sexta-feira, 24 de julho de 2015

SERÁ QUE DEUS EXISTE?

Como manter a fé em meio a tanto sofrimento

 

Por Alan Capriles

Questionar a existência de Deus não é algo que ocorre somente aos ateus e agnósticos.[1] E também não se trata de modismo passageiro. Essa dúvida tem ocorrido até mesmo nas pessoas mais religiosas, especialmente quando se deparam com tragédias pessoais, como a perda de um ente querido.

Por mais religioso que alguém seja, o que dizer para um pai que está em prantos pela morte do filho? Os amigos de Jó bem que tentaram lhe dizer alguma coisa, mas melhor seria se houvessem permanecido calados.[2] E aquela costumeira frase, de que “Deus sabe de todas as coisas”, dificilmente consolará pais que só querem ter o seu filho de volta.

Ainda que quase ninguém o diga, muitos na hora da dor se perguntam: “Será que Deus existe mesmo?”[3] E, se existe, por que permite que tamanho mal aconteça? O fato é que, mais cedo ou mais tarde, todos que dizem acreditar em Deus terão sua fé provada pelo sofrimento. Ninguém escapa de sofrer, nem o mais rico dos homens.

Mas, então, se todos sofrem, por que insistimos na crença em Deus?

Não é bem assim. Tem sido cada vez maior o número dos que se dizem ateus e agnósticos devido ao sofrimento. E o mais curioso é que a maioria desses professava determinada religião. Alguns passaram a duvidar da existência de Deus mesmo após chegar ao sacerdócio, como foi o caso do historiador Bart Ehrman. Em um de seus livros, intitulado O Problema com Deus, Ehrman tenta justificar seu agnosticismo elaborando perturbadoras questões relacionadas ao sofrimento:

“Por que os doentes continuam a definhar com dores indizíveis? Por que bebês ainda nascem com defeitos congênitos? Por que crianças são sequestradas, estupradas e assassinadas? Por que há secas que deixam milhões de pessoas famintas, levando vidas horrendas e excruciantes que terminam com mortes horrendas e excruciantes? [...] Por que uma criança – uma simples criança! – morre de fome a cada cinco segundos?”

Por que Deus permitiria tanta dor e maldade? Não ter encontrado uma resposta plausível para tanto sofrimento no mundo levou Ehrman a duvidar que Deus exista. Nesse mesmo capítulo ele completa: “Eu não sei se existe um Deus; mas acho que se houver um, ele certamente não é aquele proclamado pela tradição judaico-cristã, aquele poderosa e ativamente envolvido com este mundo. E assim, deixei de ir à igreja.”

Bart Ehrman parece ter sido sincero ao apontar o sofrimento como principal motivo para abandonar sua fé. Mas ele também se revelou humilde ao confessar algo que os ateus não estão dispostos a reconhecer: “eu não sei se existe um Deus”.

Certamente, esse é o ponto crucial. Não se pode comprovar que Deus não exista. Mas, se Deus fosse do jeito que Ehrman gostaria que fosse, então ele aceitaria que existe um Deus e não haveria problema. Ou melhor, nenhum problema, pois o mundo seria perfeito e todos seriam felizes para sempre! Agnósticos – a exemplo de Barth Ehrman – criam a imagem do deus que eles gostariam que existisse, mas quando percebem que o seu deus não se encaixa com a realidade que há, então passam a duvidar que Deus realmente exista. Os ateus também fazem o mesmo, embora neguem sequer imaginar qualquer tipo de deus, bem como a possibilidade de haver um Criador. Como se vê, os agnósticos parecem ser mais humildes e honestos, pois os ateus também não podem provar que não haja um Criador, a não ser pela desculpa de que Deus não é como eles gostariam que fosse. Mas admitir isso é algo que os ateus não estão dispostos a fazer.

Portanto, o x da questão é a premissa na qual ateus e agnósticos se baseiam para que Deus possa existir, ou seja, a de que a felicidade suprema e pessoal seria o propósito de toda existência humana. Mas, como há sofrimento e pessoas infelizes, então eles concluem que Deus não deve existir.

Essa noção, de que a existência do sofrimento implique na inexistência de Deus, não é uma ideia recente.[4] Porém, numa sociedade cada vez mais individualista, é natural que o número de pessoas que pense assim esteja crescendo rapidamente. Um crescimento alimentado pela mídia, que todos os dias tenta nos fazer acreditar que somos especiais e merecedores de todo conforto, luxo e divertimento possíveis. Evidentemente, essa mentalidade deturpada também contamina o meio religioso. Não por acaso o slogan “chega de sofrer” tornou-se um chamariz (que funciona) para igrejas onde os pregadores prometem o céu na terra. Essas igrejas estão sempre lotadas porque é nisso que as pessoas querem acreditar! O problema é que isso não é verdade.

Os crentes, assim como os ateus e agnósticos, também estão sujeitos a sofrer. A despeito do que ensinam certos pregadores, o sofrimento não é consequência da falta de fé. A pregação religiosa que promete uma vida sem sofrimento pode surtir efeito a curto prazo, atraindo os mais carentes e incautos. Mas, a longo prazo, quando esses voltarem a sofrer, ou eles irão procurar outra igreja, que não lhes engane, ou abandonarão de vez a fé, traumatizados por uma expectativa de plena prosperidade que não se concretizou. Temo que esse último cenário esteja ocorrendo com maior frequência. Uma religião deturpada pode gerar muito mais ateus que o secularismo hodierno.

