27 janeiro 2016

PROSPERANDO SEM A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE

Como manter uma igreja sem enganar os fiéis


Por Alan Capriles

Desta vez meu artigo será bastante pessoal e não há como ser de outra forma. Trata-se da minha resposta a uma carta que recebi por e-mail e que me deixou bastante comovido. Pedi autorização à remetente para que eu pudesse respondê-la por aqui, em meu blog, a fim de ajudar outros pastores que talvez estejam enfrentando a mesma situação.

“Olá, pastor Alan! Eu e meu marido fomos por 20 anos da Igreja “X” onde ele foi Pastor e por motivo de estarmos cansados de tanta cobrança financeira foi que saímos. Já estava fazendo mal para a saúde física e espiritual dele! Resumindo: saímos faz 5 meses e, como ele ama pregar e salvar as pessoas, decidiu abrir uma igreja, mas nossa maior luta é manter ela aberta, pagar o aluguel e as despesas nossas e da igreja! Pastor Alan, acompanhei seus posts e gostaria de pedir esta direção para o senhor, de como o senhor faz para manter a igreja sem a teologia da prosperidade, campanhas e tudo mais. Estou vendo esta dificuldade no meu marido; afinal, ele ficou 20 anos e não tem como sair tão cedo! Por favor, nos oriente neste caso. Como vamos fazer para pedir a contribuição das pessoas sem apelar pra estas coisas? Pois vejo que quando pedimos para as pessoas dar por amor elas não dão nada, mas se você lança um propósito ou dízimo, aí algumas dão, mas não está dando pra arcar com as despesas! Por favor, gostaria da sua ajuda pra dizer como é feita a contribuição dos fiéis aí e com que argumentos.”

A pessoa que me escreveu, a qual eu não conheço, certamente deve saber um pouco da minha história pastoral. Talvez tenha sido por meio de algumas pregações e artigos, onde deixo transparecer meu “estranho” modo de pastorear. Na verdade, não sou eu que estou contrariando a maioria das igrejas de hoje em dia, mas são muitos pastores que estão na contramão do que Jesus ensinou. Se isso for mesmo um fenômeno recente, imagino que se eu pastoreasse no século 19 não haveria nada de estranho em minhas posições.

Mesmo sendo breve, a carta que recebi nos revela uma sociedade cada vez mais consumista e individualista, onde muitos pastores têm caído na tentação de atrair esse público com a promessa de bens materiais. Por isso, parece mentira que alguém consiga manter uma igreja apenas com o evangelho de Cristo. Sim, porque o verdadeiro evangelho de Cristo nada tem a ver com ganância e avareza. Muito pelo contrário, enquanto muitos pastores hoje ensinam como acumular bens materiais, o Senhor nos ordenou a repartir o que temos com os pobres. Aos olhos de Deus, rico não é aquele que mais acumula e sim o que sempre compartilha.

Eu poderia comprovar isso através de muitos versículos bíblicos, mas já o fiz em textos anteriores, tais como “Onde está o erro na teologia da prosperidade” - um artigo que não deixa margem para contestação. Noutro post, mais antigo, relatei sobre um pastor que me convidou para pregar numa campanha de sua igreja, orientando-me a que ensinasse o povo a conquistar seu carro zero e sua casa própria. Ora, ele não conversava comigo há bastante tempo e não sabia que eu havia mudado, isto é, me convertido ao verdadeiro evangelho. No culto da referida campanha iniciei a pregação com a seguinte frase: “Quem veio aqui hoje para buscar a Deus por causa de uma casa própria, ou de um carro zero, ou mesmo de qualquer outro bem deste mundo está muito enganado com Jesus e o seu evangelho. Muito enganado!” O restante da pregação, bem como o final dessa história, pode ser lido no artigo intitulado “Quebra da maldição financeira” onde também apresento diversos versículos que contrariam a pregação gananciosa de hoje em dia.

Provavelmente, foi através desses textos que a irmã do e-mail soube que pastoreio uma igreja que prospera sem a teologia da prosperidade. Sei que não sou o único, mas nossa igreja é uma das denominações que comprova ser possível permanecer fiel a Cristo e prosperar frente ao desamor e avareza deste século. Nossa prosperidade não é a riqueza material, pois não é isso que almejamos, mas sim o nosso relacionamento com Deus por meio de Jesus Cristo, que nos enche de paz, alegria e amor ao próximo. 

A partir de agora compartilho minha resposta, na esperança de ajudar também a outros pastores que estejam dispostos a abandonar a maligna teologia da prosperidade e experimentar como Deus abençoa os que permanecem fiéis à sua Palavra. Segue o que respondi:

Prezada irmã em Cristo,

Apesar de objetiva, percebo que sua carta me dá oportunidade para comentar diversos pontos interessantes. Sendo assim, vamos por partes:

“Eu e meu marido fomos por 20 anos da Igreja “X” onde ele foi Pastor e por motivo de estarmos cansados de tanta cobrança financeira foi que saímos. Já estava fazendo mal para a saúde física e espiritual dele!”

Não duvido nem por um segundo da sinceridade que você e seu marido tiveram em servir a Cristo por mais de vinte anos na igreja que você mencionou. Por outro lado, também não acredito nem por um segundo que a pressão por ofertas mais altas possa caracterizar uma verdadeira igreja cristã. Isso me preocupa muito, pois talvez vocês não estivessem numa igreja de verdade, mas numa empresa com fachada de igreja. E talvez não tenham conhecido o genuíno evangelho da graça de Cristo, mas uma religião que barganha com Deus. Por outro lado, tenho a esperança de que vocês não tenham saído de lá somente por causa do estresse provocado por “tanta cobrança financeira” e sim porque tenham despertado espiritualmente, percebendo que tal opressão nada tem a ver com o genuíno evangelho. Eu também tive o meu despertar e foi a partir de então que decidi romper por completo com esse sistema. Lembro-me do dia em que sentei ao lado de minha esposa e desabafei com ela: “Ou passamos a viver segundo o evangelho, ou prefiro deixar o pastorado.” Como sempre, ela me apoiou a fazer o que é certo, e corajosamente fomos deixando as práticas contrárias ao que Cristo ensinou. Como pastor titular tive a vantagem de não precisar mudar de igreja - do contrário eu seria mais um desigrejado, pois eu não teria pra onde ir.[1] Por outro lado, precisei começar um longo processo (que talvez nunca termine) de ensinar a meus irmãos o que Cristo realmente nos ordenou. Parte do fruto literário desta época foram textos que acabaram gerando polêmica na internet, tais como “Evento ou é vento?” e “As doze razões para eliminar o entretenimento em sua igreja”. De fato, quando escrevi esses textos, nós já havíamos abolido qualquer tipo de apresentação durante os cultos, que ficaram completamente voltados para a Palavra, a oração e o louvor de adoração. E, graças a Deus, assim continuamos até hoje. Ou seja, passamos a não mais atrair pessoas que estavam buscando na igreja uma distração, mas sim aquelas que desejavam uma verdadeira conversão. Descobri pela prática que só existem dois tipos de igreja: a verdadeira, que é centrada em Cristo e seu evangelho; e a falsa igreja, que procura agradar ao homem e realizar sua vontade. O pastor que tenta fazer as duas coisas comete um grande erro, assemelhando-se aos crentes mornos de Laodicéia, que dão náuseas no Senhor (Ap 3:15-17). Não é possível ficar em cima do muro. Vocês precisam escolher de que lado estão, se do evangelho ou do sistema gospel. Se escolherem o evangelho, precisam  deixar bem claro para os irmãos que a igreja pastoreada por vocês é muito diferente de onde vocês saíram. Não queiram ser mais uma variação do mesmo tema, pois não precisamos de mais igrejas evangélicas, mas sim de mais evangelho nas igrejas.

“Resumindo: saímos faz 5 meses e, como ele ama pregar e salvar as pessoas, decidiu abrir uma igreja, mas nossa maior luta é manter ela aberta, pagar o aluguel e as despesas nossas e da igreja!”

Sei que talvez você não tenha querido dizer isso, pois não cabe a qualquer um de nós decisão de “abrir uma igreja”. Quem deve decidir isso é Cristo, o Senhor da igreja. Somos apenas seus mordomos, nada mais. O que podemos, e devemos, é decidir obedecê-lo. Mas, supondo que realmente Deus tenha lhes confirmado que vocês formassem um novo ministério, tudo que posso lhes dizer é isto: confiem em Deus, pois a porta que Ele abre ninguém fecha, e a que Ele fecha ninguém abre. Você disse também que seu marido “ama pregar e salvar as pessoas” e isso é ótimo! Porém, fico me perguntando se ele continua pregando o que ouviu por 20 anos, ou se fez uma releitura dos evangelhos e, assim como aconteceu comigo, percebeu que precisava reformar sua teologia. Não me refiro a tornar-se calvinista ou coisa parecida, mas a se estudar o que os apóstolos pregavam (que é também o que o próprio Cristo pregava) a fim de se pregar com fidelidade as escrituras. O resultado de minha própria análise do evangelismo de Jesus e dos apóstolos foi publicado em 2014 no e-book intitulado “Manual prático para evangelização – o método de Jesus e dos apóstolos.” Humildemente, recomendo sua leitura, que está disponível gratuitamente em nosso site.

“Pastor Alan, acompanhei seus posts e gostaria de pedir esta direção para o senhor, de como o senhor faz para manter a igreja sem a teologia da prosperidade, campanhas e tudo mais. Estou vendo esta dificuldade no meu marido; afinal, ele ficou 20 anos e não tem como sair tão cedo!”

