27 agosto 2012

INCOMODAMENTE SIMPLES



E eis que certo homem,
[que poderia ser eu, você, ou qualquer um que se diz cristão]
intérprete da Lei, se levantou com o intuito de pôr Jesus à prova e disse-lhe:

- Mestre, que farei para herdar a vida eterna?

Então, Jesus lhe perguntou: "Que está escrito na Lei? Como interpretas?" A isto ele respondeu:

- Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma,
de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e:
Amarás o teu próximo como a ti mesmo.

Então, Jesus lhe disse: "Respondeste corretamente; faze isto e viverás."

Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: "Quem é o meu próximo?"

Jesus prosseguiu, dizendo:
Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e veio a cair em mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto.
Casualmente, descia um sacerdote por aquele mesmo caminho e, vendo-o, passou de largo.
Semelhantemente, um levita descia por aquele lugar e, vendo-o, também passou de largo.
Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele. E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste homem, e, se alguma coisa gastares a mais, eu to indenizarei quando voltar. 
"Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?" Respondeu-lhe o intérprete da Lei: "O que usou de misericórdia para com ele." Então, lhe disse:

- Vai e procede tu de igual modo.

(Evangelho segundo Lucas 10:25-37 - ênfase minha)

19 agosto 2012

QUASE O PARAÍSO

Por Cefas Carvalho

“Sabia que sua imediata obrigação era o sonho”
(Jorge Luis Borges em As ruínas circulares)


Aportou na praia cansado, ofegante, após longa e difícil navegação. Saboreou os pés descalços na areia molhada e olhou em volta. Como sabia, como sempre soube, a ilha estava absolutamente deserta. Afastou a jangada da praia e observou-a perder-se no oceano, não mais precisava dela, sua viagem era só de ida. Contemplou a praia, a ilha, a vegetação, as árvores, imaginou-se entre os animais, livrando-se de insetos, tendo de improvisar uma cabana com pedaços de pau e cipós e percebeu que poucas vezes na vida estivera tão feliz. Na primeira noite dormiu na relva, sob a música suave dos mosquitos que tentaram dilacerar sua carne. Não importava, estava feliz. Com o passar dos dias, construiu uma cabana improvisada para se proteger das chuvas fortes que viriam e de possíveis animais selvagens. Descobriu um pequeno córrego, onde a água era límpida e cristalina. Se alimentava de frutas e pequenos animais, fazia fogo friccionando varetas, como aprendera quando criança. Decidiu não contar o tempo e o tempo se passou sem que se desse conta. Decidiu não se preocupar com a aparência (por que o faria?) e passou a andar nu cada vez mais e a não cortar cabelo, barba ou bigode. De vez em quando cantava ou assobiava uma velha canção, dos tempos em que ainda vivia no mundo (no inferno?) apenas para passar o tempo, embora tivesse perdido a noção do que era o tempo.

Os dias se passavam, as luas traziam as noites, ele dormia, acostumado com os mosquitos, acordava com o sol no dia seguinte e recomeçava sua vida baseada em se alimentar e se proteger das chuvas. Estava no paraíso. Ou, assim pensava. E o tempo, sempre implacável, continuava a trabalhar sob a ilha, sob seu corpo e sua alma, e subitamente, como uma pedra que cai sobre a cabeça, ele percebeu que não estava totalmente feliz, não estava totalmente satisfeito com a vida que levava e que ali talvez não fosse o paraíso. Faltava algo. Inquietou-se durante dias para descobrir o que poderia lhe faltar, posto que abdicara do mundo e das felicidades ilusórias.

Um dia, percebeu o que lhe faltava. Faltava a dor. Não se vive sem dor, não se pode ser feliz sem se sentir dor. A vida sem dor é ilusória, descobriu ele, entre o alívio e o desespero. Começou a se impingir dor física. Com uma pedra, cortou-se na barriga. Fez talhos nas pernas, deixou sangrar as feridas e espalhou areia nelas. Sentiu dor, mas não como queria. Não como era para se sentir dor. Tomou uma decisão. Com a faca de sílex que improvisou, arrancou de si uma costela. Achou que fosse morrer vendo o mar de sangue na areia da praia e os ossos fraturados. Não importava. Talvez fosse melhor morrer. Dormiu então, aquele sonho entre a febre e o devaneio. Dormiu acreditando que não mais acordaria. Mas, despertou, não soube quanto tempo depois, e ao acordar, viu diante de si, uma mulher, sentada com as mãos abraçando os joelhos, observando-o atentamente. Não demorou a perceber que ela nascera de sua costela e que em sua pele uma imensa cicatriz se fazia ver. A mulher sorriu. Ele então percebeu que a amaria. E que, por esta razão, começaria a sofrer. Sentiria dor. Seria arrancado do paraíso. Para sempre. E sorriu, tremendo de felicidade.
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Do livro Encontos & Desencontos (Cefas Carvalho - Natal (RN): Mekong, 2009)
Cefas Carvalho é jornalista, poeta e escritor. Publicou os romances Ponto de Fuga, Três e o livro de poesias Reinvenções, além de diversos folhetos de cordel. Faz parte da coordenação do Concurso de Poesia Zila Mamede e participa do grupo literário Verborrágicos. Foi menção honrosa no Concurso Câmara Cascudo (Funcarte) por duas vezes, com os romances inéditos Carla Lescaut e Os Puxadores de Piano, este último também finalista do prêmio nacional Sesc de Literatura. 

17 agosto 2012

ESCATOLOGIA APOCALÍPTICA E ESCATOLOGIA SAPIENCIAL

Por John Dominic Crossan

A escatologia apocalíptica anuncia o apocalipse (palavra grega que significa “revelação”) da intervenção divina iminente e cataclísmica, para restaurar a paz e a justiça de um mundo desordenado. Se depois disso existirá o paraíso na terra ou a terra no paraíso, não fica muito claro, mas eles, os maus, desaparecerão para sempre e nós, os abençoados, estaremos no comando sob as ordens de Deus. Exemplos da promessa reveladora divina da escatologia apocalíptica são, no mundo antigo, João, de Patmos, na Grécia, e no mundo moderno, David Koresh, de Waco, no Texas.

A escatologia sapiencial, por outro lado, enfatiza a sapiência (palavra latina que significa “sabedoria”) de como se deve viver hoje, aqui e agora, de forma que o poder presente de Deus seja convenientemente óbvio para todos. Exemplos do desafio de um estilo de vida radical da escatologia sapiencial são, no mundo antigo, Diógenes, na Grécia, vivendo em seu barril, e no mundo moderno, Gandhi, na Índia, vivendo uma vida de não-violência.

