razão pela qual se reuniam nos lares. Por conseguinte, não há nada de errado se, por necessidade de um espaço maior, cristãos decidirem alugar, comprar ou construir uma edificação – contanto que os gastos com esse local não ultrapassem o básico necessário.[4] Também não há nada de errado se cristãos quiserem exercer o dízimo, mas desde que seja uma prática espontânea e que se compreenda o seu propósito prático: o de não se ofertar menos que dez por cento da sua renda, o que não é nada se comparado com a quantia que ofertavam os primeiros cristãos.[5]

Sendo assim, há tradições que, apesar de aparentemente inofensivas, podem tornar-se maléficas quando compreendidas como algo obrigatório. E esse mal consiste não somente no equívoco de se condenar aqueles que não praticam tais tradições, mas também no medo e na culpa que cristãos desinformados podem sentir quando não as mantém. Por outro lado, e como já vimos em exemplos anteriores, há tradições que nada tem de inofensivas, pois contrariam frontalmente o que Cristo nos ensinou. Tais tradições, uma vez identificadas, deveriam ser completamente extirpadas do meio cristão. Quem se omite a esse respeito não somente contribui para perpetuar uma perniciosa tradição, mas também se torna conivente com ela, tornando-se nada menos que um traidor de Cristo – alguém que lhe dá um carinhoso beijo na face, enquanto despreza seus mais claros ensinamentos de humildade e amor.

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NOTAS
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[1] Não estou sugerindo que Jesus deva ser comparado a Buda, ou a Maomé, mas apenas afirmando que o mesmo fenômeno das tradições ocorre tanto no cristianismo, quanto nas demais religiões. 

[2] Esta referência (Mateus 15:3) encontra-se na Nova Versão Internacional. As referências anteriores estão na versão Almeida Revista e Atualizada e podem ser encontradas em Mateus 23:5,6,11,12; 25:36.

[3] A casa de Deus somos nós.

[4] A ostentação com o local de culto é um pecado grave, pois desvia as ofertas de sua correta destinação, que deveria ser o auxílio às pessoas carentes e a evangelização.

[5] Confira: Atos 2:45 e 4:34,35.

Alan Capriles

24 abril 2014

NÃO É BEM ASSIM

O espantoso desprezo dos cristãos aos ensinamentos de Cristo

 

Por Alan Capriles

Quanto mais reflito no evangelho de Cristo, menos identifico-me com as religiões que se dizem cristãs. O problema nem está no fato de que cada denominação tenha uma confissão de fé diferente da outra, pois compreendo que há diferentes interpretações acerca de assuntos teológicos. Mas o que realmente me incomoda é o desprezo que todas parecem dar aos ensinamentos mais claros e diretos deixados por aquele a quem chamam de Senhor. É bem verdade que o nome mais repetido nos cultos é o nome de Cristo. Mas uma coisa é dizer “glória a Jesus!” ou “em nome de Jesus!” e outra, muito mais relevante, é conhecer a esse Jesus – especialmente conhecer o que ele nos ensinou, tanto por palavras quanto por ações.

Temos a tendência de ignorarmos aquilo que não compreendemos e a maneira mais sutil de fazermos isso é desviando nossa atenção para algo que pareça louvável. Propositalmente ou não, o fato é que a própria Bíblia tem sido usada para nos distrair, desviando nossa atenção acerca daquilo que Jesus nos ordenou fazer. Culto após culto, ensina-se a ser próspero como Salomão, vitorioso como Davi, destemido como Josué, mas despreza-se os ensinamentos de Jesus, o qual deveria ser a figura central das Escrituras – mas que, na prática, não tem sido. Ao menos, não na maioria das igrejas que se dizem cristãs.