A resposta é simples, mas acho que não há como eu dizer isso sem correr o risco de ofender algum leitor. Por outro lado, a verdade precisa ser dita: Onde se prega teologia da prosperidade e se fazem campanhas pra se conseguir isso e aquilo não há ovelhas, mas bodes. Portanto, a questão se resume a isso: Vocês querem pastorear ovelhas, ou engordar bodes? Em outras palavras, vocês querem orientar pessoas a um relacionamento sadio com Deus e o próximo, ou alimentar a ganância dos que desejam se aproveitar de Deus? É simples assim! O tipo de pessoa que fará parte de sua igreja será determinado pelo tipo de mensagem que for pregada. Meu conselho é que vocês sejam radicais como eu fui, abolindo completamente (e agora mesmo) todas as campanhas e as pregações que promovem a ganância. Preguem o arrependimento de pecados e a sincera conversão a Cristo. Acredite no que vou lhe dizer: há milhares (talvez milhões) de pessoas em busca de uma igreja que ainda pregue o genuíno evangelho. São pessoas que não aguentam mais tanta conversa fiada, tanta pregação mundana, tanto amor ao dinheiro. São pessoas que querem Deus, que precisam conhecer o verdadeiro Jesus! Sejam fiéis a Cristo, sejam simples e humildes como Jesus, preguem seu evangelho, divulguem a verdadeira mensagem da salvação, e o Senhor mesmo conduzirá suas ovelhas ao aprisco.

“Por favor, nos oriente neste caso. Como vamos fazer para pedir a contribuição das pessoas sem apelar pra estas coisas? Pois vejo que quando pedimos para as pessoas dar por amor elas não dão nada, mas se você lança um propósito ou dízimo, aí algumas dão, mas não está dando pra arcar com as despesas! Por favor, gostaria da sua ajuda pra dizer como é feita a contribuição dos fiéis aí e com que argumentos.”

Meu conselho é que vocês sejam sinceros e transparentes. Digam claramente aos irmãos que Deus não precisa do dinheiro deles, mas que é um privilégio que o Senhor nos convide a fazer parte de Sua obra. Procurem sempre divulgar algo que foi recentemente adquirido com o valor das ofertas, ou que ainda está sendo pago através da fidelidade deles. Comecem (ou continuem) a ajudar missionários e pessoas carentes. Façam os irmãos perceberem que suas ofertas abençoarão essas vidas. Em nossa igreja não pedimos mais mantimentos (campanha do quilo), mas anunciamos os produtos que precisamos comprar por atacado para que nada falte nas cestas básicas que distribuímos. Assim, nossos irmãos são motivados a contribuir ainda mais, a fim de que possamos abastecer a despensa da igreja e ajudar as famílias carentes. Como pastores, precisamos despertar nos irmãos a alegria de contribuir, de ajudar o próximo. Não há outra forma de se combater a falta de amor, senão com demonstrações de amor. Se nós, como pastores, nos importarmos realmente com a dor do próximo, toda a igreja também se importará. Se os irmãos perceberem o quanto sua igreja faz a diferença na comunidade, todos eles desejarão contribuir cada vez mais para o crescimento desse ministério. Tenho mais algumas dicas. Jamais troquem a oferta por qualquer “patuá”, ou seja lá o que for. Nada de brindes para quem der a oferta acima de determinado valor, ou envelope de ofertas em que se obrigue a escrever o nome, ou que tenha espaço para um pedido de oração. Uma coisa não tem nada a ver com outra. O valor da oferta deve ser sigiloso, a fim de que o ofertante possa contribuir segundo propôs em seu coração. Outra coisa (não estou dizendo que vocês devam fazer isso, mas...) em nossa igreja não vendemos nada na cantina. Além de constranger os irmãos que não podem comprar um lanche, a cantina compete com as ofertas, pois há pessoas que deixam de ofertar, ou que ofertam menos, para que depois do culto possam comprar na cantina. Optamos por oferecer gratuitamente cafezinho ou refresco nesse espaço e compartilhamos com todos qualquer doce ou salgado que os irmãos tenham levado. Resumindo, não vendemos nada na igreja, nem trocamos oferta por qualquer coisa, mas ensinamos que ofertar é um ato de amor, um ato que será honrado por Deus. Quanto à questão do dízimo, escrevi recentemente um artigo sobre o assunto, intitulado “As controvérsias cristãs sobre o dízimo – e a destinação correta das ofertas”.

E, finalmente, procurem pregar mais nos textos do Novo Testamento. Não estou desprezando o Antigo Testamento, mas lembrando que a missão da igreja é formar discípulos de Cristo, ensinando-os a obedecer tudo o que ele nos ordenou (Cfr. Mt 28:20). Na maioria das igreja se prega mais sobre Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, Davi, Salomão, Elias e Eliseu do que sobre os ensinamentos de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas foi minha insistência em pregar nesses ensinamentos que transformou o coração dos que congregam em nossa igreja, fazendo-os, entre outras coisas, ofertar por amor e não mais por interesse.

Espero ter ajudado a irmã de alguma forma, colocando-me a disposição para responder a novos questionamentos, tanto seus quanto de outros leitores. E já que seu marido é pastor e foi você quem decidiu escrever para mim, quero terminar com uma frase que minha esposa costuma repetir de vez em quando, e que me deixa emocionado, como também agora estou: “Nossa igreja é um milagre, um grande milagre...” E quem nos conhece pessoalmente sabe que é mesmo.[2]

A Deus toda a glória!

Alan Capriles

Notas

[1] Revelo minha posição sobre os desigrejados no seguinte texto e vídeo:
"Igrejados, desigrejados e o que realmente importa"
"Há salvação para os desigrejados?"

[2] Minha esposa costuma dizer isso quando comentamos sobre a assistência que, mesmo sendo uma igreja pequena, conseguimos prestar mensalmente a duas instituições, três casais de missionários (residentes no Níger, Indonésia e Moçambique) e diversas famílias carentes da comunidade e além. Não temos explicação pra isso, a não ser a providência de Deus.


20 novembro 2015

O SINAL MAIS EVIDENTE DO FIM


Por Alan Capriles

Quando os apóstolos perguntaram a Jesus qual o sinal que antecederia sua vinda e o final desta era, sua resposta foi apresentar não apenas um, mas diversos sinais. Nação se levantaria contra nação e reino contra reino; haveria um aumento de grandes terremotos, fome e epidemias em vários lugares; veríamos coisas espantosas e também grandes sinais do céu. Tudo isso, no entanto, seria apenas o princípio das dores. Ainda mais perto do fim, a iniquidade aumentaria e o amor se esfriaria de quase todos. Ao mesmo tempo, o número de falsos profetas cresceria, bem como de escândalos, ódio e traições na igreja. Logo em seguida, uma grande perseguição contra os verdadeiros discípulos, que seriam odiados de todas as nações por manterem sua fidelidade a Cristo. E, finalmente, os poderes dos céus abalados (alterações climáticas?), as nações angustiadas e perplexas por causa do bramido do mar (aumento do nível dos oceanos?) e da agitação das ondas (tsunamis?) e muitos homens desmaiando de terror por causa das coisas que sobrevirão ao mundo.[1]

Praticamente tudo quanto o Senhor predisse como evidência da sua vinda e do fim dos tempos já tem ocorrido. De fato, todos os sinais parecem piscar ao mesmo tempo e cada vez mais intensamente! Mas, a despeito disso, notamos uma quase completa distração dos crentes em relação ao tempo presente. Ao invés de orarem mais, oram menos; de evangelizar mais, evangelizam menos; de se santificar mais, se contaminam com o mundo. Como pode ser isso?

A explicação é, no mínimo, curiosa: Essa distração da igreja, teologicamente chamada de apostasia, vem a ser também um dos sinais da iminência do fim. Na verdade, a apostasia é o penúltimo sinal antes da vinda do Senhor – ou mesmo o último, dependendo da linha escatológica que se queira acreditar.[2]

A revelação se encontra na Segunda Epístola aos Tessalonicenses, onde Paulo nos esclarece que o retorno de Cristo “não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem da iniquidade, o filho da perdição” (2Ts 2:3). Sendo assim, o tempo da apostasia e o surgimento do anticristo são apontados como os dois últimos sinais que antecedem a “vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e a nossa reunião com ele”. E, como vimos, todos os outros sinais já estão acontecendo e mesmo assim a igreja atual parece distraída e não tem se preparado para o encontro iminente com o Noivo! Porém, irônica e tragicamente, isso não poderia ser de outra forma, pois caso a igreja estivesse apercebida do tempo final ela não estaria em apostasia e, se não estivesse em apostasia, não estaríamos no tempo do fim!

Portanto, o retorno de Cristo deve estar mais próximo do que imaginamos, pois o tempo da apostasia chegou! Todas as profecias bíblicas acerca desse período estão se cumprindo. Como não poderia deixar de ser, essa derradeira e lamentável fase também foi prevista pelo Senhor. Entre os sinais do sermão escatológico de Jesus, temos alguns que concernem à igreja, tais como: o surgimento de muitos falsos profetas, o aumento dos escândalos, bem como do ódio e da traição entre os irmãos – indicativos claros de que a igreja não estaria nada bem na sua fase final sobre a terra.