A escatologia apocalíptica é a negação do mundo pela ênfase na iminente intervenção divina: nós esperamos pelos atos de Deus; a escatologia sapiencial é a negação do mundo pela ênfase na imitação divina imediata: Deus espera pelos nossos atos. A primeira é a mensagem de João Batista; a última, a de Jesus.
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Trecho de "O Essencial de Jesus" (John Dominic Crossan - São Paulo: Jardim dos Livros, 2008) 
John Dominic Crossan é professor de estudos bíblicos da DePaul University, em Chicago. Ele é autor de muitos best sellers, incluindo Jesus Histórico, Jesus: uma Biografia Revolucionária e The Cross that Spoke, vencedor do American Academy of Religion Award for Excelence. 

27 julho 2012

JESUS NO CINEMA

Martin Scorsese na gravação de A Última Tentação de Cristo
Por Alan Capriles

Nenhum outro personagem histórico foi tantas vezes retratado no cinema quanto Jesus Cristo. Nesse exato momento, em algum lugar do planeta, um ou mais filmes sobre ele devem estar sendo produzidos. Alguns se tornam famosos e chegam a ser campeões de bilheteria, outros sequer passam na televisão. Mas agora, devido a facilidade que a internet nos proporciona para enviar e assistir filmes, podemos ter acesso a títulos que dificilmente encontraríamos em locadoras, tal como o polêmico "A Última Tentação de Cristo", de Martin Scorsese. 


A listagem abaixo é resultado de minhas pesquisas acerca dos filmes que retratam Cristo, seja sua história completa ou somente parte dela, e que se encontram disponíveis na internet. O mais antigo deles data de 1927, época do cinema mudo, e é considerado um clássico. Essa lista poderá crescer, na medida em que novos filmes completos sobre Jesus estiverem sendo publicados na rede. Quando há vários links para o mesmo filme, meu critério foi dar preferência ao que estiver completo, dublado e com mais qualidade. Ou seja, aqui você não somente encontra uma relação de filmes sobre Jesus, mas a melhor relação possível. 

Clique no título do filme que escolher e se abrirá uma nova página, com a reprodução do filme completo em tela cheia.

O Evangelho de Mateus (2007)
Título original: "The Visual Bible: Matthew" 
Direção: Regardt Vanden Bergh / País: EUA
Duração: 265 min.

Jesus - A História do Nascimento (2006)
Título original: "The Nativity Story"
Direção: Catherine Hardwicke / País: EUA
Duração: 101 min.

A Paixão de Cristo (2004)
Título original: "The Passion of the Christ"
Direção: Mel Gibson / País: EUA
Trilha sonora: John Debney
Duração: 127 min.


O Evangelho Segundo João (2003)
Título original: "The Visual Bible: The Gospel of John"
Direção: Philip Saville / País: EUA
Duração: 129 min.

Jesus - A Maior História de Todos os Tempos (1999)
Título original: "Jesus"
Direção: Roger Young / País: Alemanha, Itália, EUA
Duração: 170 min.

A Última Tentação de Cristo (1988)
Título original: "The Last Temptation of Christ"
Direção: Martin Scorsese / País: EUA
Trilha sonora: Peter Gabriel
Duração: 164 min.

Jesus - Segundo o Evangelho de Lucas (1979)
Título original: "Jesus"
Direção: John Krish, Peter Sykes / País: EUA
Duração: 117 min.

Jesus de Nazareth (1977)
Título original: "Jesus of Nazareth"
Direção: Franco Zefirelli / País: Itália, Inglaterra
Duração: 180 min.

O Evangelho Segundo São Mateus (1964)
Título original: "Il Vangelo Secondo Matteo"
Diretor: Pier Paolo Pasolini / País: França, Itália
Duração: 133 min. / p&b

Rei dos Reis (1961)
Título original: "King of Kings"
Diretor: Nicholas Ray / País: EUA
Duração: 168 min.

O Rei dos Reis (1927)
Título original: "The King of Kings"
Direção: Cecil B. DeMille / País: EUA
Duração: 155 min. / p&b / mudo

Se preferir, confira esta mesma seleção de filmes em meu canal do youtube, clicando aqui.

21 junho 2012

A PRUDÊNCIA DOS SÁBIOS







Conselho para todos que se dizem cristãos:

JAMAIS siga algum líder cegamente, como se ele fosse infalível,
pois TODOS os homens erram em alguns momentos da vida
(e isso inclui também a mim e a você).

Sendo assim, não se precipite em abraçar novas interpretações da Bíblia
e não se precipite em condenar quem pensa diferente dos antigos.

Lembre-se que há "santos" que um dia foram considerados hereges
e há hereges que um dia foram considerados santos.

Portanto, examine tudo, com o máximo de cautela
e não tenha pressa em expor sua  opinião.
Após o acurado exame, ore, reflita
e retenha somente o que é bom.

Em suma:
Seja sábio, seja prudente, seja você mesmo.

Alan Capriles

20 junho 2012

O DESAFIO DE UM PSEUDO-ATEU



Resposta ao vídeo "10 perguntas que todo cristão deveria saber responder"

Por Alan Capriles

É provável que nem todos que se dizem cristãos realmente saibam responder a essas dez perguntas, que foram formuladas por um pseudo-ateu*. Mas a verdade é que não tive dificuldade alguma em respondê-las, o que considerei surpreendente, pois confesso que eu esperava por um desafio mais estimulante.

Assista ao vídeo-texto e, depois, confira minhas respostas:

1ª) Por que Deus não cura os amputados?

Não há como se afirmar que Deus jamais tenha curado um amputado. Para ser franco, já ouvi falar de milagres desse tipo. No entanto, o próprio Jesus dizia que a fé de cada um é que lhes curava. Obviamente, é necessário muito mais fé para se crer na regeneração de um membro amputado, do que na cura de qualquer enfermidade. Certamente é por isso que dificilmente saberemos de casos assim.

2ª) Por que há tanta gente no mundo morrendo de fome?

Porque Deus espera que nós acabemos com a fome de nosso semelhante. Jogar a culpa em Deus é fugir de nossa própria responsabilidade.

3ª) Por que Deus ordena a morte de tantas pessoas inocentes na Bíblia?

Eles não eram inocentes, mas pessoas que deliberadamente desobedeceram os mandamentos de Deus. Os exemplos citados no Antigo Testamento serviam para demonstrar o quanto o pecado é abominável para Deus, ao invés de ser algo trivial, como o autor do vídeo sugere.

4ª) Por que a Bíblia contém tantas bobagens anti-científicas?

O autor do vídeo-texto parece não conhecer bem as Escrituras. A Bíblia não diz que Deus criou o mundo há seis mil anos. A inundação do dilúvio não cobriu o Everest, pois não foi global, mas ocorreu apenas até onde os homens habitavam na época. Quanto a Jonas, Adão e a própria criação do mundo, entramos no âmbito do sobrenatural. Ao definir como "bobagens sem sentido" aquilo que foge à explicação humana, o autor parece não aceitar que Deus seja Deus... Ora, se tudo pudesse ser explicado pelo homem, que Deus seria esse?

5ª) Por que Deus se inclina tanto em promover a escravidão na Bíblia?

Em nenhuma das passagens citadas Deus promove a escravidão.

6ª) Por que coisas ruins acontecem com pessoas boas?