Ora, a missão da igreja não é somente batizar, mas principalmente transmitir os ensinamentos de Cristo, pois somente assim nos tornamos seus discípulos. Mas o bloqueio mental é tão grande, que até mesmo quando se prega sobre a grande comissão, a referida ordem costuma ser dita pela metade: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo...” Ah, e o restante do texto? Não deve ser tão importante, não é mesmo? Quase ninguém se lembra dele, que diz expressamente:

“... ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado.” (Mateus 28:20)

E não venham me dizer que a Escola Bíblica Dominical cumpre esse papel, porque, via de regra, não cumpre! A começar pelas crianças, geralmente ensina-se na EBD sobre as histórias de Adão, Abel, Noé, Moisés, Jonas, entre outras narrativas bíblicas; para os jovens ensina-se sobre louvor, namoro, drogas e demais assuntos dessa faixa etária; e para os jovens e adultos ensina-se sobre pecado original, trindade, batalha espiritual, vitória financeira, eclesiologia, ou qualquer outro assunto teológico. Não estou desmerecendo o estudo desses temas, mas apenas ressaltando que priorizamos o ensino daquilo que não é a missão da igreja. O que Jesus realmente nos ordenou cumprir, isso raramente é ensinado, seja nos cultos, seja nas classes de escola bíblica. A única explicação que encontro para tamanho absurdo é a desconcertante simplicidade e incômoda dificuldade que os ensinamentos de Cristo apresentam, como veremos a seguir.

A começar pela dificuldade, usarei como exemplo um versículo no qual encontramos uma importante advertência do Senhor:

“Eu, porém, vos digo que todo aquele que [sem motivo] se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo.” (Mateus 5:22)

Não é por acaso que os colchetes aparecem no versículo acima. As palavras “sem motivo” foram acrescentadas, séculos atrás, por algum copista que provavelmente achou Jesus radical demais e tentou dar uma aliviada no seu ensinamento. Como se sabe, os manuscritos bíblicos eram copiados à mão (por isso são chamados de manuscritos!) e, nesse processo, erros poderiam ocorrer. Nesse caso, não foi um erro, mas um acréscimo deliberado. Não é difícil imaginar que esse copista irava-se facilmente e, como não gostava da ideia de que o vissem como candidato ao fogo do inferno, decidiu então alterar o texto. Ora, é muito mais fácil mudar o texto do que mudar de postura. E foi o que ele fez, dando margem para que todas as cópias desse manuscrito perpetuassem o erro. Para nossa sorte, manuscritos mais antigos, que antecederam essa adulteração, foram descobertos e revelaram a ausência de frases que agora, nas versões modernas, aparecem entre colchetes, como na edição Almeida Revista e Atualizada.[1] Ora, se os melhores manuscritos do evangelho de Mateus não trazem as palavras “sem motivo”, ocorre que ficamos sem desculpas para ficarmos irados, ou xingarmos alguém – prática muito comum entre crentes na internet, diga-se de passagem.

Usei o versículo acima para tratar da dificuldade que alguns ensinamentos de Cristo apresentam, porque é um exemplo com evidências internas, onde o próprio texto revela que alguém tentou alterá-lo – alguém que pensava da seguinte maneira: “Jesus nos ensinou a não nos irarmos, mas não é bem assim... Você pode irar-se, desde que seja por um bom motivo.” Bem, esse tipo de adulteração continua sendo tão comum hoje quanto foi nos primeiros séculos depois de Cristo. Recentemente, por exemplo, houve uma polêmica quanto ao mandamento de “dar a outra face”, protagonizada por um famoso cantor gospel, o qual declarou orientar seu filho exatamente de forma contrária da que Jesus nos ensinou. Ele se diz cristão, mas, quanto a esse ensinamento de Cristo, não é bem assim...[2]

Como se vê, quando alguma orientação de Jesus parece difícil demais para ser seguida, logo se encontra uma interpretação que difere daquilo que tão claramente está sendo dito. Outro exemplo é o enfático “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra” (Mt 6:19). O que poderia ser mais claro e óbvio nesse versículo do que o fato de que o Senhor está nos proibindo de enriquecermos? Mas, a despeito disso, ensina-se nas igrejas que a vontade de Deus é que sejamos ricos, não de misericórdia e compaixão, mas de dinheiro mesmo – e muito dinheiro! Versículos tais como “contentai-vos com o que tendes” ou “ai dos que querem ser ricos” são reinterpretados por adeptos da famigerada teologia da prosperidade: “Sim, é verdade que está escrito isso, mas não é bem assim...”[3]