Essa triste condição da igreja no tempo do fim também se revela em muitas outras passagens bíblicas. Aliás, algumas parecem até sugerir que precisamente por causa disso retornará o Senhor, ou seja, porque a igreja teria deixado de cumprir sua missão neste mundo.[3] Se relacionarmos esses textos proféticos iremos nos deparamos com descrições que caracterizam grande parte das igrejas atuais. A seguir analisaremos algumas dessas características:

Deturpação da doutrina de Cristo
“Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos;  e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas.” (2 Timóteo 4:3-4)
Não há maior deturpação da doutrina de Cristo que a famigerada Teologia da Prosperidade, a qual se espalhou como câncer pelas igrejas, atraindo pessoas pela cobiça de bens materiais. O tenebroso tempo revelado por Paulo a Timóteo lamentavelmente chegou.
Pouca oração como evidência de fé
“Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los? Digo-vos que, depressa, lhes fará justiça. Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?” (Lucas 18:7-8)
Reuniões de oração quase já não existem e, quando ocorrem, pouquíssimos crentes comparecem.  E, na passagem acima, o Senhor aponta claramente para a oração como a maior evidência de fé. Sua pergunta, além de ser irônica, sugere que, por ocasião de sua vinda, poucos haverá que ainda clamem a Deus dia e noite. Esse desprezo pela oração é uma descrição exata do que vemos acontecer em nossos dias.
Insubmissão a Cristo como Senhor
“Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição.” (2 Pedro 2:1)
Renegar o Soberano Senhor significa rejeitar o governo de Cristo sobre nossas vidas. Muitos não percebem, mas os ensinamentos de Cristo deixaram de ser pregados na maioria das igrejas. Para se atender à pauta humanista – como, por exemplo, a Teologia da Prosperidade – as mensagens geralmente são baseadas em textos do Antigo Testamento, evitando-se falar em arrependimento de pecados, renúncia de si mesmo, perdão ao próximo, atos de misericórdia, humildade sincera e santificação total – práticas ordenadas pelo Senhor. Dessa forma, Cristo deixa de ser soberano e a vontade das pessoas é o que impera. Mas a verdade é que Jesus não será o Salvador de quem o despreza como Senhor.
Líderes libertinos
“E muitos seguirão as suas práticas libertinas, e, por causa deles, será infamado o caminho da verdade; [...] Esses tais são como fonte sem água, como névoas impelidas por temporal. Para eles está reservada a negridão das trevas; porquanto, proferindo palavras jactanciosas de vaidade, engodam com paixões carnais, por suas libertinagens, aqueles que estavam prestes a fugir dos que andam no erro, prometendo-lhes liberdade, quando eles mesmos são escravos da corrupção, pois aquele que é vencido fica escravo do vencedor.” (2 Pedro 2:2,17-19)
É assustador o número de líderes cristãos que caíram em libertinagem nos últimos anos. Ainda mais assustador é o fato de que muitos desses, além de não se arrependeram, continuam pregando e distorcendo a palavra. Em seus ensinamentos deturpados, transformam graça em desgraça e confundem liberdade com libertinagem, a fim de justificar seus próprios pecados. E, tal como foi profetizado, muitos têm seguido suas práticas libertinas, ajudando a difamar ainda mais o caminho da verdade.
Comércio da fé
“... também, movidos por avareza, farão comércio de vós, com palavras fictícias; para eles o juízo lavrado há longo tempo não tarda, e a sua destruição não dorme.” (2 Pedro 2:3)
Muitas igrejas hoje mais se parecem com empresas; seus pastores, com homens de negócios; seus membros, com clientes; seus cultos, com espetáculos rentáveis. A visão de reino parece haver se perdido, pois muitas igrejas passaram a concorrer umas com as outras, como se fossem lojas comerciais. Nestas, os milagres são anunciados como se fossem mercadoria em promoção e os dias de culto são variados para se atender ao gosto do "freguês". Isso pode parecer exagero, mas o fato é que a realidade se revela ainda muito pior! Aqueles cambistas que Jesus expulsou do templo pareceriam santos se comparados a muitos (ou todos?) cantores gospel e pregadores profissionais de hoje em dia. São verdadeiros mercenários: quem pagar mais, leva! E multidões de crentes aplaudem esses canalhas, que se enriquecem às custas de sua ingenuidade - ou seria cumplicidade? Enfim, todo esse comércio da fé também foi profetizado, sendo mais um claro sinal de que o juízo de Deus não tardará.
Crentes mundanos
“Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes.”
(2 Timóteo 3:1-5)

No texto acima Paulo nos dá uma longa descrição de como seriam os crentes nos últimos dias. Como se vê, a situação da igreja no tempo do fim foi profetizada e não é das melhores. Agora julgue por si mesmo se tais características descrevem ou não a maioria daqueles que hoje se dizem evangélicos...

Crentes que promovem divisões
“Vós, porém, amados, lembrai-vos das palavras anteriormente proferidas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo, os quais vos diziam: No último tempo haverá escarnecedores andando segundo as suas ímpias paixões. São estes os que promovem divisões, sensuais, que não têm o Espírito.”
(Judas 1:17-19)

A quantidade absurdamente exagerada de denominações evangélicas é uma clara demonstração de que chegamos ao profetizado “último tempo”. A maioria dessas novas igrejas provém de lamentáveis e desnecessárias divisões, as quais poderiam ser evitadas com oração, humildade, diálogo e perdão. Paralelamente a isso, há os que deixam a congregação fazendo de tudo para levar outros com eles – não para iniciar uma nova igreja, mas apenas pelo prazer mórbido de tirá-los da comunhão dos santos. Isso tem ocorrido com tanta frequência que o número de afastados já supera o de membros que compõem igreja.[4] Claro, há também o caso das igrejas que se desviaram da fé, obrigando crentes fiéis a deixar sua antiga congregação. Neste último caso, os crentes que promovem divisões são os próprios pastores, na medida em que tentam impor heresias à igreja, tais como a Teologia da Prosperidade, o Liberalismo Teológico, ou movimentos e métodos de crescimento contrários à Palavra.

Multidões de crentes enganados
“... levantar-se-ão muitos falsos profetas e enganarão a muitos.”
(Mateus 24:11)

Retornando ao sermão escatológico de Jesus, temos a previsão de que muitos seriam enganados por falsos profetas, ou seja, por pessoas que pregam falsamente em nome de Deus. O rápido crescimento de igrejas lideradas por pastores que deturpam o evangelho é mais um sinal claro de que vivemos na iminência do fim.

Diante de tantas evidências, não é exagero concluirmos que o maior sinal de que o Senhor está às portas é a própria condição atual da igreja. Isso acontece bem diante dos nossos olhos, mas muitos não estão percebendo! Até mesmo os pastores mais famosos, que deveriam aproveitar a fama para alertar a igreja e conclamar os crentes ao arrependimento e oração, ao invés disso parecem distraídos e preocupados em promover a si mesmos, bem como aos congressos rentáveis dos quais participam. Para piorar, ainda escandalizam o evangelho com vídeos e textos onde se acusam mutuamente, cumprindo a profecia de que haveria ódio entre os cristãos no tempo do fim.

É muito importante compreendermos que o Senhor não nos revelou esses sinais para que ficássemos assustados. Embora o susto seja inevitável para quem acabou de acordar, esse primeiro momento deve ser superado pela compreensão do que devemos fazer. Em primeiro lugar, não sermos parte do problema, o que significa não nos enquadrarmos em qualquer uma das características relacionadas acima. Apesar de vivermos no tempo da apostasia, isso não significa que devamos viver em apostasia. Ainda que a maioria tenha se apartado da fé, jamais queiramos nos parecer com eles! Em segundo lugar, redobrarmos a vigilância e a oração, para que não continuemos distraídos e sejamos mal influenciados pelo tempo presente, mas vivamos cheios do Espírito Santo. E, finalmente, permanecermos fiéis a Cristo, perseverarmos na prática do que o Senhor nos ensinou – especialmente no que concerne ao amor ao próximo. Somente se vivermos o verdadeiro evangelho é que seremos ouvidos em nossa evangelização.

E não percamos mais tempo com distrações. Perto está o Senhor!

Alan Capriles

Notas

[1] Para uma análise completa do sermão escatológico de Jesus, confira algumas lições do estudo chamado Perseverando até o Fim.

[2] Uma vertente escatológica defende que o anticristo surgirá somente após o arrebatamento da igreja e, sendo assim, nada mais faltaria ocorrer para o nosso encontro com o Senhor nos ares. Particularmente, creio que o arrebatamento acontecerá somente após o surgimento do anticristo, como parece indicar o referido texto na Segunda Epístola aos Tessalonicenses. Por essa razão somos ensinados a identificar o anticristo e alertados de que devemos rejeitar o seu governo e a sua marca (Ap 13:16-18). De qualquer forma, o retorno de Cristo é iminente, pois o cenário está pronto para um governo único mundial. Falta somente ocorrer uma tragédia global que convença a humanidade de que não há outra saída para a paz e a estabilidade econômica, senão um governo único, uma única moeda e um só líder mundial.

[3] Sempre há exceções, ou seja, crentes que se mantêm fiéis a Cristo e seus ensinamentos, mas parece tratar-se de uma minoria.

[4] Biblicamente falando, igreja é sempre a comunhão dos cristãos e não o local onde estes se reúnem. Portanto, ao falar de igreja não me refiro a templos, ou denominações, mas a irmãos em Cristo que se reúnem regularmente, seja onde for. 