Porque, segundo o próprio Jesus, não existem pessoas boas. Aliás, deveríamos perguntar o contrário: como é que um Deus santo e justo ainda tolera pecadores como nós e, especialmente, pecadores arrogantes como o autor desse vídeo-texto? Deus não é injusto, mas muito misericordioso. Nós não merecíamos nem o ar que respiramos.

7ª) Por que nenhum dos milagres de Jesus na Bíblia deixou alguma evidência?

Isso deve ser uma piada! O que o autor dessas perguntas queria? Que ainda tivéssemos alguma mostra dos pães e peixes que o Senhor multiplicou? Mas existe sim a grande evidência de um milagre. O fato de poucas dezenas de discípulos de Jesus se multiplicarem em mais de dois bilhões de cristãos é a maior evidência de seu maior milagre: a ressurreição. Se Jesus tivesse mentido a esse respeito, todos teriam deixado de segui-lo, pois ninguém arriscaria sua vida por uma mentira.

8ª) Como explicamos o fato de Jesus nunca ter aparecido de fato para você?

Mais uma piada!!! Por que Jesus teria obrigação de aparecer para os cristãos? Só por que algum deles pede isso? Ora, não somos nós que mandamos em Cristo, mas ele sim, em nós. Por isso é que o chamamos de Senhor. Isso também significa que ele pode aparecer para alguém, se assim o quiser. Eu mesmo, por exemplo, tive a inesquecível experiência de ouvir o Senhor me chamar pelo nome para o ministério pastoral.

9ª) Por que Jesus deseja que nós comamos sua carne e bebamos seu sangue?

Porque a ceia representa o fato de que Jesus tomou sobre si a condenação do pecado de todos que nele cressem. Somente os que crêem participam da ceia. Ao comermos o pão, que simboliza seu corpo, e bebermos o vinho, que simboliza seu sangue, estamos nos identificando com sua morte, ou seja, reconhecendo que nós merecíamos a condenação e que ele morreu por nossos pecados. A ceia do Senhor só parece algo grotesco, como sugere o autor do vídeo-texto, para quem não comprende o seu significado espiritual, como certamente é o caso desse indivíduo.

10ª) Por que os cristãos se divorciam na mesma proporção daqueles que não são cristãos?

Há cristãos que se divorciam por uma de duas razões: ou porque havia uma justificativa bíblica para o divórcio (tal como a traição ou o afastamento do cônjugue descrente), ou por falta de se exercer a fé para superar o problema conjugal (no caso de ambos serem cristãos). Mas o autor do vídeo-texto mente ao dizer os cristãos se divorciam na mesma proporção daqueles que não são cristãos. A não ser que ele esteja chamando de cristão aqueles que, apesar de não fazerem parte de igreja alguma, ainda se dizem cristãos. Há muitas pessoas que respondem a pesquisas estatísticas se dizendo cristãs, quando na verdade não praticam religião alguma.

Conclusão

Ao chamar de "fascinantes" as perguntas que ele mesmo elaborou, o autor do vídeo-texto revela ter um sério problema de egocentrismo. Ele diz ainda que a Bíblia foi escrita por homens ridículos e rudes, porém é notável que seu conteúdo esteja perdurando por milênios, o que certamente não ocorrerá com seu vídeo arrogante. Sinceramente, longe de serem fascinantes, suas dez perguntas foram decepcionantes. Eu esperava mais de um ateu com educação universitária.
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*Pseudo-ateu: Chamar o autor dessas perguntas infantis de "ateu" seria um desrespeito para com meus amigos ateus, que poderiam formular perguntas bem mais estimulantes do que as que respondi acima.

14 junho 2012

ONDE ESTÁ O ERRO NA TEOLOGIA DA PROSPERIDADE


Por Alan Capriles

Teologia da Prosperidade não é algo teórico pra mim. Não preciso pesquisar para escrever acerca desse assunto, pois conheci essa doutrina pela prática. É claro que sinto vergonha em dizê-lo, mas devo confessar que já fui um dos pregadores dessa teologia errônea, que motiva a ganância nas pessoas. Essa foi uma fase que, graças a Deus, durou pouco tempo, mas que considero vergonhosa para o meu ministério.

Tudo começou quando participei de um famoso congresso, no qual seu preletor principal foi um pregador norte-americano, que veio a convite de um renomado pastor brasileiro. Como eu admirava muito esse pastor, especialmente por sua fidelidade às Escrituras, imaginei que qualquer pessoa indicada por ele deveria ser digna de confiança. E assim, fui absorvendo os ensinamentos daquele gringo, absolutamente desarmado de qualquer senso crítico. Ouvi coisas fascinantes, que eu nunca antes havia aprendido, mas que hoje percebo serem, em grande parte, distorções da Palavra de Deus. O pastor que eu tanto admirava também ficou fascinado por essa mensagem, a ponto de tornar-se o maior defensor dessa doutrina em nosso país. O problema é que, ao contrário do que aconteceu comigo, ele não se arrependeu, mas continuou propagando esse mal, usando a mídia para influenciar milhares de outros pastores, tanto no Brasil, quanto no mundo.

Gostaria que tudo não passasse de um terrível pesadelo, pois é angustiante testemunhar que isso está mesmo acontecendo! A teologia da prosperidade está se disseminando como gangrena pelo corpo de Cristo, de tal forma que é cada vez mais difícil se encontrar uma igreja que esteja livre dessa contaminação. Sendo assim, sinto-me na obrigação de escrever esse alerta. Mas devo esclarecer que meu combate não é contra pessoas e sim contra uma gravíssima distorção da doutrina cristã. Aos que prosseguirem nessa leitura, aconselho que peguem suas Bíblias e confiram se o que estou afirmando é mesmo da maneira como estou dizendo. “Porque nada podemos contra a verdade, senão em favor da própria verdade.” (2 Co 13:8)

Em primeiro lugar, precisamos definir o que é a teologia da prosperidade. Em poucas palavras, a teologia da prosperidade é o conceito de que Deus deseja riqueza para todos os seus filhos e de que, se algum filho de Deus ainda não é rico, seria porque ele não está “semeando” corretamente. Segundo essa teologia, o semear corretamente seria ofertar dinheiro no ministério de alguém rico, ou em algum rico ministério, a fim de se colher da mesma prosperidade que essa pessoa ou instituição usufrui “da parte de Deus”. Basicamente, é isso.

Por considerar que a riqueza é prova da bênção de Deus, a teologia da prosperidade deprecia os pobres, tratando-os como se eles fossem todos miseráveis que estivessem a mendigar o pão. Mas isso não é verdade! Precisamos ter em mente que “pobreza” não é o mesmo que “miséria”. Apesar de todo miserável ser pobre, nem todo pobre é miserável. Uma pessoa que leva uma vida simples pode até ser considerada “pobre” pela sociedade, mas isso não significa que ela esteja na miséria. O problema é que a teologia da prosperidade não aceita que o cristão tenha uma vida simples.