Ensinamentos de Cristo são reinterpretados não somente por sua incômoda dificuldade, mas também pela desconcertante simplicidade. Por exemplo, Jesus me parece bastante claro e direto com as seguintes afirmativas:

“Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará”
(Mateus 6:14)

“Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados” (Lucas 6:37)

Está evidente que o Senhor está falando a respeito de um caminho (proceder) que conduz à salvação, ou ainda, que é o próprio caminho da salvação. E que ninguém pense que é um caminho fácil! Tendo isso em mente, propus a seguinte questão aos jovens alunos de minha classe de escola bíblica: “Então, segundo Jesus, qualquer um que praticar a tolerância e o perdão ao próximo receberá o perdão de Deus e, consequentemente a vida eterna?” Houve um breve momento de silêncio, quebrado por uma visitante, que congrega numa igreja tradicional: “Não! É preciso primeiro aceitar Jesus como Senhor e Salvador.”

Ora, mas Jesus não disse isso! Não dessa forma banal como costuma interpretar-se, na qual se divorcia Jesus dos seus ensinamentos.[4] O que essa jovem respondeu foi inculcado em sua mente por nossa teologia protestante, mas não pelo Senhor. O mais incrível é que nem mesmo o fato de haver uma abundância de outros versículos que confirmem a simplicidade da salvação (o que não deve ser confundido com facilidade, pois o caminho do amor é apertado) nem mesmo assim os cristãos aceitam essa verdade:

“Amai, porém, os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga; será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo. Pois ele é benigno até para com os ingratos e maus.” (Lucas 6:35)

“Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me. [... Pois] sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mateus 25:34,40)

“Porque o juízo é sem misericórdia para com aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o juízo.” (Tiago 2:13)

“Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele.”
(1 João 4:16)

E por que não aceitam essa verdade? Talvez porque a verdade não seja tão atraente quanto um complexo sistema de regras religiosas, ou tão fácil quanto crer que a salvação dependa de uma certa crença, ou de uma determinada confissão.[5] Já escrevi uma tese (prefiro chamar de tese, para diminuir a polêmica) explicando que aceitar a objetividade de versículos como esses não significa atribuir salvação pelas obras.[6] Uma coisa não tem nada a ver com a outra, e a dificuldade em se compreender isso decorre, em parte, da confusão que se faz entre fé e crença – algo acerca do que também já escrevi.[7]

O fato é que a doutrinação religiosa pela qual passamos nos faz acrescentar nossas crenças a quase tudo que Cristo ensinou. Veladamente, acrescentamos nossos próprios “colchetes” em versículos que são simples e diretos demais para que os aceitemos. Por exemplo, no último versículo acima, não conseguimos compreender com clareza o que está sendo dito, pois não se encaixa com nossa teologia. O que conseguimos ler é o seguinte:

“Deus é amor, e aquele [cristão evangélico] que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele.” (1 João 4:16)

Entenda-se por cristão evangélico alguém que passou pelo processo de confessar a Cristo como Senhor e Salvador. O mesmo acréscimo, onde colocamos colchetes mentais, se faz com outras passagens das Escrituras, tal como esta:

“Se sabeis que ele é justo, reconhecei também que todo aquele [cristão evangélico] que pratica a justiça é nascido dele.” (1 João 2:29)

Ou esta:

“Bem-aventurados os [cristãos evangélicos] misericordiosos, porque [somente os cristãos evangélicos] alcançarão misericórdia.” (Mateus 5:7)

Onde se lê cristão evangélico poderia se ler também católico, ou protestante reformado, ou adventista, ou testemunha de Jeová, ou mórmon, ou qualquer outro rótulo de um sistema religioso que arrogue para si mesmo a exclusividade da salvação. E não me admira que isso aconteça. Nosso cristianismo está soterrado sob séculos de teologia – uma teologia que impede seus adeptos de enxergar a simplicidade do que Cristo nos ensinou. Ora, essa simplicidade trás consigo uma dificuldade prática - mas é exatamente por isso que o Senhor alertou ser apertado o caminho da salvação. Lamentavelmente, a grande maioria dos cristãos prefere ignorar essa dificuldade, sendo seduzidos por uma teologia deformada, que os atrai para uma doutrina que os declare salvos por uma confissão, ou por determinada crença.