28 setembro 2015

AS CONTROVÉRSIAS CRISTÃS SOBRE O DÍZIMO

E a correta destinação das ofertas


Por Alan Capriles

Qualquer pessoa que pesquise na internet sobre a questão do dízimo irá se deparar com diversas e contraditórias posições a respeito do assunto. Algo extremamente confuso e perigoso para quem não sabe como fazer uma boa investigação online.[1] Muitos acreditam no primeiro "estudo" encontrado, ou no primeiro vídeo assistido, sem compará-lo com qualquer interpretação contrária. Outros prosseguem na pesquisa, mas acabam abraçando a posição teológica que mais lhes agrada, sem fazer um exame sério das Escrituras. Também há quem busque a verdade com a sua própria "verdade" preconcebida. Esse tipo de atitude, muito comum na internet,  ignora qualquer opinião divergente, mas prossegue na busca até encontrar apoio para si mesmo. E, como disse o Senhor: "quem procura... acha!"

Antes de deixar o meu parecer, apresento abaixo alguns vídeos com diferentes posições a respeito da questão do dízimo. Começando pela opinião mais tradicional, defendida nos dois primeiros vídeos - a de que o dízimo continuaria valendo para hoje - até a posição mais controvertida, ou seja, a de que o dízimo não faz parte da nova aliança. Entre os extremos, dois vídeos de pastores que são da mesma denominação cristã, a Presbiteriana do Brasil, mas que divergem quanto ao assunto. Para Hernandes Dias Lopes, o dízimo é mandamento de Deus; para Augustus Nicodemus, uma "tradição da igreja de Cristo", mas que deve ser mantido, pois segundo ele, "sempre funcionou". Ora, isso não seria pragmatismo?! Porém, o que mais me chama a atenção nestes quatro vídeos é que todos se dizem pastores reformados. Mas, como você verá a seguir, parece que alguns se reformaram mais e outros menos:

Posição de Walter McAlister, bispo primaz da aliança das Igrejas Cristãs de Nova Vida



Posição de Hernandes Dias Lopes, pastor na Igreja Presbiteriana do Brasil



Posição de Augustus Nicodemus, pastor na Igreja Presbiteriana do Brasil



Posição de Tim Conway, pastor na Graça Church, mesma igreja de Paul Washer



Espero que você tenha assistido a todos os vídeos, especialmente aos dois últimos, nos quais Nicodemus reconhece que o dízimo "não é obrigatório, mas um referencial" e Tim Conway chama de mito a ideia de que o dízimo seria padrão do donativo na igreja cristã do Novo Testamento. O fato, admitido por todos,  é que apenas uma vez o dízimo é mencionado no Novo Testamento, na passagem onde o Senhor critica os fariseus que davam o dízimo de tudo, mas omitiam o principal da Lei (Mateus 23:23 - o mesmo versículo também em Lc 11:42). O Senhor conclui com a seguinte orientação: "Façam isso, sem omitir aquilo". Como se percebe, Cristo não condenou o dízimo, mas parece tê-lo incentivado. Mas será que foi mesmo? E, caso tenha sido, o Senhor ainda o incentivaria hoje?

Antes de uma conclusão precipitada, consideremos algumas questões:
  • Em primeiro lugar, o dízimo destinava-se à manutenção do templo de Herodes. Ora, quando Jesus falou sobre o dízimo esse templo ainda estava em pleno funcionamento, mas sabemos que o mesmo foi completamente destruído no ano 70 d.C. Se o dízimo tinha um propósito que não existe mais, para onde os cristãos de hoje deveriam destiná-lo? 
  • Além disso, por que o livro de Atos e as epístolas nada falam sobre o assunto? Lembre-se de que a maioria das epístolas foi escrita para gentios (não judeus). Com certeza eles nada sabiam sobre dízimo. Sendo assim, por que nenhuma epístola trás orientações a respeito do assunto?
  • E, finalmente, quando a igreja se reúne para normatizar a conduta dos cristãos gentios (Atos 15) a questão do dízimo nem sequer entra na pauta. Não seria essa uma excelente oportunidade para se ensinar que os gentios deveriam também pagar o dízimo? Por que os apóstolos se calaram a esse respeito?
A resposta para todas as perguntas acima é simples e óbvia: o dízimo não era praticado pela igreja apostólica. Ao menos, e com toda certeza, não pela igreja formada por gentios. Pode até ser que os primeiros judeus convertidos a Cristo tenham continuado a pagar o dízimo ao Templo, mas apenas enquanto ainda existia um templo. Quanto aos gentios, muito provavelmente eles nem sequer foram ensinados a respeito do dízimo, visto que tratava-se de uma questão concernente ao templo judeu e seus sacerdotes.

Por outro lado, as ofertas eram incentivadas pelos apóstolos e praticadas pelos verdadeiros cristãos. E quanto cada um deveria ofertar? Ora, o máximo que fosse possível! Isso fica evidente em certas passagens do Novo Testamento, tais como na Segunda Carta de Paulo aos Coríntios, capítulos 8 e 9. Sendo assim, o valor sempre superava os dez por cento do dízimo, como vemos no exemplo de Barnabé, que deixou aos pés dos apóstolos toda a quantia do terreno que vendeu (Atos 4:37).

A ênfase no dízimo se torna um limitador na arrecadação da igreja. Desculpe-me a comparação, mas o dízimo acaba sendo um tiro pela culatra. O fato é que, após a entrega do dízimo, que geralmente ocorre uma vez por mês, o valor de cada oferta costuma não ser maior que o de uma esmola. Muitos cristãos não tem consciência de que devem ofertar sempre o melhor que puderem, mas pensam que seu dever é limitado a dez por cento do que recebem. Cumpri minha obrigação e o que passar disso será lucro, argumentam.

Se o dízimo não era praticado pela igreja bíblica, por que as igrejas de hoje o praticam?

Identifico três principais motivos:

  • Falta de fé por parte da liderança: Existe o temor de que, se a verdade for descoberta, os irmãos ofertarão menos do que deveriam. Ou seja, menos de dez por cento. De fato, numa época materialista e de tanto egocentrismo é bem provável que isso realmente aconteça.
  • Avareza por parte da igreja: Pela mesma razão do ponto anterior é muito provável que a maioria prefira continuar dando somente dez por cento. Além do mais, o dízimo trás a promessa de que se abrirão as janelas do céu e é nisso que o povo quer acreditar. Ou seja, os crentes dão, mas apenas pelo interesse de ganhar algo em troca e não simplesmente pelo prazer de ajudar.
  • O mau uso das finanças: Sem dúvida, esse é o maior dos problemas. Quando a arrecadação de uma igreja é mal empregada por seus dirigentes isso pode gerar insatisfação, desmotivando a entrega de maiores ofertas por parte dos irmãos. Isto é, refiro-me a irmãos que realmente conheçam a Palavra - e não a falsos convertidos, que gostam de ser enganados. Prosseguirei comentado melhor esse último ponto.

Primeiramente, pergunto a você:
- Como eram utilizadas as ofertas na época em que Barnabé se sentiu motivado a vender seu terreno e doar toda a quantia para a igreja ? 

Não me admira se você disser que não sabe, pois quase ninguém prega ou ensina sobre isso. Mas, vejamos o que nos revela o livro de Atos dos Apóstolos:

"Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido e o depositavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha. Então, José, cognominado, pelos apóstolos, Barnabé (que, traduzido, é Filho da Consolação), levita, natural de Chipre, possuindo uma herdade, vendeu-a, e trouxe o preço, e o depositou aos pés dos apóstolos." (Atos 4:34-37)

Barnabé se sentiu motivado a fazer tamanha doação porque a quantia seria repartida segundo a necessidade de cada irmão. Mas de quem os apóstolos aprenderam isso? Ora, do próprio Senhor Jesus:

"Vendei o que tendes, e dai esmolas, e fazei para vós bolsas que não se envelheçam, tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão, e a traça não rói. Porque onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração." (Lucas 12:33)

Jesus não era hipócrita. O que Cristo ensinava, isso mesmo ele praticava. Ora, é sabido que o Senhor vivia da coleta de ofertas, mas o principal objetivo dessa arrecadação não era para o seu  enriquecimento. Jesus, assim como os apóstolos, vivia de forma simples e compartilhava o que recebia com os mais pobres. Por esse motivo alguns apóstolos pensaram que Judas (que era quem carregava a bolsa) havia deixado a última ceia por ordem do Senhor "para que desse alguma coisa aos pobres". (João 13:29)

Infelizmente, não vemos mais essa prática de caridade nas igrejas. Geralmente, os mais pobres são esquecidos. Alguns até sofrem preconceito, como se fossem pobres porque não tem fé, ou porque estão em pecado.[2]

Ao invés de se ajudar os irmãos mais pobres, o que temos visto é o uso das ofertas para o embelezamento do templo, para o maior conforto dos frequentadores e para o enriquecimento do pastor, bispo, ou "apóstolo". Com o agravante de que essas igrejas não ajudam irmãos que padecem no campo missionário. 

Porém o que mais me entristece é que grande parte dos que se dizem cristãos aprovam que o dinheiro seja usado dessa forma. O fato é que eles gostam disso! Recentemente eu soube que alguém teria ficado muito impressionado com o luxo de uma certa igreja e que teria dito a respeito do seu rico pastor: "Ele vive a prosperidade que prega!" - Sem se dar conta de que o pastor está rico por meio das ofertas que lhe são entregues com promessas de riqueza para quem as dá. E quem vai ficando cada vez mais rico é ele mesmo, o pastor! Mas o povo ganancioso gosta desse tipo de expectativa. Eles querem mesmo acreditar que ficarão tão ricos quanto o pastor. E por que desejam isso? Ora, porque nunca compreenderam o evangelho, jamais se converteram a Cristo. Ainda que chamem Jesus de Senhor, seus anseios e práticas revelam que na verdade são servos de Mamom![3]

E, concluindo, mais triste ainda é perceber que muitos dos que condenam o dízimo são motivados pela própria avareza. Eles não buscam a verdade, que nos orienta a dar muito além do dízimo, mas buscam uma desculpa para dar muito menos do que isso. Como se percebe, o problema não está no dízimo, mas no próprio homem, na sua hipocrisia, no seu apego aos bens materiais, na sua falta de conversão a Cristo.