Como se vê, não é difícil identificar as causas do crescente ateísmo. Mas, quanto ao sofrimento, identificar o seu porquê não é tarefa tão simples assim. Há muitas explicações, que variam de acordo com as mais diversas posições religiosas e filosóficas. Não caberia nesse texto esmiuçar as diferentes respostas apresentadas para se explicar o sofrimento. Obviamente, algumas se contradizem e não é possível que todas estejam certas.

Mas, francamente, não penso que a crença religiosa ou filosófica seja tão relevante quanto a compreensão e aceitação do óbvio: por mais doloroso que seja, o sofrimento faz parte da vida. E talvez faça parte da vida porque o sofrimento é bastante didático e revelador. Didático, porque aprendemos mais quando nos deparamos com o sofrimento do que quando tudo vai bem. E revelador, porque no sofrimento manifesta-se quem realmente somos. Foi o que ocorreu, por exemplo, na conhecida parábola do bom samaritano. Os religiosos, que aparentavam ser pessoas melhores, revelaram-se indiferentes à dor alheia, enquanto aquele desprezado samaritano se revelou misericordioso e solidário para com um estranho que sofria.[5]

Não obstante, além de nos ensinar sobre nós mesmos e sobre o próximo, o sofrimento também é a melhor oportunidade para exercitarmos a fé e o amor que dizemos ter. É provável que você já tenha notado que as maiores manifestações de fé geralmente ocorrem quando somos diretamente atingidos pela dor. São nesses momentos difíceis que passamos a buscar a Deus com mais intensidade – o que também revelará se confiamos ou não na providência divina. Mas é quando nos deparamos com a dor alheia que temos a chance de exercitar o verdadeiro amor, o qual se concretiza na compaixão pelo próximo, levando-nos a socorrer aos que precisam de ajuda.

Suponho que não haveria fé e amor neste mundo se não houvesse também o sofrimento, que os promove por toda parte. Se não houvesse sofrimento seríamos todos indiferentes ao próximo e descrentes em Deus, pois não necessitaríamos buscá-lo. Seríamos também insuportavelmente arrogantes e soberbos, julgando sermos grande coisa por não conhecermos qualquer aflição. Tudo e todos perderiam seu valor, pois nunca saberíamos o que é a dor de uma perda.[6]

Como se vê, o sofrimento não é de todo mal. Porém, em alguns casos, o sofrimento parece mesmo não fazer o menor sentido e jamais conseguiremos entender plenamente o seu propósito. Resta-nos apenas confiar em Deus – algo que não deveria nos surpreender e nem mesmo incomodar. Ora, se soubéssemos de tudo, nós é que seríamos Deus e não apenas homens.

Porém, se pudéssemos ver além de nossas limitações humanas e temporais, perceberíamos que todo sofrimento sempre resultará em algo bom e melhor; compreenderíamos que toda dor pela qual passamos foi terminantemente necessária para sermos edificados e fortalecidos; reconheceríamos o quanto Deus nos ama, a ponto de sofrer juntamente conosco, se fazendo um homem experimentado em dores, na pessoa do seu filho, Jesus.

Notas


[1] Diferença entre ateus e agnósticos: ateus negam categoricamente que possa existir um deus; agnósticos dizem que não há como alguém saber se Deus existe ou não.

[2] Referência ao livro de Jó, personagem bíblico que num só dia perdeu todos os seus bens e também todos os filhos. Três amigos tentaram consolá-lo, buscando justificativas para sua dor, mas tudo quanto disseram foi repreendido por Deus. Confira em Jó 2:11-13, 4:1, 42:7.

[3] Por exemplo, questionar se Deus existe foi o compreensível desabafo do pai do cantor sertanejo Cristiano Araújo, cuja carreira foi abruptamente interrompida num acidente de carro.

[4] Essa discussão é tecnicamente chamada de Teodicéia, um termo que se refere a resolver a seguinte questão: como pode haver sofrimento no mundo se Deus é amor e tem todo o poder? Embora esse termo tenha surgido somente a partir do século XVII, o problema já havia sido apresentado muito antes, há cerca de 2.500 anos, pelo filósofo grego Epícuro.

[5] Uma das parábolas mais famosas de Jesus Cristo, registrada em Lucas 10:25-37.

[6] Coincidência ou não, na semana em que escrevi esse texto tornei a assistir, pela enésima vez, ao documentário “Estou Vivo – O milagre nos Andes”, que conta como 16 jovens conseguiram sobreviver por 70 dias na cordilheira andina, após a queda do avião em que estavam. Dois deles, Nando Parrado e Roberto Canessa, precisaram caminhar na neve por exaustivos 60 quilômetros, atravessando as montanhas, até conseguirem ajuda. Considero inteiramente apropriado, como complemento desse texto, parte do depoimento que eles deram neste documentário, revelando as lições que aprenderam com todo aquele sofrimento:

“Percebi que precisamos de coisas simples para sermos felizes. E como exigimos mais do que precisamos na vida!” - Roberto Canessa

“Aprecio o fato incrível de estar vivo, todo dia, a cada respiração... A vida é mais simples do que parece. Para mim o amor é a coisa mais importante do mundo. O amor por nossas famílias nos mantém vivos.” - Nando Parrado

Você pode conferir esse incrível documentário clicando aqui.

Alan Capriles

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