É importante se enfatizar isso: a teologia da prosperidade não aceita que o cristão tenha uma vida simples. Para os defensores dessa teologia, “Deus não quer que você se contente com o pouco que tem, mas que busque cada vez mais e mais riquezas, pois desta forma Deus estará sendo glorificado na sua vida”. Sendo assim, a teologia da prosperidade é preconceituosa em relação aos pobres, chegando a dizer que pobreza é escravidão e que ser pobre é pecado! [1] Os pregadores dessa doutrina procuram convencer as pessoas de que Deus espera que elas o busquem com expectativas de uma recompensa, que seriam as riquezas materiais. Um famoso pastor brasileiro chegou a chamar de “trouxa” quem oferta a Deus somente por amor, sem esperar nada em troca.

Teólogos renomados, como John Piper [2], são diretos em denunciar que a teologia da prosperidade é “outro evangelho”, diferente do evangelho pregado por Jesus e pelos apóstolos. Isso é gravíssimo, pois Paulo declarou serem malditos aqueles que pregam outro evangelho (Gálatas 1:8-9). Mas não é difícil perceber porque se trata de outro evangelho. Basta considerarmos que a teologia da prosperidade nada mais é do que a troca da mensagem “Deus quer que você se arrependa” pela mensagem “Deus quer que você seja rico”. Obviamente, essa última mensagem é uma boa nova que consegue atrair multidões, razão pela qual tantos pregadores ficam fascinados por essa teologia. As pregações bíblicas, que levavam ao arrependimento, estão agora sendo substituídas por mensagens com títulos atraentes, tais como “Eu nasci pra ser feliz” ou “Uma vida de prosperidade” e isso têm enchido rapidamente as igrejas. Algo semelhante ocorre na maioria dos programas evangélicos da TV, nos quais a mensagem precisa ser agradável aos ouvintes a fim de que se obtenha mais audiência e, consequentemente, mais colaboradores para se pagar o programa.

Aliás, foi num desses programas evangélicos da TV que um conhecido pastor desafiou que alguém apontasse o erro teológico em uma de suas mensagens acerca de prosperidade. Aceitei o desafio e analisei biblicamente a mensagem. Como eu já suspeitava, o “veneno” dessa teologia estava sutilmente espalhado pela pregação, passando despercebido para quem não estiver atento, ou para os que não conhecem o verdadeiro evangelho de Cristo.  (Meu próximo artigo será uma análise completa dessa mensagem, na qual já estou trabalhando)

Mas, dentre todos os erros, gostaria de destacar aquele que é suficiente para se derrubar essa falsa doutrina:

A teologia da prosperidade é frontalmente contrária aos ensinos de Cristo e dos apóstolos em relação a se acumular ou se desejar as riquezas deste mundo.

O que estou afirmando pode ser facilmente comprovado, bastando que se faça uma simples releitura do Novo Testamento. De fato, foi exatamente assim que me dei conta do meu erro e de que precisava abandonar completamente esse falso evangelho. Qualquer cristão que faça uma releitura dos evangelhos e das epístolas poderá ter o mesmo despertamento para a verdade! O problema é que muitos quase não leem o Novo Testamento e a maioria dos pastores só abrem suas bíblias “profissionalmente”, a fim de procurar textos para pregar – textos que, na maioria das vezes, estão no Antigo Testamento. [3]

Mas, consciente de que essa releitura bíblica demanda certo tempo, relaciono a seguir alguns desses versículos, os quais são totalmente opostos à teologia da prosperidade. Deixo também um pequeno comentário acerca de cada trecho, mas estou certo de que a Palavra de Deus é poderosa, por si mesma, para derrubar essa falsa doutrina.

Primeiramente, consideremos o que o Senhor Jesus nos ensinou – considerando também que, se o chamamos de Senhor, deveríamos obedecê-lo (Lc 6:46), ao invés de ignorar ou distorcer suas ordens, que são tão claras e diretas:
“Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam;  mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam;  porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” (Mateus 6:19-21) “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra” é uma ordem direta. Não precisamos estudar teologia para compreender algo tão evidente.
“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes?” (Mateus 6:24-25) O Senhor nos obriga escolher entre Deus e as riquezas. Não é possível servir aos dois. Ou vivemos pelo “ser”, buscando a Deus para sermos uma nova criatura que frutifique em amor para sua glória, ou vivemos pelo “ter”, buscando acumular riquezas materiais na ilusão de que isso glorifica a Deus. 
“Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui.” (Lucas 12:15) Confira também o restante desse capítulo, no qual o Senhor deixa claro que a nossa vida consiste em sermos ricos “para com Deus”, o que nada tem a ver com ter abundância de bens. 
“Vendei os vossos bens e dai esmola; fazei para vós outros bolsas que não desgastem, tesouro inextinguível nos céus, onde não chega o ladrão, nem a traça consome, porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.”(Lucas 12:33,34) Jesus ordenou esse desprendimento a todos, não somente aos apóstolos. Juntar tesouros nos céus significa crescer em virtudes e valores, tais como a compaixão e a humildade – devendo ser esse o foco da nossa vida, o crescimento espiritual, e não o ganhar mais dinheiro. 
“Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo.”(Lucas 14:33) Ao invés de ensinar a renúncia, a teologia da prosperidade ensina a ganância. 
“É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.”(Marcos 10:25) Sendo as riquezas algo tão perigoso, a ponto de colocar em risco a própria salvação, por que Jesus iria querer que seus seguidores fossem ricos? Mas a teologia da prosperidade ensina essa mentira, a de que Deus deseja que todos os seus filhos sejam ricos.
Agora, consideremos como viviam os primeiros (e genuínos) cristãos, segundo nos é revelado no livro de Atos dos Apóstolos:
“Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade.”(Atos 2:45) Isso nos mostra o desapego que os discípulos tinham em relação aos bens materiais, porque eles compreendiam que a verdadeira riqueza é Cristo. 
“Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum.” (Atos 4:32) Havia um desejo por compartilhar, muito diferente da cobiça e ganância que é gerada pelos pregadores da teologia da prosperidade. 
“Pois nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes  e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade.” (Atos 4:34-35) Será que os pregadores da prosperidade, que chamam as ofertas de “sementes” e que pedem para “semear” em seus ministérios, estariam dispostos a repartir o dinheiro que arrecadam com quem tiver necessidade?
E, finalmente, consideremos o que ensinaram os verdadeiros apóstolos:
“Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão.”(1Timóteo 6:7-11) “Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes” é o contrário do que ensina a teologia da prosperidade, que motiva o crente a querer ser rico, mesmo com a advertência de Paulo, de que “os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição” É difícil compreender como um crente pode ser tão cego e continuar desejando riquezas, quando Paulo nos ordena fugir dessas coisas. 
“sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir”(1Timóteo 6:18) Foi isso que Paulo instruiu que Timóteo dissesse aos ricos. Eis a verdadeira riqueza que Deus espera encontrar em nós: o amor ao próximo, não somente de palavras, mas por obras e em verdade. 
"Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo."(Romanos 14:17) Para os pregadores da teologia da prosperidade, no entanto, o reino de Deus é comer o melhor desta terra. 
“Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei.”(Hebreus 13:5) “Contentai-vos com as coisas que tendes”. Será preciso dizer mais alguma coisa?
É tão claro e evidente que a teologia da prosperidade contraria o ensino de Cristo e dos apóstolos que me sinto ridículo em mostrar esses versículos. Todo cristão já deveria saber disso! Para que fique ainda mais evidente o contraste, comparemos o ensino da doutrina cristã com aquilo que ensinam os pregadores dessa teologia diabólica:
Sobre o acúmulo de bens materiais
Ensino de Jesus e dos apóstolos: Não acumulem bens sobre a terra, a não ser para se repartir com os necessitados. 
Ensino da teologia da prosperidade: “Quanto mais bens você acumular para si mesmo, maior será o sinal da bênção de Deus sobre a sua vida”. 
Sobre desejar as riquezas 
Ensino de Jesus e dos apóstolos: Não devemos desejar riquezas.  
Ensino da teologia da prosperidade: “Devemos desejar riquezas.” 
Sobre o contentamento 
Ensino de Jesus e dos apóstolos: Devemos viver contentes com o que temos.  
Ensino da teologia da prosperidade: “Não devemos nos contentar com pouco.” 
Sobre os pobres 
Ensino de Jesus e dos apóstolos: Os pobres são bem-aventurados. (Lc 6:20; Tg 2:5) 
Ensino da teologia da prosperidade: Pobreza é escravidão e ser pobre é pecado.
Antes de concluir, quero esclarecer que não faço apologia da pobreza, como se ela fosse um fim em si mesma. Ser pobre não é sinônimo de salvação, assim como ser rico não é sinônimo de perdição. Embora Jesus tenha afirmado que um rico dificilmente consegue entrar no reino de Deus, ele mesmo completou que "os impossíveis dos homens são possíveis para Deus." (Lucas 18:25-27) No entanto, fazer dessa ressalva de Jesus uma norma é como fazer da exceção a regra.