Notas

[1] Confira o artigo: Fatos ou boatos - dez dicas para uma boa investigação.

[2] Confira o artigo: Onde está o erro na teologia da prosperidade.

[3] Mamom: Palavra de origem aramaica, utilizada pelo Senhor para se referir ao falso deus filisteu que personificava as riquezas. (Mateus 6:24)

Alan Capriles

09 agosto 2015

O TENEBROSO MUNDO APÓS 2015

A nova agenda da ONU e sua tirania global


Por Alan Capriles

A agenda global para os próximos 15 anos já está definida. Todos os 193 Estados-membros da Organização das Nações Unidas, inclusive o Brasil, já deram seu aval para esse acordo histórico e sem precedentes.[1] O novo texto da ONU, que se diz “do povo, pelo povo e para o povo”, (mas sobre o qual você não teve a menor participação), exercerá influência direta em nossas vidas. Ele será sancionado durante a Cúpula de Desenvolvimento Sustentável – evento que ocorrerá nos próximos dias 25 a 27 de Setembro, em Nova York. A ocasião marcará também o aniversário de 70 anos dessa Organização e contará com a presença do Papa Francisco, que discursará para mais de 150 líderes mundiais.[2] 

“Transformando Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável” é o título dessa nova agenda global.[3] Ela define 17 objetivos e 169 metas para acabar com a pobreza até 2030 e promover universalmente a prosperidade econômica, o desenvolvimento social e a proteção ambiental. Serão 15 anos, a contar de 1º de Janeiro de 2016, nos quais as nações estarão comprometidas com os termos deste pacto. O texto, que contém 29 páginas, surpreende por sua ousadia, chegando a ser descaradamente utópico. Ele prevê um mundo (o mundo todo!) livre de pobreza, fome, doença e no qual todos irão prosperar num prazo recorde de apenas uma década e meia. Mas a grande questão é: como se alcançar em 15 anos o que a humanidade não alcançou em milênios?

É nesse quesito que o texto me pareceu tenebroso. Ele reconhece a necessidade de soluções integradas para o desenvolvimento sustentável e da adoção de uma nova abordagem para alcança-lo, mas não esclarece que “nova abordagem” seria essa. O que se deixa transparecer, ao longo do texto, é que todos os países trabalharão em parceria, determinados a mobilizar todos os meios necessários para executar esta Agenda. Em outras palavras: custe o que custar.

Parece-me óbvio que o texto sugere, nas entrelinhas, aquilo que a ONU sempre almejou: a nomeação de um líder sobre todas as nações, bem como a unificação mundial da moeda, a exemplo do Euro, que não passou de uma experiência do que está por vir.[4] O propósito desta agenda não é outro, senão respaldar as bases para um futuro, mas iminente, governo global. Sem dúvida, isso será proposto nas próximas assembleias gerais da ONU.

O apelo para que tal governo seja criado é fortíssimo. Além das questões de paz e segurança, que são agravadas pelo crescente terrorismo, temos ainda o risco de um colapso econômico mundial, bem como de um provável e ameaçador caos climático – consequência do aquecimento global [5]. Tudo isso é lembrado repetidas vezes na Agenda da ONU, que ainda promete, com a sua implementação, o fim da pobreza em todas as suas formas e em todos os lugares, garantindo uma vida saudável para todos em todas as idades. Ora, quem não sonha com um mundo assim? Mascarada com essas boas intenções, a ONU tentará convencer os líderes mundiais de que não há outra alternativa, senão a escolha de alguém que conduza a humanidade por esse caminho de paz, saúde e prosperidade. 

Mas, para que isso aconteça, será necessário que primeiro ocorra algo ainda mais catastrófico que as duas grandes guerras. Algo ainda mais comovente que as bombas de Hiroshima e Nagasaki. Algo ainda mais espantoso que o 11 de Setembro. Algo que abale o mundo inteiro como a um só homem, promovendo uma unidade de propósito na aceitação de um só governo, de uma só moeda e, até mesmo, de uma só religião.[6] O que ocorrerá? Francamente, não sei. 

Mas sei que uma liderança mundial não dará certo. Pelo contrário, será catastrófica. O governo do mundo não pode recair sobre a responsabilidade de um homem, pois não há homem sobre a terra que suporte tamanha provação. Ainda que comece bem, teremos a pior das tiranias como resultado de tamanha loucura. Além do mais, para se alcançar a prosperidade, paz e segurança que a agenda da ONU promete, o controle necessitará ser absoluto e excessivamente rígido. Talvez não seja por acaso que o texto repita que “ninguém será deixado para trás”. 

O fato é que um plano global está sendo tramado e todos nós seremos diretamente afetados por ele. Não se trata de mais uma teoria da conspiração, mas de algo muito bem documentado, que está às portas e que você mesmo poderá conferir.[7]

Sendo assim, o que podemos fazer? Sugiro que, urgentemente, você faça a leitura reflexiva de outros textos, muito mais antigos e de inestimável valor. Textos que não somente predisseram tudo quanto agora testemunhamos ocorrer, mas que também nos orientam a respeito de como agir nesses últimos dias. Sim, faço menção à Bíblia![8] E aqueles que se incomodam por eu mencioná-la, apenas confirmam a descrição profética do desprezo para com Deus e sua Palavra nesse tenebroso tempo do fim. 

Notas


[1] Confira esta notícia no site da ONU, clicando aqui.

[2] Francisco é o quarto papa que discursa perante a ONU, depois de Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI.

[3] O texto completo da Agenda da ONU já está disponível em inglês. Para conferir diretamente sua tradução, clique aqui.

[4] A ONU jamais escondeu sua intenção de pacificar as nações através de um líder mundial soberano. A ideia encontrou apoio no papa Paulo VI, o qual, em 1965 declarou em seu discurso à ONU: “Vós sois uma rede de relações entre os povos. Estaríamos tentados a dizer que a vossa característica reflete de certa maneira na ordem temporal o que a nossa Igreja católica quer ser na ordem espiritual: única e universal. [...]Quem não vê a necessidade de chegar assim progressivamente a instaurar uma autoridade mundial capaz de poder agir eficazmente no plano jurídico e político?” Confira esse discurso completo clicando aqui.

[5] O suposto aquecimento global será usado como fator de unificação entre as nações. Nada melhor que se estabelecer um inimigo em comum para se promover alianças. De fato, é cada vez maior o número de climatologistas que asseguram que o planeta está aquecendo rapidamente. Minha opinião é a de que, sim, isso é verdade. No entanto, o temor de um caos climático será usado pela ONU como chantagem para se alcançar seus objetivos funestos de um só líder mundial, uma só moeda e uma só religião. A grande causa do aquecimento global não é o CO2, mas o gás metano, o qual não está sendo combatido em sua maior fonte: a pecuária. Para entender o problema, e a hipocrisia do sistema, confira o excelente documentário A Conspiração da Vaca.

[6] A expressão Mãe Terra faz parte do texto, que a sugere por ser “uma expressão comum em grande número de países e regiões” (§59). A ONU sanciona uma iniciativa de unificação religiosa, chamada URI (United Religions Initiative) a qual encontra apoio no Papa Francisco e no ex-presidente de Israel, Shimon Peres, que, em visita ao vaticano em 2014, propôs a criação da ONU das religiões: "A Organização das Nações Unidas teve seu tempo e, agora, o que vejo é uma ONU das religiões, uma Organização das Religiões Unidas", disse Peres, que completou: "Seria a melhor maneira para acabar com o terrorismo que mata em nome da fé, já que a maioria das pessoas pratica suas religiões sem matar ninguém". Fonte: Revista Exame.

[7] Todas as referências à Agenda da ONU podem ser conferidas em seu próprio texto e encontram-se precisamente nos seguintes locais, que merecem maior atenção: página 2, preâmbulo; página 3, parágrafo 1 a 7; pág. 4, §13; pág. 5, §18; pág. 6, §21 e 26; pág.8, §34 e 39; pág.10, §48 e §50 a 52; pág.11, §59; pág. 12, todas as metas; pág.18, meta 10,2 e 10,4 a 10,6; pág.21, meta 16,4 e 16,9; pág.22, meta 17,6 e 17,10; pág. 24, §60; pág. 25, §70 e 71; pág. 27, §72 e 73; pág.29; §87.

[8] Referências bíblicas que você não pode deixar de conferir: Mateus 24:9-14; Lucas 21:25-36; 1 Tessalonicenses 5:3; 2 Tessalonicenses 2:1-4; Apocalipse 13:16-18; 14:9-13; 16:2.


24 julho 2015

SERÁ QUE DEUS EXISTE?

Como manter a fé em meio a tanto sofrimento

 

Por Alan Capriles

Questionar a existência de Deus não é algo que ocorre somente aos ateus e agnósticos.[1] E também não se trata de modismo passageiro. Essa dúvida tem ocorrido até mesmo nas pessoas mais religiosas, especialmente quando se deparam com tragédias pessoais, como a perda de um ente querido.

Por mais religioso que alguém seja, o que dizer para um pai que está em prantos pela morte do filho? Os amigos de Jó bem que tentaram lhe dizer alguma coisa, mas melhor seria se houvessem permanecido calados.[2] E aquela costumeira frase, de que “Deus sabe de todas as coisas”, dificilmente consolará pais que só querem ter o seu filho de volta.

