terça-feira, 20 de novembro de 2012

AS DIVERGÊNCIAS NOS EVANGELHOS SINÓTICOS

TRÊS DIFERENTES HISTÓRIAS, MAS UM SÓ ENSINAMENTO


Por Alan Capriles

Temos a sorte de haver não apenas um, mas quatro evangelhos canônicos, ou seja, reconhecidos pela igreja como inspirados por Deus. [1] Os três primeiros – Mateus, Marcos e Lucas – são chamados de evangelhos sinóticos, pois apresentam a vida de Jesus seguindo uma sinopse bastante parecida. Quase todas as histórias contadas em Marcos, por exemplo, são também contadas em Mateus e em Lucas. No entanto, isso não significa que haja unanimidade quanto à maneira como estas histórias são contadas. Isso fica claramente demonstrado nos relatos a seguir, onde comparo três passagens paralelas dos evangelhos sinóticos:
“Entretanto, os fariseus, sabendo que ele fizera calar os saduceus, reuniram-se em conselho.  E um deles, intérprete da Lei, experimentando-o, lhe perguntou:  Mestre, qual é o grande mandamento na Lei?  Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento.  Este é o grande e primeiro mandamento.  O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.  Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.” (Mateus 22:34-40)
“Chegando um dos escribas, tendo ouvido a discussão entre eles, vendo como Jesus lhes houvera respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o principal de todos os mandamentos?  Respondeu Jesus: O principal é: Ouve, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor!  Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força.  O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.  Disse-lhe o escriba: Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que ele é o único, e não há outro senão ele,  e que amar a Deus de todo o coração e de todo o entendimento e de toda a força, e amar ao próximo como a si mesmo excede a todos os holocaustos e sacrifícios.  Vendo Jesus que ele havia respondido sabiamente, declarou-lhe: Não estás longe do reino de Deus. E já ninguém mais ousava interrogá-lo.” (Marcos 12:28-34)
“E eis que certo homem, intérprete da Lei, se levantou com o intuito de pôr Jesus à prova e disse-lhe: Mestre, que farei para herdar a vida eterna?  Então, Jesus lhe perguntou: Que está escrito na Lei? Como interpretas?  A isto ele respondeu: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.  Então, Jesus lhe disse: Respondeste corretamente; faze isto e viverás.  Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: Quem é o meu próximo?  Jesus prosseguiu, dizendo: Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e veio a cair em mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto.  Casualmente, descia um sacerdote por aquele mesmo caminho e, vendo-o, passou de largo.  Semelhantemente, um levita descia por aquele lugar e, vendo-o, também passou de largo.  Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele.  E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele.  No dia seguinte, tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste homem, e, se alguma coisa gastares a mais, eu to indenizarei quando voltar.  Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?  Respondeu-lhe o intérprete da Lei: O que usou de misericórdia para com ele. Então, lhe disse: Vai e procede tu de igual modo.” (Lucas 10:25-37)*
Apesar de retratarem o mesmo acontecimento da vida de Jesus, todos os evangelistas o relataram de maneira diferente. Segundo Lucas, por exemplo, Jesus não respondeu diretamente qual seria o grande mandamento da Lei, mas devolveu a pergunta para o intérprete da Lei, que lhe dá uma sábia resposta. No entanto, para Mateus e Marcos, é o próprio Jesus quem responde imediatamente a questão. Ora, qual dos dois deu a resposta? Não há como se conciliar essa questão. Mas vejamos ainda como a mesma história tem desfechos diferentes, segundo o relato de cada evangelho.

Em Mateus a história termina mais abruptamente, com Jesus apenas acrescentando que “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” – revelação que, aliás, não consta dos demais evangelhos. Marcos, por outro lado, acrescenta que o escriba teria comentado a resposta de Jesus e que este, vendo “que ele havia respondido sabiamente, declarou-lhe: Não estás longe do reino de Deus.” Esse é o final da história para Marcos, o qual apenas acrescenta que “já ninguém mais ousava interrogá-lo.”