Encerro com o testemunho de Jim Bakker, pastor norte-americano que se enriqueceu pregando a teologia da prosperidade, ou seja, convencendo seus ouvintes a que semeassem dinheiro em seu ministério, com a promessa de que ficariam ricos. Após perder toda a sua pequena fortuna e se ver na pobreza, Bakker se dedicou a examinar as Escrituras, a fim de encontrar o que havia saído errado. Acerca disso, ele escreveu:
“Passei meses lendo cada palavra dita por Jesus. Eu as escrevi por muitas e muitas vezes, e também as li por muitas e muitas vezes. Se você aceitar o conselho inteiro da Palavra de Deus, não há como interpretar as riquezas ou as coisas materiais como um sinal da bênção de Deus [...] Já pedi que Deus me perdoasse por haver pregado a prosperidade terrena. Jesus não ensinou que as riquezas são um sinal da bênção de Deus. Jesus disse: ‘Estreito é o caminho que conduz à vida e são poucos os que entram por ele’. [...] Já está na hora de conclamação sobre o púlpito ser mudada de ‘quem quer uma vida de prazeres, casas novas, carros, possessões e bens materiais’ para ‘quem quer vir à frente e receber Jesus Cristo, para segui-lo em seus sofrimentos.” [4]
Jim Bakker releu os livros do Novo Testamento e despertou para a verdade. Só que foi tarde demais para ele, que além de perder todo seu dinheiro, ainda foi condenado por 24 acusações de fraude. [5] Releia os ensinamentos de Cristo, antes que seja tarde demais para você.

“Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo
e não somente de crerdes nele” (Filipenses 1:29)

Alan Capriles
________________

[1] “Pobreza é escravidão!” – “Bíblia de Estudo Batalha Espiritual e Vitória Financeira” – página xxvii – 1ª edição – editora Central Gospel (2007).
“Ser pobre é pecado” – Robert Tilton, “Success-N-Life”, programa pela televisão (27 de dezembro de 1990)
[2] Assista Jonh Piper falar sobre a teologia da prosperidade clicando aqui.
[3] Acerca do cuidado que devemos ter ao se pregar no Antigo Testamento, destaco a seguinte declaração do príncipe dos pregadores: “O antigo pacto era [de fato] um pacto de prosperidade. O novo pacto é [no entanto] um pacto de adversidades, mediante o qual estamos sendo desmamados deste mundo presente e nos preparando para o mundo vindouro.” (Charles Haddon Spurgeon, comentando sobre Jó 8:11-13, sermão 651 dos sermões pregados durante o ano de 1865)
[4] Jim Bakker, citado por Terry Mattingly, “Prosperity Christian’ Sing a Diferent Tune” Rocky Mountain News (16 de agosto de 1992), pág. 158.
[5] HANEGRAAFF, Hank - Cristianismo em Crise - 4ª edição (CPAD - 2004) Pág. 233

22 maio 2012

A CASA DE DEUS NÃO É UM EDIFÍCIO


Por Alan Capriles

Este é o primeiro vídeo da série intitulada “Verdades que todo o cristão deveria saber”. Nessa série pretendo expor algumas verdades que deveriam ser óbvias para qualquer seguidor de Cristo, mas que muitos parecem desconhecer. Meu propósito não é afrontar ninguém, mas ajudar a esclarecer aqueles que desejam seguir a Cristo com sinceridade. A série começa com a seguinte verdade:

A casa de Deus não é um edifício,
a casa de Deus somos nós.



É um equívoco chamar qualquer edificação humana de “a casa de Deus”. Estêvão, que foi o primeiro mártir cristão, expôs essa verdade em seu discurso aos judeus:

“Não habita o Altíssimo em casas feitas por mãos humanas; como diz o profeta:  O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés; que casa me edificareis, diz o Senhor, ou qual é o lugar do meu repouso?  Não foi, porventura, a minha mão que fez todas estas coisas?” (Atos 7:48-50)

“Não habita o Altíssimo em casas feitas por mãos humanas” - Não me admira que, logo após dizer isso, ele tenha sido apedrejado!

Paulo, o apóstolo, em seu discurso aos atenienses também declarou essa mesma verdade:

“O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas.” (Atos 17:24)

“Deus não habita em santuários feitos por mãos humanas.”

Mas, antes de prosseguir, quero esclarecer que não estou condenando que a igreja se reúna em um local mais amplo, seja ele alugado, construído, ou comprado. O que estou esclarecendo é que não devemos chamar qualquer templo construído pelo homem
de casa de Deus, porque fazer isso pode trazer graves consequências.

Mas, se um templo feito por mãos de homens não é a casa de Deus, qual é a casa de Deus? Em Hebreus 3:5,6 temos uma pista:
“E, na verdade, Moisés foi fiel em toda a sua casa, como servo, para testemunho das coisas que se haviam de anunciar;  mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim.”