Ainda que quase ninguém o diga, muitos na hora da dor se perguntam: “Será que Deus existe mesmo?”[3] E, se existe, por que permite que tamanho mal aconteça? O fato é que, mais cedo ou mais tarde, todos que dizem acreditar em Deus terão sua fé provada pelo sofrimento. Ninguém escapa de sofrer, nem o mais rico dos homens.

Mas, então, se todos sofrem, por que insistimos na crença em Deus?

Não é bem assim. Tem sido cada vez maior o número dos que se dizem ateus e agnósticos devido ao sofrimento. E o mais curioso é que a maioria desses professava determinada religião. Alguns passaram a duvidar da existência de Deus mesmo após chegar ao sacerdócio, como foi o caso do historiador Bart Ehrman. Em um de seus livros, intitulado O Problema com Deus, Ehrman tenta justificar seu agnosticismo elaborando perturbadoras questões relacionadas ao sofrimento:

“Por que os doentes continuam a definhar com dores indizíveis? Por que bebês ainda nascem com defeitos congênitos? Por que crianças são sequestradas, estupradas e assassinadas? Por que há secas que deixam milhões de pessoas famintas, levando vidas horrendas e excruciantes que terminam com mortes horrendas e excruciantes? [...] Por que uma criança – uma simples criança! – morre de fome a cada cinco segundos?”

Por que Deus permitiria tanta dor e maldade? Não ter encontrado uma resposta plausível para tanto sofrimento no mundo levou Ehrman a duvidar que Deus exista. Nesse mesmo capítulo ele completa: “Eu não sei se existe um Deus; mas acho que se houver um, ele certamente não é aquele proclamado pela tradição judaico-cristã, aquele poderosa e ativamente envolvido com este mundo. E assim, deixei de ir à igreja.”

Bart Ehrman parece ter sido sincero ao apontar o sofrimento como principal motivo para abandonar sua fé. Mas ele também se revelou humilde ao confessar algo que os ateus não estão dispostos a reconhecer: “eu não sei se existe um Deus”.

Certamente, esse é o ponto crucial. Não se pode comprovar que Deus não exista. Mas, se Deus fosse do jeito que Ehrman gostaria que fosse, então ele aceitaria que existe um Deus e não haveria problema. Ou melhor, nenhum problema, pois o mundo seria perfeito e todos seriam felizes para sempre! Agnósticos – a exemplo de Barth Ehrman – criam a imagem do deus que eles gostariam que existisse, mas quando percebem que o seu deus não se encaixa com a realidade que há, então passam a duvidar que Deus realmente exista. Os ateus também fazem o mesmo, embora neguem sequer imaginar qualquer tipo de deus, bem como a possibilidade de haver um Criador. Como se vê, os agnósticos parecem ser mais humildes e honestos, pois os ateus também não podem provar que não haja um Criador, a não ser pela desculpa de que Deus não é como eles gostariam que fosse. Mas admitir isso é algo que os ateus não estão dispostos a fazer.

Portanto, o x da questão é a premissa na qual ateus e agnósticos se baseiam para que Deus possa existir, ou seja, a de que a felicidade suprema e pessoal seria o propósito de toda existência humana. Mas, como há sofrimento e pessoas infelizes, então eles concluem que Deus não deve existir.

Essa noção, de que a existência do sofrimento implique na inexistência de Deus, não é uma ideia recente.[4] Porém, numa sociedade cada vez mais individualista, é natural que o número de pessoas que pense assim esteja crescendo rapidamente. Um crescimento alimentado pela mídia, que todos os dias tenta nos fazer acreditar que somos especiais e merecedores de todo conforto, luxo e divertimento possíveis. Evidentemente, essa mentalidade deturpada também contamina o meio religioso. Não por acaso o slogan “chega de sofrer” tornou-se um chamariz (que funciona) para igrejas onde os pregadores prometem o céu na terra. Essas igrejas estão sempre lotadas porque é nisso que as pessoas querem acreditar! O problema é que isso não é verdade.

Os crentes, assim como os ateus e agnósticos, também estão sujeitos a sofrer. A despeito do que ensinam certos pregadores, o sofrimento não é consequência da falta de fé. A pregação religiosa que promete uma vida sem sofrimento pode surtir efeito a curto prazo, atraindo os mais carentes e incautos. Mas, a longo prazo, quando esses voltarem a sofrer, ou eles irão procurar outra igreja, que não lhes engane, ou abandonarão de vez a fé, traumatizados por uma expectativa de plena prosperidade que não se concretizou. Temo que esse último cenário esteja ocorrendo com maior frequência. Uma religião deturpada pode gerar muito mais ateus que o secularismo hodierno.

Como se vê, não é difícil identificar as causas do crescente ateísmo. Mas, quanto ao sofrimento, identificar o seu porquê não é tarefa tão simples assim. Há muitas explicações, que variam de acordo com as mais diversas posições religiosas e filosóficas. Não caberia nesse texto esmiuçar as diferentes respostas apresentadas para se explicar o sofrimento. Obviamente, algumas se contradizem e não é possível que todas estejam certas.

Mas, francamente, não penso que a crença religiosa ou filosófica seja tão relevante quanto a compreensão e aceitação do óbvio: por mais doloroso que seja, o sofrimento faz parte da vida. E talvez faça parte da vida porque o sofrimento é bastante didático e revelador. Didático, porque aprendemos mais quando nos deparamos com o sofrimento do que quando tudo vai bem. E revelador, porque no sofrimento manifesta-se quem realmente somos. Foi o que ocorreu, por exemplo, na conhecida parábola do bom samaritano. Os religiosos, que aparentavam ser pessoas melhores, revelaram-se indiferentes à dor alheia, enquanto aquele desprezado samaritano se revelou misericordioso e solidário para com um estranho que sofria.[5]

Não obstante, além de nos ensinar sobre nós mesmos e sobre o próximo, o sofrimento também é a melhor oportunidade para exercitarmos a fé e o amor que dizemos ter. É provável que você já tenha notado que as maiores manifestações de fé geralmente ocorrem quando somos diretamente atingidos pela dor. São nesses momentos difíceis que passamos a buscar a Deus com mais intensidade – o que também revelará se confiamos ou não na providência divina. Mas é quando nos deparamos com a dor alheia que temos a chance de exercitar o verdadeiro amor, o qual se concretiza na compaixão pelo próximo, levando-nos a socorrer aos que precisam de ajuda.

Suponho que não haveria fé e amor neste mundo se não houvesse também o sofrimento, que os promove por toda parte. Se não houvesse sofrimento seríamos todos indiferentes ao próximo e descrentes em Deus, pois não necessitaríamos buscá-lo. Seríamos também insuportavelmente arrogantes e soberbos, julgando sermos grande coisa por não conhecermos qualquer aflição. Tudo e todos perderiam seu valor, pois nunca saberíamos o que é a dor de uma perda.[6]

Como se vê, o sofrimento não é de todo mal. Porém, em alguns casos, o sofrimento parece mesmo não fazer o menor sentido e jamais conseguiremos entender plenamente o seu propósito. Resta-nos apenas confiar em Deus – algo que não deveria nos surpreender e nem mesmo incomodar. Ora, se soubéssemos de tudo, nós é que seríamos Deus e não apenas homens.

Porém, se pudéssemos ver além de nossas limitações humanas e temporais, perceberíamos que todo sofrimento sempre resultará em algo bom e melhor; compreenderíamos que toda dor pela qual passamos foi terminantemente necessária para sermos edificados e fortalecidos; reconheceríamos o quanto Deus nos ama, a ponto de sofrer juntamente conosco, se fazendo um homem experimentado em dores, na pessoa do seu filho, Jesus.

Notas


[1] Diferença entre ateus e agnósticos: ateus negam categoricamente que possa existir um deus; agnósticos dizem que não há como alguém saber se Deus existe ou não.

[2] Referência ao livro de Jó, personagem bíblico que num só dia perdeu todos os seus bens e também todos os filhos. Três amigos tentaram consolá-lo, buscando justificativas para sua dor, mas tudo quanto disseram foi repreendido por Deus. Confira em Jó 2:11-13, 4:1, 42:7.

[3] Por exemplo, questionar se Deus existe foi o compreensível desabafo do pai do cantor sertanejo Cristiano Araújo, cuja carreira foi abruptamente interrompida num acidente de carro.

[4] Essa discussão é tecnicamente chamada de Teodicéia, um termo que se refere a resolver a seguinte questão: como pode haver sofrimento no mundo se Deus é amor e tem todo o poder? Embora esse termo tenha surgido somente a partir do século XVII, o problema já havia sido apresentado muito antes, há cerca de 2.500 anos, pelo filósofo grego Epícuro.

[5] Uma das parábolas mais famosas de Jesus Cristo, registrada em Lucas 10:25-37.

[6] Coincidência ou não, na semana em que escrevi esse texto tornei a assistir, pela enésima vez, ao documentário “Estou Vivo – O milagre nos Andes”, que conta como 16 jovens conseguiram sobreviver por 70 dias na cordilheira andina, após a queda do avião em que estavam. Dois deles, Nando Parrado e Roberto Canessa, precisaram caminhar na neve por exaustivos 60 quilômetros, atravessando as montanhas, até conseguirem ajuda. Considero inteiramente apropriado, como complemento desse texto, parte do depoimento que eles deram neste documentário, revelando as lições que aprenderam com todo aquele sofrimento:

“Percebi que precisamos de coisas simples para sermos felizes. E como exigimos mais do que precisamos na vida!” - Roberto Canessa

“Aprecio o fato incrível de estar vivo, todo dia, a cada respiração... A vida é mais simples do que parece. Para mim o amor é a coisa mais importante do mundo. O amor por nossas famílias nos mantém vivos.” - Nando Parrado

Você pode conferir esse incrível documentário clicando aqui.