Em Lucas, como já foi dito, Jesus não responde diretamente a pergunta, mas a devolve para o intérprete da Lei, que acaba respondendo a questão por ele mesmo levantada. Jesus apenas avalia que sua reposta foi correta e acrescenta: “Faze isto e viverás”. Mas, ainda segundo Lucas, o intérprete da Lei “querendo justificar-se, perguntou a Jesus: Quem é o meu próximo?” – uma nova questão, que resulta na famosa parábola do bom samaritano. Mas o diálogo ainda prossegue, com Jesus lhe perguntando, ao final da parábola: “Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores? Respondeu-lhe o intérprete da Lei: O que usou de misericórdia para com ele. Então, lhe disse: Vai e procede tu de igual modo”.

Pois bem, não há como se negar que temos aqui três histórias diferentes. E provavelmente jamais saberemos o que realmente aconteceu: se foi Jesus quem deu a resposta (Mt e Mc) ou se foi o intérprete da Lei (Lc); se houve apenas essa pergunta (Mt) ou se o diálogo se prolongou um pouco mais (Mc) ou muito mais (Lc); se o escriba fez um comentário que foi elogiado por Jesus (Mc), ou se foi o contrário (Lc); se Jesus disse para o intérprete da Lei “não estás longe do reino de Deus” (Mc) ou se disse “faze isto e viverás”(Lc), ou se não disse mais nada (Mt). Não temos como saber os detalhes do que realmente ocorreu. E também não é possível juntar as três histórias em uma só, como você mesmo poderá comprovar.

Mas será que esses detalhes têm alguma relevância quanto ao ensino por detrás dessas histórias? Definitivamente não! Apesar de não sabermos com exatidão o que aconteceu, o fato é que nas três histórias o ensino permanece o mesmo. Esse é apenas um exemplo dentre vários outros que encontramos na leitura comparativa dos evangelhos. E a conclusão será sempre a mesma, a saber, a de que as histórias contém divergência nos detalhes, porém não nos ensinamentos.

Como pode ser isso? Por que motivo há divergências entre os evangelhos, ainda que sejam nos detalhes? A resposta é tão simples que corremos o risco de não considerarmos suas implicações.

As evidências indicam que os acontecimentos ocorridos no ministério público de Jesus não foram imediatamente colocados no papel. Algum tempo teria se passado até que algum discípulo começasse a escrever a respeito do que Jesus disse e do que ele fez. Quanto tempo? Semanas? Meses? Anos? Tenho minhas dúvidas, mas o fato é que a maioria dos estudiosos do assunto assevera que décadas se passaram entre a crucificação de Jesus e a escrita do primeiro evangelho.  Enquanto isso, os ensinamentos de Jesus e as histórias sobre Jesus eram contados de boca, naquilo que os eruditos chamam de tradição oral. Um desses eruditos, por exemplo, concluiu sua pesquisa sobre o assunto com a seguinte consideração:

“Com efeito, não há nesse trabalho a presunção de se identificar por meio de quem as tradições de e sobre Jesus foram transmitidas até o momento em que começaram a ser vertidas por escrito por autores igualmente anônimos. Pois, mesmo que tenham se iniciado com o apóstolo Pedro, ou com familiares de Jesus de Nazaré, é crucial ter em conta as armadilhas da memória.” [2] 

O que esse pesquisador está afirmando, em outras palavras, é que mesmo que as fontes para a escrita dos evangelhos tenham sido testemunhas oculares, essas mesmas testemunhas podiam se equivocar quanto a detalhes dos acontecimentos. De fato, isso explicaria as divergências entre as três histórias que acabamos de analisar – e as demais divergências entre os evangelhos. Se a teoria estiver correta, cada um dos evangelistas teria sido influenciado por diferentes tradições orais que buscavam relatar a mesma história. Como se diz, “quem conta um conto, aumenta um ponto” (e às vezes omite ou até muda um ponto). Felizmente, como ficou demonstrado, os pontos acrescentados ou omitidos não alteraram o cerne da mensagem, que é o amor. 