Meu propósito, com textos como esse e outros que venho escrevendo, não é que você deixe sua igreja, embora reconheça que, às vezes, isso é mesmo necessário.[8] Mas tenho uma esperança. Minha esperança e propósito é que haja um despertamento espiritual em todos aqueles que se dizem cristãos. Um despertamento que os faça enxergar que o nosso cristianismo tornou-se uma versão moderna do farisaísmo que Jesus combatia.[9] Um despertamento que nos faça realmente voltar ao evangelho, e não aos princípios de uma reforma medieval. Um despertamento que nos leve a uma releitura de tudo o que Cristo nos ensinou e a um exame de nossa conduta. Mais do que isso, um despertamento que nos leve a praticar o que ele ensinou – não para que nos achemos melhores do que os outros, ou para que nos separemos em novas denominações, mas para que sejamos como ele, sendo simplesmente filhos de Deus.[10]

Não é bem assim? ...Ou é?

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NOTAS
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[1] Algumas novas versões já eliminaram por completo as frases que não aparecem nos manuscritos mais antigos, os quais são considerados mais fiéis aos originais pela maioria dos especialistas no assunto.

[2] Gravei um vídeo em relação ao assunto, o qual pode ser conferido clicando-se aqui.

[3] Também já escrevi e preguei acerca da teologia da prosperidade. Clique aqui e confira.

[4] Confira o texto "O que significa aceitar Jesus" e a pregação com o mesmo título.

[5] Confira o texto "Confessa com a tua boca - a estranha doutrina do confessionalismo".

[6] Confira o texto "A salvação segundo Jesus Cristo - e não segundo o cristianismo"

[7] Confira o texto "A crucial diferença entre crer e ter fé", bem como a pregação "Fé ou crença".

[8] Confira "Igrejados, desigrejados e o que realmente importa"

[9] Confira o texto "Discípulos de Cristo ou discípulos de cristianismo?" e a forte pregação com o mesmo título.

[10] Confira "Simplesmente filhos de Deus".

Alan Capriles

22 maio 2012

A CASA DE DEUS NÃO É UM EDIFÍCIO


Por Alan Capriles

Este é o primeiro vídeo da série intitulada “Verdades que todo o cristão deveria saber”. Nessa série pretendo expor algumas verdades que deveriam ser óbvias para qualquer seguidor de Cristo, mas que muitos parecem desconhecer. Meu propósito não é afrontar ninguém, mas ajudar a esclarecer aqueles que desejam seguir a Cristo com sinceridade. A série começa com a seguinte verdade:

A casa de Deus não é um edifício,
a casa de Deus somos nós.



É um equívoco chamar qualquer edificação humana de “a casa de Deus”. Estêvão, que foi o primeiro mártir cristão, expôs essa verdade em seu discurso aos judeus:

“Não habita o Altíssimo em casas feitas por mãos humanas; como diz o profeta:  O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés; que casa me edificareis, diz o Senhor, ou qual é o lugar do meu repouso?  Não foi, porventura, a minha mão que fez todas estas coisas?” (Atos 7:48-50)

“Não habita o Altíssimo em casas feitas por mãos humanas” - Não me admira que, logo após dizer isso, ele tenha sido apedrejado!

Paulo, o apóstolo, em seu discurso aos atenienses também declarou essa mesma verdade:

“O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas.” (Atos 17:24)

“Deus não habita em santuários feitos por mãos humanas.”

Mas, antes de prosseguir, quero esclarecer que não estou condenando que a igreja se reúna em um local mais amplo, seja ele alugado, construído, ou comprado. O que estou esclarecendo é que não devemos chamar qualquer templo construído pelo homem
de casa de Deus, porque fazer isso pode trazer graves consequências.