Alan Capriles

17 julho 2015

SONHOS - OU SERIA UM ALERTA?

Uma experiência pessoal


Por Alan Capriles

Talvez você não acredite em inferno, mas deixe-me compartilhar o sonho (ou pesadelo) que tive nesta noite:

Encontrava-me num lugar sombrio, onde havia vários corpos deitados no chão, uns sobre os outros, a perder de vista. Eles não estavam nus, mas bem vestidos, parecendo usar paletós, ou alguma outra roupa de cor escura. Quase não se moviam, mas havia som de muito gemido e muito pranto. Ao ver aquilo tentei ajudar, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Senti uma enorme angústia e um pavor intenso. Aquilo durou apenas alguns segundos, mas foi tão forte que parecia ser uma eternidade.

Foi quando acordei. Eram 03h07 da madrugada. Levantei para beber água, dando graças a Deus por tudo não passar de um terrível pesadelo... Ou seria algo mais?

Digo isso porque, na verdade, esse havia sido meu quarto sonho estranho e consecutivo dentro da mesma semana.

No primeiro deles, encontrava-me ao ar livre conversando com os jovens de nossa igreja e, de repente, avistei uma enorme explosão no horizonte, que gerou uma gigantesca onda de fumaça e destroços que vinham em nossa direção. Imediatamente gritei, orientando que todos se deitassem no chão. Pude sentir o calor passando sobre minhas costas. Em seguida, vi prédios caindo, uns sobre os outros, como peças de um dominó.

Na noite seguinte, tive o segundo sonho. Eu dirigia meu carro em algum local que parecia ser um cruzamento, quando de repente o chão começou a ceder e se abrir bem à minha frente. Precisei correr dando marcha à ré para fugir de tudo aquilo, pois acontecia muito rápido e alguns carros estavam sendo completamente engolidos. 

No terceiro, havia uma multidão de pessoas em caos, que corriam de um lado para outro, com as mãos na cabeça. Eu não sabia o porquê de tudo aquilo, mas percebi que, além de ser noite, não havia luz em parte alguma. A última cena desse sonho foi eu avistar a silhueta negra de uma igreja, estranhando que ela estivesse fechada e completamente apagada.

O quarto sonho foi o que relatei no início deste post.

Não costumo lembrar do que sonhei e nem dou muita importância para isso, mas o fato é que esses sonhos, além de impressionantes, parecem ser uma sequência, como flashes de uma só história. Sendo assim, talvez o quarto sonho não seja o inferno, propriamente dito, mas pessoas sofrendo as consequências de um inferno aqui na terra, após uma bomba nuclear ou coisa parecida.

Obviamente, espero que tudo não passe de sonhos. Mas, como isso não costuma ocorrer comigo, pretendo redobrar minha vigilância e também minhas orações. E, se me permite um conselho, talvez você devesse fazer o mesmo.

"Vigiai a todo tempo, orando, para que possais escapar de todas estas coisas que têm de suceder e estar em pé na presença do Filho do Homem."
Jesus Cristo (Lc 21:36)


25 junho 2015

A DIVINA HUMANIZAÇÃO DE CRISTO

A Busca pelo Jesus Histórico e a Divindade de Cristo
Por Alan Capriles


A chamada busca pelo Jesus histórico é o esforço acadêmico de se analisar a vida de Cristo somente pela perspectiva histórica, como um simples homem, ou seja, despido de qualquer suposto mito que o identifique como Deus. Neste sentido, os evangelhos e demais escritos do Novo Testamento necessitam ser examinados com extrema cautela, uma vez que qualquer milagre, especialmente o da ressurreição, não pode ser avaliado (e muito menos abalizado) segundo os parâmetros históricos.

Não se trata de má vontade dos acadêmicos, mas do simples fato de que o sobrenatural não pode ser comprovado por metodologia científica. Além disso, muitos estudiosos asseguram que os evangelhos foram escritos de 35 a 65 anos após a morte de Jesus, o que aumentaria a probabilidade de que seus autores não tenham sido testemunhas oculares dos relatos que escreveram. Para um historiador, o depoimento de alguém que presenciou o fato relatado é de grande relevância histórica. Mas, segundo supõem alguns pesquisadores, os evangelhos foram escritos por pessoas que não conheceram Jesus pessoalmente. Como se não bastasse, afirmam que existem discrepâncias na leitura paralela dos evangelhos, ou seja, que surgem divergências quando comparamos a ordem e os detalhes descritos da vida de Jesus em cada evangelho.[1]

Sendo assim, a pesquisa sobre o Jesus histórico consiste, principalmente, numa tentativa de se retirar supostas camadas de mito religioso que teriam sido acrescentadas sobre a pessoa do Nazareno. O assunto é extenso e polêmico, mas acho necessário apresenta-lo resumidamente a seguir, para somente depois revelar o impacto que tais estudos causaram em mim.

A chamada primeira busca pelo Jesus histórico se deu em meados do século XVIII, motivada pelo Iluminismo, o movimento europeu que exaltava o uso da razão como a única forma de se chegar à verdade. Muitos eruditos começaram a reescrever a vida de Jesus sob uma perspectiva extremamente racional (leia-se: que nega sua divindade), concluindo que o Nazareno poderia ter sido apenas um político mal sucedido que tencionava ser o rei de Israel, ou talvez um curandeiro que fazia uso de práticas terapêuticas, ou apenas um mito criado a partir de narrativas do Antigo Testamento, ou simplesmente uma lenda, baseada em pouquíssimo material histórico.

Tantas opiniões divergentes acerca de quem foi Jesus acabaram resultando em ceticismo quanto à possibilidade de se conhecê-lo por uma perspectiva histórica. Em 1911, Albert Schweitzer publicou sua famosa obra sobre o assunto, A Busca do Jesus Histórico, na qual demonstrou que os pesquisadores haviam falhado em suas biografias de Jesus porque cada autor projetava nele o próprio ideal ético que mais almejava. A despeito disso, Schweitzer também aventou sua hipótese acerca de quem foi o Nazareno: apenas mais um profeta judeu apocalíptico, que a princípio anunciava a vinda de uma figura escatológica, o Filho do Homem, o qual desceria do céu para estabelecer o reino de Deus na terra, mas que depois teria mudado de ideia, acreditando ser ele mesmo esse Filho do Homem. O teólogo Rudolf Bultmann foi ainda mais pessimista quanto à busca pela verdade histórica. Segundo ele, a única coisa relevante no aspecto da história é que Jesus existiu. Qualquer tentativa de se saber o que realmente aconteceu seria uma tarefa impossível do ponto de vista metodológico, e desnecessária do ponto de vista teológico. Bultmann afirmava que o importante é o Cristo da fé, ressuscitado e vivo no coração de cada crente, o qual se baseava em tradições acerca de Jesus que jamais poderiam ser historicamente comprovadas. Sendo assim, o assunto parecia definitivamente morto e enterrado.

Mas eis que, após algumas décadas de compreensível silêncio, houve uma ressurreição na busca pelo Jesus histórico. Reavivados por uma nova pergunta, os pesquisadores desejavam então saber se o Querigma (a exaltação fundada na cruz e na ressurreição) teria alguma base na pregação de Jesus, ou seja, se determinados ditos e ações provinham mesmo dele ou se eram visões posteriores da Igreja. Talvez possamos estabelecer precisamente o início dessa segunda busca em 23 de Outubro de 1953, quando o professor Ernest Käsemann, na conferência denominada O Problema do Jesus Histórico, defendeu a criação de uma teologia baseada na realidade histórica sobre o que Jesus de fato ensinou. Ele argumentou que isso não somente era necessário, mas que já era possível, devido aos avanços nas áreas da Arqueologia, História, Antropologia e Filosofia. Abandonava-se o interesse pela cronologia dos eventos e da publicação de novas biografias de Jesus, mas mantinha-se o ceticismo em relação aos milagres – uma herança do Iluminismo. A partir de então o foco seria determinar quais ensinamentos de Cristo eram autênticos ou não. Os parâmetros para essa pesquisa começavam a consolidar-se, resultando em um boom no interesse pelo Jesus histórico a partir do final do século XX.

Atualmente experimentamos o que se pode chamar de terceira busca, na qual Jesus é reinserido em seu contexto judaico, possibilitando aos judeus perceberem-no como parte de sua história. O interesse histórico-social substituiu o teológico, razão pela qual agora se admite a investigação de fontes não canônicas e até heréticas, tais como o apócrifo Evangelho de Tomé. O maior exemplo desse empenho se deu na formação do The Jesus Seminar, projeto norte-americano iniciado em 1985, no qual pesquisadores passaram a reunir-se duas vezes ao ano para avaliarem Jesus segundo os modernos métodos da pesquisa crítica e histórica.[2] Em sua primeira fase os participantes deveriam votar em quais ditos seriam autênticos ou não, tratando a questão como se ela pudesse ser resolvida democraticamente. Essa polêmica votação estabeleceu que pouquíssimos ditos atribuídos a Cristo nos evangelhos, incluindo o de Tomé, seriam provavelmente autênticos. Apenas quinze, para ser mais exato! Isso causou desconforto para os pesquisadores europeus, os quais discordam deste método, e indignação para muitos teólogos que se perguntam de qual Jesus estaríamos falando.