Segundo esse texto, a casa de Deus, onde Cristo habita, são aqueles que perseveram firmes na fé (até o fim). Essa fidelidade a Cristo comprova que alguém é habitação de Deus, tal como Cristo afirmou:

“Se alguém me ama, guardará a minha palavra;
e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada”
(João 14:23)

Deus faz morada em nós! Essa é uma verdade que todo cristão já deveria saber. Paulo fica admirado que os crentes de Corinto tenham se esquecido disso. Em 1Co 3:16 ele os censura com a seguinte pergunta:

“Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?”

Como se vê, a casa de Deus não é uma edificação morta, mas é a igreja do Deus vivo, tal como Paulo declara em sua primeira carta a Timóteo:

“para que, se eu tardar, fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade.” (1 Timóteo 3:15)

Sendo assim, a verdadeira casa de Deus é uma edificação espiritual, como Pedro revela em sua primeira carta:

“também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo.” (1Pedro 2:5)

E como Paulo também afirma em sua carta aos Efésios:
“vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito.” (Efésios 2:22)

Mas, qual o problema de chamar de casa de Deus o local onde a igreja se reúne para cultuar? O problema é que, além disso não ser verdade, com o passar do tempo Os cristãos se esquecem de priorizar o seu relacionamento íntimo com Deus e priorizam o serviço entre quatro paredes. E, mais: acaba se investindo muito na edificação de templos, e no embelezamento dos mesmos, mas muito pouco na edificação de vidas.

Como o dinheiro arrecadado nas ofertas é usado para embelezar templos, acaba não sobrando o suficiente para o sustento daqueles
que poderiam se dedicar exclusivamente ao evangelho, razão pela qual os missionários passam tanto aperto financeiro e também não sobra nada para socorrer os irmãos que estão em necessidade.

A questão é que Cristo não nos mandou edificar templos, Cristo nos mandou edificar vidas.

Mas esta é uma verdade que pretendo mostrar em meu próximo vídeo...
Mais uma verdade que todo cristão deveria saber.

29 abril 2012

ORAI PELOS QUE VOS PERSEGUEM


Por Alan Capriles

“Tornei-me, porventura, vosso inimigo, por vos dizer a verdade?”
(Gálatas 4:16)

A perseguição é o custo por se dizer a verdade. Sempre foi assim. Como nada se pode fazer contra a verdade, muitos optam por denegrir quem disse a verdade, saindo do debate das ideias para o embate pessoal. Quando alguém age dessa forma, preferindo partir para ofensas e pré-julgamentos, geralmente é porque se esgotaram os argumentos da razão. No entanto, não nos esqueçamos de que a verdade só é ofensiva para quem decide permanecer no erro.

Tenho sofrido esse tipo de ataque nos últimos dias. Jamais imaginei que meu artigo intitulado “Jesus nunca foi evangélico” fosse causar tanto furor naquele que afirmou o contrário, ou seja, que Jesus teria sido evangélico. Mesmo apesar da consideração que tive em não citar seu nome, ou de não dar pistas sobre seu blog, e de nada eu escrever de pessoal acerca de sua pessoa (nada mesmo!) sua revolta pessoal contra mim foi despejada num artigo onde fui chamado de “briguento, violento, sem domínio próprio, beligerante, injusto e desrespeitoso”. E, adivinhem: nem uma só palavra para explicar como ele chegou a estranha conclusão de que Jesus era evangélico. Aliás, o artigo desviou desse foco, deturpando minhas palavras, dando a entender que eu havia criticado Lutero, Zwinglio e Calvino e que eu estaria condenando quem se rotula evangélico, atitude que eu jamais tomaria. Quem convive comigo sabe que sou totalmente contra discriminar pessoas, seja por sua opção religiosa, ou por qualquer outro motivo. Prova disso é que sou convidado a pregar em diversas igrejas evangélicas e tenho bom relacionamento com todos os evangélicos e católicos que conheço. Todos. Respeito a liberdade que as pessoas tem de colocar sobre si mesmas o rótulo que quiserem. Mas, dizer que Jesus era evangélico já é demais! Isso é como querer colocar um rótulo religioso no próprio Deus, razão pela qual não me calei. Jesus está muito acima de qualquer religião rotulada pelos homens.

No entanto, meu combate é sempre contra a mentira e não contra pessoas. Ao combater uma mentira que alguém tenha dito, não estou com isso chamando essa pessoa de mentirosa, mas refutando um equívoco que foi cometido, a bem da verdade. Nada além disso. Não é um ato de desamor, mas de amor! Quem ama, corrige. Ademais, minha ética não me permite citar o nome de quem tenha cometido o erro, a fim de poupar sua reputação. Foi assim que agi em “Jesus nunca foi evangélico” e é sempre essa mesma postura que adoto em todos os meus textos. Isso já ficou bem esclarecido no artigo intitulado “Prefiro acender uma luz”.

Mas é mesmo lamentável quando alguém sai do campo das ideias para o embate pessoal, pois isso é totalmente improdutivo. Não somente improdutivo, mas altamente nocivo ao reino de Deus. Para exemplificar, o jornalista que se levantou contra mim teve o trabalho de descobrir o site da igreja que pastoreio, não para se alegrar com o fato de eu publicar artigos que ele escreveu (o que comprova minha admiração por ele), mas para ridicularizar a foto em que estou abraçado com nossos irmãos em Cristo. Pergunto: O que ele conseguiu com isso? Somente uma porção de comentários me achincalhando, feito por pessoas que não tem a menor ideia de quem sou, magoando meu coração e o dos irmãos que pastoreio. E ele ainda condenou meu ministério, como se eu não fosse apto a exercer o pastorado. Que proveito isso trouxe para o reino de Deus? Teria sido proveitoso sim, se ele tivesse escrito um artigo explicando a frase na qual afirma que Jesus foi evangélico, mas, ao invés disso, preferiu colocar os evangélicos contra a mim, semeando contenda entre os irmãos, a prática mais abominável aos olhos de Deus. (Provérbios 6:16-19)

Chorei. Foi deprimente ler aquele texto, escrito não contra minha tese, mas contra a minha pessoa, numa clara demonstração de rancor e de vingança. E depois, como foi angustiante ler, ao longo da semana, tantos comentários que me apedrejavam e denegriam... Mas, a despeito de tudo isso, orei muito para não me ressentir contra qualquer um deles, a começar por quem me caluniou, pois não ignoro quem realmente está por detrás de tudo isso. Faço minhas também as palavras de Paulo, o apóstolo: “eu perdoo [...] para que Satanás não alcance vantagem sobre nós, pois não lhe ignoramos os desígnios.” (2 Coríntios 2:10,11 parte)

O fato é que nossa luta não é contra os ímpios e muito menos contra nossos irmãos em Cristo! (Efésios 6:11,12) Nossa luta é contra o maligno e suas mentiras; mentiras que oprimem as pessoas dentro de guetos, de rótulos e que as mantém divididas, longe da simplicidade e do amor do verdadeiro evangelho. Denegrir pessoas é sempre errar o alvo, pois o nosso real inimigo não é o homem, mas o pai da mentira, que é quem engana e escraviza o homem no pecado. (João 8:44)

Portanto, não pagarei o mal com o mal. Não me acho melhor do que ninguém. Não fortalecerei as trevas da soberba. Continuarei acendendo uma luz. Sei que só se pode vencer o mal com o bem. (Romanos 12:21) Fui apedrejado, mas minha escolha é perdoar. Fui difamado, mas minha escolha é, sinceramente, abençoar. (Rm 12:14)

Que Deus abençoe aqueles que me julgaram e condenaram sem nem sequer me conhecer. Que sejam livres do orgulho, do ódio, da vingança e do engano de todo sistema opressor. Que Deus os abençoe, em nome de Jesus. Amém.

“Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.”
(2 Timóteo 3:12)
" Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem"
(Jesus Cristo - Mt 5:44)

13 abril 2012

A ESCOLHA ENTRE A VERDADE OU A TRADIÇÃO


Por Alan Capriles

Qualquer um que se aventure pela senda do conhecimento, mais cedo ou mais tarde terá que se decidir entre a verdade, ou a tradição. Lamento dizer, mas nem tudo o que aprendemos como verdade absoluta é, de fato, a completa verdade. Boa parte daquilo que aprendemos desde a infância nada mais é que um paradigma, sem muita consistência racional, mas consolidado por gerações como regra geral na sociedade.

A busca pelo conhecimento, no entanto, nos ajuda a identificar o que é verdade e o que é paradigma. Quando algum paradigma diz respeito a comportamentos sociais, ou a crenças históricas, o problema não costuma ser tão sério. Mas quando o paradigma diz repeito a assuntos religiosos, prepare-se para o martírio, pois não há nada que cause mais furor nas pessoas do que alguém questionar seu alegado relacionamento com Deus. Por mais que se comprove a verdade, muitos preferem continuar na prática daquilo que chamam de tradição. E a tradição é a continuidade daquilo que os antigos acreditavam, mas que ninguém se aventura a questionar, pois, afinal de contas, se crê nisso há tanto tempo, mas tanto tempo, que só pode ser verdade... Mas, nem sempre é verdade. Alias, quase sempre é mentira.

Jesus denunciava publicamente o erro das tradições religiosas de sua época. No chamado “sermão da montanha”, por exemplo, Jesus começa muitos ensinamentos com a frase: “Ouvistes o que foi dito aos antigos... Mas eu, porém, vos digo...” O que foi dito aos antigos era a tradição, aquele paradigma que ninguém ousava questionar. O que Jesus, porém, dizia era a verdade, a verdade que ele ousava falar. E todos nós sabemos o que os religiosos fizeram para calar Jesus.

Como se vê, dizer a verdade tem um alto custo no meio religioso, podendo custar a própria vida. Mas, na maioria das vezes, o preço por defender a verdade é ser chamado de herege, traidor, ou, no mínimo, esquisito. Não estou com isso dizendo que qualquer um que seja chamado de herege esteja com a verdade. Estou ciente que, mais do que em qualquer outra época, existem hoje muitas pessoas ensinando heresias destruidoras. Por outro lado, também existem aqueles que, por questionar alguma tradição religiosa, são taxados como hereges. E ninguém quer ser chamado de herege, pois isso significa perder amigos, familiares e, em alguns casos, a boa fama e o prestígio.

É justamente quando alguém se dá conta disso, do alto custo de se questionar uma tradição, que tal pessoa precisa escolher entre a verdade que descobriu, ou a crença equivocada de sua religião. E é lamentável que muitos eruditos prefiram a segunda opção. Tal como os intérpretes da Lei, a maioria dos eruditos da Bíblia tem a chave do reino de Deus, que é o conhecimento da verdade, mas não entram e, com isso, se tornam o maior empecilho para que os leigos sejam libertos pela verdade.

Como eu disse no início, qualquer um que se aventure pela senda do conhecimento, mais cedo ou mais tarde terá que se decidir entre a verdade, ou a tradição. Mas, perceba que, para se chegar à verdade, é preciso trilhar o longo caminho do conhecimento, caminho esse que também requer um custo, tanto financeiro, quanto mental e físico.

O custo financeiro é o dinheiro que você precisará gastar adquirindo livros, fazendo cursos, ou mesmo fazendo viagens para entrevistar pessoas, conhecer lugares e participar de eventos. Será necessário abrir mão de gastar dinheiro com vaidades, para se investir em conhecimento.  O custo mental é, obviamente, o esforço para ler livros, estudar contradições e chegar a conclusões. E o custo físico não é outro, senão abrir mão do descanso e da diversão para se dedicar a árdua tarefa de se buscar a verdade.

Mas existem algumas armadilhas na senda do conhecimento, a respeito das quais ainda pretendo escrever. Perigos tais como ficar fascinado por algum mestre, caindo no equívoco de não questionar mais nada que ele diga. Infelizmente, muitos caem nessa armadilha e ficam pelo meio do caminho, tornando-se discípulos de homens, e não discípulos da verdade.

Minha esperança, ao escrever este artigo, é que de alguma forma estas palavras o incentivem a continuar sua busca pela verdade. Você não a encontrará se permanecer sempre dentro do mesmo círculo. Você terá que abrir sua mente. Você não a encontrará a verdade se visitar somente livrarias evangélicas. Espero que você já tenha compreendido que uma coisa é ser evangélico, e outra, muito mais profunda, é ser discípulo de Cristo. Evangélicos, assim como católicos, amam suas tradições mais do que a verdade. Portanto, não tenha medo de ouvir e de ler o que outros têm a dizer, por mais que o seu meio religioso os condene como hereges. Talvez eles sejam mesmo hereges, mas talvez não. Você só poderá saber por sua própria investigação. Investigue! Talvez você descubra que alguns “hereges” são mais fiéis a Cristo que seus líderes religiosos, pois esses defendem suas complicadas tradições, enquanto aqueles defendem a simples e pura verdade... E quanto a você, qual é a sua escolha?

Alan Capriles

07 abril 2012

A SEGUNDA PARTE DE "COMO ZAQUEU"

A segunda parte da história de Zaqueu, que Régis Danese não cantou em seu famoso louvor "Faz um Milagre em Mim" (Como Zaqueu):

Como Zaqueu
Quero dar aos pobres
A metade do que eu tiver
E se eu houver
Enganado alguém
Restituo quatro vezes mais

Pergunto, com todo o respeito:
- Por que será que o Régis Danese não cantou isso?
- E será que alguém aí ainda quer mesmo ser como Zaqueu?