Mas, se um templo feito por mãos de homens não é a casa de Deus, qual é a casa de Deus? Em Hebreus 3:5,6 temos uma pista:
“E, na verdade, Moisés foi fiel em toda a sua casa, como servo, para testemunho das coisas que se haviam de anunciar;  mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim.”

Segundo esse texto, a casa de Deus, onde Cristo habita, são aqueles que perseveram firmes na fé (até o fim). Essa fidelidade a Cristo comprova que alguém é habitação de Deus, tal como Cristo afirmou:

“Se alguém me ama, guardará a minha palavra;
e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada”
(João 14:23)

Deus faz morada em nós! Essa é uma verdade que todo cristão já deveria saber. Paulo fica admirado que os crentes de Corinto tenham se esquecido disso. Em 1Co 3:16 ele os censura com a seguinte pergunta:

“Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?”

Como se vê, a casa de Deus não é uma edificação morta, mas é a igreja do Deus vivo, tal como Paulo declara em sua primeira carta a Timóteo:

“para que, se eu tardar, fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade.” (1 Timóteo 3:15)

Sendo assim, a verdadeira casa de Deus é uma edificação espiritual, como Pedro revela em sua primeira carta:

“também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo.” (1Pedro 2:5)

E como Paulo também afirma em sua carta aos Efésios:
“vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito.” (Efésios 2:22)

Mas, qual o problema de chamar de casa de Deus o local onde a igreja se reúne para cultuar? O problema é que, além disso não ser verdade, com o passar do tempo Os cristãos se esquecem de priorizar o seu relacionamento íntimo com Deus e priorizam o serviço entre quatro paredes. E, mais: acaba se investindo muito na edificação de templos, e no embelezamento dos mesmos, mas muito pouco na edificação de vidas.

Como o dinheiro arrecadado nas ofertas é usado para embelezar templos, acaba não sobrando o suficiente para o sustento daqueles
que poderiam se dedicar exclusivamente ao evangelho, razão pela qual os missionários passam tanto aperto financeiro e também não sobra nada para socorrer os irmãos que estão em necessidade.

A questão é que Cristo não nos mandou edificar templos, Cristo nos mandou edificar vidas.

Mas esta é uma verdade que pretendo mostrar em meu próximo vídeo...
Mais uma verdade que todo cristão deveria saber.

29 abril 2012

ORAI PELOS QUE VOS PERSEGUEM


Por Alan Capriles

“Tornei-me, porventura, vosso inimigo, por vos dizer a verdade?”
(Gálatas 4:16)

A perseguição é o custo por se dizer a verdade. Sempre foi assim. Como nada se pode fazer contra a verdade, muitos optam por denegrir quem disse a verdade, saindo do debate das ideias para o embate pessoal. Quando alguém age dessa forma, preferindo partir para ofensas e pré-julgamentos, geralmente é porque se esgotaram os argumentos da razão. No entanto, não nos esqueçamos de que a verdade só é ofensiva para quem decide permanecer no erro.

Tenho sofrido esse tipo de ataque nos últimos dias. Jamais imaginei que meu artigo intitulado “Jesus nunca foi evangélico” fosse causar tanto furor naquele que afirmou o contrário, ou seja, que Jesus teria sido evangélico. Mesmo apesar da consideração que tive em não citar seu nome, ou de não dar pistas sobre seu blog, e de nada eu escrever de pessoal acerca de sua pessoa (nada mesmo!) sua revolta pessoal contra mim foi despejada num artigo onde fui chamado de “briguento, violento, sem domínio próprio, beligerante, injusto e desrespeitoso”. E, adivinhem: nem uma só palavra para explicar como ele chegou a estranha conclusão de que Jesus era evangélico. Aliás, o artigo desviou desse foco, deturpando minhas palavras, dando a entender que eu havia criticado Lutero, Zwinglio e Calvino e que eu estaria condenando quem se rotula evangélico, atitude que eu jamais tomaria. Quem convive comigo sabe que sou totalmente contra discriminar pessoas, seja por sua opção religiosa, ou por qualquer outro motivo. Prova disso é que sou convidado a pregar em diversas igrejas evangélicas e tenho bom relacionamento com todos os evangélicos e católicos que conheço. Todos. Respeito a liberdade que as pessoas tem de colocar sobre si mesmas o rótulo que quiserem. Mas, dizer que Jesus era evangélico já é demais! Isso é como querer colocar um rótulo religioso no próprio Deus, razão pela qual não me calei. Jesus está muito acima de qualquer religião rotulada pelos homens.