As conclusões mais recentes acerca do Jesus histórico estão amplamente disponíveis em língua portuguesa. Obras de pesquisadores conceituados, como Geza Vermes, John Dominic Crossam e John Paul Meier podem ser encontradas com certa facilidade nas melhores livrarias brasileiras. O ex-pastor evangélico (agora agnóstico) Bart Ehrman popularizou ainda mais o assunto, escrevendo livros com títulos sensacionalistas, tais como “O que Jesus disse, o que Jesus não disse” e “Como Jesus se tornou Deus”. Neste último, Ehrman escancara o que até então estava nas entrelinhas dos demais autores, ou para a maioria deles: Deus não se fez homem em Jesus, mas o próprio homem é que teria elevado Jesus ao status de Deus.

Particularmente, o estudo do Jesus histórico não me levou a essa conclusão. Na verdade, consolidou ainda mais a minha fé em Cristo. E ninguém pode me acusar de leviandade, pois não somente li todos os livros de Ehrman, com também li as principais obras de Crossan, Vermes, Schweitzer, além de autores ainda não mencionados, tais como Reza Aslan e André Leonardo Chevitarese. Este último merece especial consideração, por ser o historiador brasileiro que mais tem incentivado o estudo do Jesus histórico em nosso país. Tive o privilégio de participar de alguns cursos ministrados na UFRJ por excelentes professores ligados a Chevitarese, tais como Daniel Justi, Juliana Cavalcanti e Lair Amaro Faria.[3] Participei desses cursos não como pastor ou teólogo, mas com a sincera disposição de um aprendiz.

E aprendi muito, reconheço; tanto nas aulas, quanto nos livros. Aprendi, principalmente, a refletir sobre a opinião da maioria eruditos acerca do Jesus Histórico, cujos pontos pricipais apresento a seguir:

  • Jesus não teria nascido em Belém, mas em Nazaré, uma aldeia insignificante, que sequer aparecia nos mapas, e cuja historicidade chegou a ser questionada, mas que foi comprovada por achados arqueológicos a partir do fim do século XIX;
  • Jesus teria crescido sendo chamado de filho da prostituição, pois ninguém acreditaria na história de que sua mãe foi engravidada pelo Espírito Santo;
  • Jesus teria sido analfabeto, como o restante dos camponeses pobres que moravam em Nazaré, pois seria praticamente impossível que ele aprendesse a ler morando naquela pequena e desprezível aldeia, onde sequer haveria alguém para ensinar as letras;
  • Jesus teria sido pedreiro (ofício ainda menos rentável que o de carpinteiro) e possivelmente tenha trabalhado em Séforis, cidade greco-romana mais próxima de Nazaré e que estava sendo reconstruída pelos romanos no período da vida adulta de Jesus;
  • Jesus teria sido um dos discípulos de João Batista, dando continuidade ao ministério deste após sua morte, mas com a sua própria mensagem;
  • Jesus teria feito seu ministério público tal como um mendigo, ou filósofo cínico, que pregava perambulando pelas aldeias sem ter onde dormir;
  • Jesus teria sido apenas mais um dentre os vários pregadores apocalípticos judeus que surgiram antes e depois dele;
  • Jesus teria tido menos seguidores do que se pensa e o número de apóstolos talvez se resumisse a seis ou sete – doze teria sido uma invenção posterior da igreja;
  • Jesus não teria realizado milagres de qualquer natureza, mas era reconhecido pelo povo como curandeiro e exorcista;
  • Jesus não teria desejado morrer na cruz para salvar ninguém, mas esperava por uma intervenção divina apocalíptica que não ocorreu;
  • Jesus teria sido crucificado por causa de sedição - ou seja, pela suspeita de que liderava um movimento contrário ao imperialismo romano - e não por causa de seu discurso religioso;
  • Jesus não teria sido sepultado, mas lançado numa vala comum, como os demais condenados à crucificação, e seu corpo logo teria sido comido por animais;
  • Jesus não teria ressuscitado.

Por favor, examine mais uma vez a listagem acima. Não é fantástico que alguém tão medíocre assim, como se revela "Jesus" nos parâmetros históricos, tenha se tornado o personagem mais famoso e querido de toda a história? 

Seria mesmo possível que tudo mais quanto se lê no Novo Testamento acerca de Cristo tenha sido inventado? Como poderia tamanha mentira ir adiante, uma vez que muitas pessoas que conheceram Jesus ainda estavam vivas enquanto Paulo pregava e escrevia suas epístolas sobre Cristo? E por que alguém tão insignificante teria sido tão popularmente comentado a ponto de sua memória ser preservada numa tradição oral que deu origem aos evangelhos? E por que os evangelhos inventariam fatos que complicariam sua credibilidade, tal como um dos apóstolos tê-lo traído, ou sua ressurreição ter primeiro sido atestada por mulheres? E por que os discípulos de Cristo dariam sua vida por algo que soubessem não ser verdade?

Enquanto os pesquisadores do Jesus histórico buscam, de todas as formas, comprovar a humana divinização de Jesus, para mim parece claro que, quanto mais frágil e humano ele se revela, tanto maior se torna o assombro, o milagre e a certeza de sua divindade. Ao menos para mim. 

Sinceramente, esse foi o resultado a que tais estudos me levaram. Agora percebo, impactado, que há um propósito divino na mais humilhante possível humanização de Cristo, bem como na atual redescoberta desse Jesus frágil, desse Jesus homem. A saber: a nossa própria e definitiva conversão a ele.

Alan Capriles
Notas
[1] A respeito das discrepâncias nos evangelhos, confira meu artigo intitulado As Divergências nos Evangelhos Sinóticos.
[3] Lair Amaro Faria é autor da excelente obra “Quem vos ouve, ouve a mim: oralidade e memória nos cristianismos originários”, a qual pode ser encomendada pelo site da editora Kline: http://www.klineeditora.com/catalogos.html

Referências bibliográficas
CHEVITARESE, André L. & FUNARI, Pedro Paulo. Jesus Histórico: Uma Brevíssima Introdução. Rio de Janeiro: Kline Editora, 2012.
THEISSEN, Gerd & MERZ, Annette. O Jesus Histórico: um Manual. São Paulo: Edições Loyola, 2002.
ASLAN, Reza. Zelota: A Vida e a Época de Jesus de Nazaré. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

06 março 2015

FACEBOOKCÍDIO

Por Alan Capriles

Estou morto. Levei quase um mês para comprovar isso, mas agora não tenho mais dúvidas: morri mesmo! Ao menos para aqueles contatos do Facebook que tanto me pediram para que eu não cancelasse minha conta, dizendo-me quanta falta eu lhes faria...

Na verdade, essa impressão funesta, que hoje é uma certeza, começou desde quando comuniquei que cancelaria meu perfil no Facebook. O comunicado ocorreu cerca de duas semanas antes de fazê-lo. Eu precisava desse tempo para divulgar aos contatos o meu email e alguns endereços que mantenho na internet. Mas isso também deu margem para que alguns comentassem sobre a minha decisão – não foram muitos, creio que apenas dois por cento dos 791 contatos que eu mantinha. Dentre esses poucos, houve cerca de meia dúzia que insistiu bastante para que eu mudasse de ideia. Mas o que achei estranho (e um pouco assustador) foi o modo como eles tratavam do assunto, dando a impressão de que eu fosse cometer um suicídio. Parecia que eu estava pra morrer de verdade! Um deles escreveu que já se despedira de mim, revendo algumas fotos dos meus álbuns. Detalhe: ele mora no bairro vizinho ao meu. Outro fez um comentário que se parecia com uma carta deixada num túmulo, como se nunca mais pudéssemos nos ver, ou entrar em contato novamente.

Comovido, decidi não ser tão radical. Cancelei meu perfil, mas mantive no Facebook somente uma de minhas páginas, a fim de divulgar meus trabalhos e pensamentos. Apesar de ser muito diferente de um perfil social, uma página também pode ter seguidores e suas publicações podem receber curtidas e comentários. O fato surpreendente é que, mesmo após eu convidar meus quase 800 contatos para curtirem minha página, menos de 200 passaram a segui-la. Ora, isso foi muito revelador: mais de 600 “amigos” parecem não dar a mínima para o que eu escrevo! Sinto que passei a conhecer mais sobre o que é o Facebook na minha saída do que durante o tempo em que nele permaneci.

Mas o melhor vem agora: desses quase 200 que curtiram – e que supostamente passaram a seguir minha nova página – menos de dez pessoas costumam comentar ou curtir minhas postagens. É um grupo seletíssimo! E não pense que estou falando daqueles poucos amigos que insistiram para que eu não cancelasse meu perfil. Acredite se quiser: nenhum dos que imploraram para que eu ficasse até hoje comentou ou curtiu coisa alguma em minha página. É isso mesmo: participação zero! Ao cancelar meu perfil no Facebook eu literalmente morri pra essas pessoas...

Confesso que fiquei triste, mas não por mim. Fiquei triste por haver pessoas que passam a nos enxergar como um ser virtual, que necessita aparecer numa tela para se comprovar vivo. Agora que estou fora desse aquário, vejo claramente que o Facebook é um tipo de Second Life, jogo no qual se assume um avatar, controlado por você, mas que não é você. O problema é que alguns assumem essa segunda vida como se fosse uma vida real, coisa que também não é. A tão condenada inversão de valores chegou a esse ponto, de se pensar que não há vida fora de uma suposta rede virtual. Mas, apesar de morto no Facebook, sinto que estou mais vivo do que nunca. Acredite, por mais incrível que hoje possa parecer: existe vida além da internet.

Alan Capriles