Mesmo que os autores de Mateus e Lucas tenham se utilizado de Marcos como fonte para seus evangelhos, como creem os eruditos, eles podem ter alterado algumas histórias, não por má fé, mas segundo a influência de outras testemunhas que entrevistaram, ou de tradições orais que já conheciam. 

Como se não bastasse, nenhum dos quatro evangelhos foi escrito por historiadores. Sendo assim, eles não estavam buscando a exatidão histórica quando organizaram os ensinamentos de Jesus, mas sim a maneira mais apropriada para se facilitar sua memorização e meditação. Isso explicaria porque a ordem dos acontecimentos muda em cada um dos evangelhos. Quando o autor de Lucas, por exemplo, tomou conhecimento da parábola do bom samaritano (que não é contada nos outros evangelhos), o melhor lugar que ele encontrou para ela foi inseri-la no contexto do maior mandamento na Lei. 

Portanto, não devemos ler os evangelhos buscando exatidão histórica, mas revelação teológica. Quando nos apercebemos disso, os temores se dissipam, as peças se encaixam e podemos descansar na certeza de que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade.” 

Alan Capriles

* Todos os relatos bíblicos na versão Almeida Revista e Atualizada – SBB .
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Notas:

[1] Digo que temos sorte por haver quatro evangelhos na Bíblia Sagrada porque, caso tivéssemos apenas um relato canonizado, dependeríamos da arqueologia ou de alguém encontrar por acaso os fragmentos dos demais evangelhos, tal como ocorreu em 1945, quando evangelhos “apócrifos” foram encontrados em Nag Hammadi.

[2] “Quem vos ouve, ouve a mim”: Oralidade e Memória dos Cristianismo Originários / Lair Amaro dos Santos Faria – Rio de Janeiro: Kline 2011. Pág. 128

3 comentários:

Pr. Fábio Scofield disse...

Olá Amado Pastor, Graça e Paz...

Muito boa a contextualização destas três mensagens; apesar de serem escritas focando um angulo diferente em suas narrativas, porem o objetivo é o mesmo, ensinar como se pratica o verdadeiro amor.
Eu fico maravilhado com os detalhes destas narrativas; não tenho nenhuma preocupação quanto a veracidade dos seus textos, gosto de descobrir as particularidades ocultas em seus detalhes. A história do rei Ezequias é contada em três livros 2Reis-18 -20, 2Cr-29-32, Isaías-36-39. A história é a mesma, o personagem é o mesmo, os seus inimigos são os mesmos, porém, o foco da narrativa tem detalhes diferenciado de texto para texto. A vitória sobre os inimigos são concedida em todos os textos, porém compreender o porque o rei Ezequias adoeceu após a sua grande vitória, só será possível se ler com atenção os três textos.
Deus te abençoe......

Gustavo Alves disse...

Fala pastorzão, Gustavo falando,shalom!
Então, a respeito desse assunto sempre ouvi a explicação de que cada evangelho foi escrito em uma época, por pessoas diferentes de classas sociais diferentes para povos diferentes; ex: 1 evengelho tinha como alvo os Judeus, no outro o alvo eram os Romanos, no outro... etc etc etc... Por isso a linguagem e o modo de retratar a pessoa de Cristo tambem deveriam ser diferentes mas sempre mantendo o alvo da mensagem, isso procede? Valeu pastorzão, Graça e Paz!

Alan Capriles disse...

Olá, Gustavo!
Seja bem-vindo ao blog.

O que você comentou procede, mas apenas em parte. Apesar de cada evangelho ter um alvo diferente, como você bem lembrou, isso influenciava somente na necessidade ou não de se explicar algum costume judeu, não conhecido por outros povos.

No entanto, o problema sinótico que apresentei nesse artigo não pode ser resolvido pela explicação usual que você mencionou, pois estamos diante de claras contradições e não de textos que diferem por causa do público alvo. Precisamos encarar de frente essa questão, (ao invés de se fazer de conta de que não há divergências) mas percebendo que os evangelhos não se contradizem no que diz respeito aos ensinamentos de Cristo - e é isso que importa. O resto são detalhes, nada mais do que isso.

Um forte abraço,
na Paz de Cristo!