No entanto, meu combate é sempre contra a mentira e não contra pessoas. Ao combater uma mentira que alguém tenha dito, não estou com isso chamando essa pessoa de mentirosa, mas refutando um equívoco que foi cometido, a bem da verdade. Nada além disso. Não é um ato de desamor, mas de amor! Quem ama, corrige. Ademais, minha ética não me permite citar o nome de quem tenha cometido o erro, a fim de poupar sua reputação. Foi assim que agi em “Jesus nunca foi evangélico” e é sempre essa mesma postura que adoto em todos os meus textos. Isso já ficou bem esclarecido no artigo intitulado “Prefiro acender uma luz”.

Mas é mesmo lamentável quando alguém sai do campo das ideias para o embate pessoal, pois isso é totalmente improdutivo. Não somente improdutivo, mas altamente nocivo ao reino de Deus. Para exemplificar, o jornalista que se levantou contra mim teve o trabalho de descobrir o site da igreja que pastoreio, não para se alegrar com o fato de eu publicar artigos que ele escreveu (o que comprova minha admiração por ele), mas para ridicularizar a foto em que estou abraçado com nossos irmãos em Cristo. Pergunto: O que ele conseguiu com isso? Somente uma porção de comentários me achincalhando, feito por pessoas que não tem a menor ideia de quem sou, magoando meu coração e o dos irmãos que pastoreio. E ele ainda condenou meu ministério, como se eu não fosse apto a exercer o pastorado. Que proveito isso trouxe para o reino de Deus? Teria sido proveitoso sim, se ele tivesse escrito um artigo explicando a frase na qual afirma que Jesus foi evangélico, mas, ao invés disso, preferiu colocar os evangélicos contra a mim, semeando contenda entre os irmãos, a prática mais abominável aos olhos de Deus. (Provérbios 6:16-19)

Chorei. Foi deprimente ler aquele texto, escrito não contra minha tese, mas contra a minha pessoa, numa clara demonstração de rancor e de vingança. E depois, como foi angustiante ler, ao longo da semana, tantos comentários que me apedrejavam e denegriam... Mas, a despeito de tudo isso, orei muito para não me ressentir contra qualquer um deles, a começar por quem me caluniou, pois não ignoro quem realmente está por detrás de tudo isso. Faço minhas também as palavras de Paulo, o apóstolo: “eu perdoo [...] para que Satanás não alcance vantagem sobre nós, pois não lhe ignoramos os desígnios.” (2 Coríntios 2:10,11 parte)

O fato é que nossa luta não é contra os ímpios e muito menos contra nossos irmãos em Cristo! (Efésios 6:11,12) Nossa luta é contra o maligno e suas mentiras; mentiras que oprimem as pessoas dentro de guetos, de rótulos e que as mantém divididas, longe da simplicidade e do amor do verdadeiro evangelho. Denegrir pessoas é sempre errar o alvo, pois o nosso real inimigo não é o homem, mas o pai da mentira, que é quem engana e escraviza o homem no pecado. (João 8:44)

Portanto, não pagarei o mal com o mal. Não me acho melhor do que ninguém. Não fortalecerei as trevas da soberba. Continuarei acendendo uma luz. Sei que só se pode vencer o mal com o bem. (Romanos 12:21) Fui apedrejado, mas minha escolha é perdoar. Fui difamado, mas minha escolha é, sinceramente, abençoar. (Rm 12:14)

Que Deus abençoe aqueles que me julgaram e condenaram sem nem sequer me conhecer. Que sejam livres do orgulho, do ódio, da vingança e do engano de todo sistema opressor. Que Deus os abençoe, em nome de Jesus. Amém.

“Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.”
(2 Timóteo 3:12)
" Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem"
(Jesus Cristo - Mt 5:44)