"Entrementes, Zaqueu se levantou e disse ao Senhor: Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais."
(Lucas 19:8)

26 março 2012

JESUS CRISTO PROÍBE RIQUEZAS


“Juntar tesouro na terra 
é tão claramente proibido por nosso Senhor 
como o adultério e o homicídio.” 
John Wesley

Considere atentamente os seguintes ensinamentos do Senhor Jesus Cristo:

"Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração."
(Mateus 6:19-21)

"Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas."
(Mateus 6:24)

"Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui."
(Lucas 12:15 - confira também todo o restante desse capítulo)

"Vendei os vossos bens e dai esmola; fazei para vós outros bolsas que não desgastem, tesouro inextinguível nos céus, onde não chega o ladrão, nem a traça consome, porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração."
(Lucas 12:33,34)

"Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo."
(Lucas 14:33)

"É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus."
(Marcos 10:25)

Agora considere como viviam os primeiros (e genuínos) cristãos:

"Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade."
(Atos 2:45)

E, finalmente, considere o que ensinaram os (verdadeiros) apóstolos:

"Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores.
Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão."
(1Timóteo 6:7-11)

"sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir"
(1Timóteo 6:18)

"Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo."
(Romanos 14:17)

"Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei."
(Hebreus 13:5)

E agora, seja franco ao responder esta questão:

- Mediante o exemplo deixado pelos primeiros cristãos, o ensino dos apóstolos e as ordenanças do próprio Senhor Jesus, é concebível que um cristão acumule bens, ou sequer deseje enriquecer? É concebível isso?

A verdade é que aqueles que não se contentam com o que possuem, nunca se converteram a Cristo. E o mesmo se aplica àqueles que têm muito além do que necessitam.

Esta é a verdade.

"Tornei-me, porventura, vosso inimigo, por vos dizer a verdade?"
(Gálatas 4:16)

09 março 2012

QUEBRA DA MALDIÇÃO FINANCEIRA

Por Alan Capriles

Parece piada o que vou contar agora, mas aconteceu realmente. E aconteceu comigo! E seria cômico, se não fosse trágico...

Há poucos dias atrás recebi o telefonema de um querido amigo pastor, que me convidava para pregar em sua igreja no dia seguinte. Somente após o meu consentimento foi que ele explicou tratar-se da Campanha da Quebra da Maldição Financeira, na qual eu deveria pregar mostrando princípios bíblicos para os irmãos conquistarem sua casa própria, seu carro zero, entre outras coisas materiais. Imediatamente pensei em voltar atrás e recusar o convite, mas fui contido pelo Espírito Santo, que me conduziu a atendê-lo.

Sendo assim, no dia seguinte eu estava lá, pronto para pregar sobre a quebra da maldição financeira. Após o pastor me chamar ao púlpito, fiz os agradecimentos e anunciei aos queridos irmãos que me ouviam: "Fui informado de que esta é uma campanha para a quebra da maldição financeira. Pois bem, hoje vocês aprenderão a respeito da maior maldição financeira que existe... a avareza." 

Após um breve silêncio, prossegui, com o máximo de amor que consegui ter: "Se alguém veio aqui hoje para buscar a Deus por causa de uma casa própria, ou de um carro zero, ou mesmo de qualquer outro bem deste mundo... meu irmão, se este é o seu caso, você está muito enganado com Jesus e o seu evangelho. Muito enganado! E é isso que espero comprovar nessa mensagem, com a ajuda de Deus e baseado em sua palavra."

Em seguida, pedi aos irmãos que abrissem suas Bíblias no evangelho segundo Lucas. Uma vez que essa pregação não foi gravada, compartilho abaixo o esboço que usei. Ele não é muito técnico, mas garanto que foi rascunhado segundo a direção do Espírito Santo. Cada referência bíblica que aparece nesse esboço foi lida por mim naquela mensagem. Minha esperança é que você também as confira em sua Bíblia:

   Texto base: Lucas 12:13-21

   Introd.
   Ressaltar vers. 15
   A vida “não consiste na abundância dos bens”
   Em outras palavras:
   “A vida não consiste em ter”

   - Se a vida não consiste em ter, consiste em quê?

   A resposta está na parábola contada por Jesus (vv. 16-21)

   Ou seja:
   A vida não consiste em ter
   A vida consiste em ser.

   São dois estilos de vida totalmente opostos entre si:
   “Viver pelo ter” ou “viver pelo ser”

   - Por qual deles você vive?

   Viver pelo ter
   Quem vive focado no “ter”:
   - Fatalmente fará dos bens o seu maior tesouro (Mt 6:19-21)
   - Andará nas trevas (Mt 6:22-23) do egoísmo, da ansiedade, cobiça, inveja...
   - Não será fiel a Deus (Mt 6:24) 
   É como a semente entre os espinhos, que são crentes que não frutificam: Mt 13:22

   Por isso há tantos alertas quanto ao perigo das riquezas:
   1Tm 6:7-11
   Hb 13:5-6
   Lc 12:33-34

   Viver pelo ser
   Quem vive pelo ser, vive para:
   “ser uma nova criatura em Cristo Jesus”

   O nosso tesouro é Cristo!
   Por isso Paulo dizia:
   “para mim o viver é Cristo” (Fp 1:21)
   “vivo não mais eu, mas Cristo” (Gl 2:20)
   “que Cristo seja formado em vós” (Gl 4:19)

   Conclusão
   Seja rico para com Deus!
   Busque a cada dia se parecer mais com Cristo
   Fuja do amor ao dinheiro
   e busque a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão. (1Tm 6:11)

   Características essas que havia em Jesus, que nos ensinou:
   “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (João 15:12)
   Pois nisto consiste a vida...

Amado leitor, o que mais me surpreendeu foi que a igreja não rejeitou a mensagem que preguei. Pelo contrário, a aplaudiu! E digo isso somente para a glória de Deus, pois minha tarefa foi apenas a de expor Sua palavra. Isso me alegra, pois comprova uma tese que tenho: a de que as pessoas (independente da igreja) tem sede da Palavra, e não de ilusões. Por mais dura que seja a verdade, se ela for pregada em amor, os irmãos sairão do culto edificados e agradecidos, como os vi sair naquela noite. Aliás, houve até conversão!

Mas algo me entristeceu bastante. Foi quando o pastor, esse pastor que amo tanto, tentou justificar sua campanha (ou desfazer minha pregação), com a seguinte frase, dita durante a oração final do culto: "Mas, Senhor, quem não sonha com a casa própria? E quem não sonha com o carro zero? Quem, Senhor?"

Tive vontade de levantar a mão e dizer: "Eu, pastor! Eu NÃO SONHO em ter uma casa própria e também NÃO SONHO em ter um carro zero." Mas, de que adiantaria? Se nem a Palavra de Deus bastou para convencê-lo a sonhar em ser como Cristo, não são as minhas palavras, ou o meu exemplo, que o farão mudar de ideia. 

Por isso, prefiro orar. E orar, sobretudo, para que eu mesmo não esqueça de que devo somente ao Espírito Santo a compreensão pura e simples que hoje tenho do evangelho, pois não sou melhor do que ninguém. Alguém deve ter orado muito por mim. E assim como o Senhor me abriu os olhos, há de despertar também os demais pastores, se nos dedicarmos a orar mais por eles.

A Deus seja a glória para sempre. Amém.