sexta-feira, 8 de julho de 2011

O MARCO ZERO DA MINHA VIDA

Por Alan Capriles

A Praça da Sé é o marco zero da cidade de São Paulo, minha cidade natal, mas tornou-se também o marco zero da minha vida. Foi onde, no início da década de 90, passei por uma experiência que mudaria para sempre o rumo da minha vida. 

Suponho que deva difícil para muitos leitores acreditar no que direi agora, mas cerca de um ano antes, 1989, eu já passara pela forte experiência de ouvir (literalmente falando) Deus me chamar pelo meu nome, confirmando minha chamada para ser pregador do evangelho. Isso aconteceu no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, como resposta a uma oração secreta que eu havia feito, razão pela qual posso afirmar ter sido a voz de Deus. Apavorado, pedi demissão de meu emprego e mudei para São Paulo, com a desculpa de que precisava dividir um apartamento com um amigo que havia sido aprovado na USP, mas que não tinha condições de pagar sozinho o aluguel. Fomos morar no bairro do Brás, num minúsculo apartamento, eu e mais dois amigos, que (acredite se quiser) se chamavam Cefas e Paulo de Tarso. Apesar dos nomes bíblicos, eles não compartilhavam da mesma fé e não demorou muito para que eu deixasse completamente de frequentar a igreja. Aliás, era isso mesmo que eu queria: fugir e esconder-me de Deus.

Apesar de ter conseguido um emprego logo na primeira semana em que cheguei a São Paulo, seis meses depois eu já estava desempregado, sem dinheiro e sozinho. Sozinho porque era o período de férias e meus amigos haviam viajado, um para Taubaté e o outro para mais distante, Natal, no Rio Grande do Norte.  

Eles passeavam, mas eu estava sozinho e faminto naquele inverno de 1990. Lembro-me do dia em que abri a despensa e não havia nada além de uma lata com um resto de farinha láctea. Na geladeira, um pote de doce-de-leite com ameixa e uma garrafa de água. Nesse dia sombrio, foram as únicas coisas que comi e bebi, pela manhã, a tarde e a noite. 

No dia seguinte, tive a ideia de vender alguns de meus livros para os sebos que existem próximos à Praça da Sé, a fim de conseguir dinheiro para comprar o que comer. E assim foi feito. Lembro-me de ter vendido um excelente livro em capa-dura por uma quantia irrisória, que mal dava para comprar um prato feito. Mas, faminto como eu estava, de que me serviria aquele livro? 

Após alimentar-me, decidi caminhar pela enorme Praça da Sé. Talvez não haja no Brasil nenhum outro lugar semelhante a esse, onde pessoas de todas as partes do país (e da América Latina) tentam ganhar a vida com sua arte: malabaristas, piadistas, mágicos, músicos, repentistas - tem de tudo que se possa imaginar. E, é claro, há muita pilantragem também. O fato é que são várias as distrações na Praça da Sé para quem deseja somente passar o tempo. Bem, naquela época era assim, não sei como está hoje.

Como eu não tinha mais o que fazer, aproximei-me de um aglomerado de pessoas, que formavam um círculo ao redor de alguém. Imaginei que devesse ser uma boa apresentação artística e fui juntar-me ao grupo de curiosos. Mas tratava-se de um pregador, um autêntico pregador do evangelho. Como eu já não ouvia uma pregação há mais de seis meses, decidi permanecer um pouco, tentando chegar o mais perto possível para ver se conseguia ouvir alguma coisa.

Não sei precisar exatamente quanto tempo se passou, mas tenho certeza de que não foi muito. Algo entre dois e cinco minutos. Repentinamente o pregador interrompe sua mensagem e declara, olhando ao redor: "Eis que o Senhor me revela que acaba de chegar entre nós um jovem a quem ele chamou pelo nome, mas que tem fugido de sua presença." Gelei. Ninguém em São Paulo sabia daquilo, nem sequer meus amigos. Eu também não havia estado em nenhuma igreja daquela cidade, muito menos queria conversa com crentes. Mas o pregador insistia: "O Senhor te chamou pelo nome, mas você tem resistido. Jovem, dura coisa é recalcitrar contra os aguilhões" - dizia ele, fazendo referência à conversão de Saulo. [1]

Em seguida, lembro-me de ser amparado por dois crentes, pois.eu já chorava copiosamente, sem forças para continuar de pé. Lá estava eu, ajoelhado naquele chão encardido, por onde passa todo o Brasil, rendido ao fato de que não é possível esconder-se da presença de Deus. Lá estava eu, no marco zero de minha cidade natal, de volta ao propósito da minha existência. Lá estava eu, prostrado, não perante os homens, mas perante o Cristo, que um dia me chamou pelo nome, sem eu nada merecer.

Desde então, muitas experiências com Deus tem marcado minha vida.[2] São tantas as histórias, que as estou reunindo em livro. Mas, de todas, nada se compara a este momento na Praça da Sé, onde tive a plena certeza de minha missão e de que o Senhor não havia desistido de mim, apesar de meus temores e pecados. Sem dúvida, aquele foi o reinício de tudo, o meu voltar ao começo, o marco zero da minha vida.

Alan Capriles
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Notas
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[1] Passagem bíblica do Novo Testamento, na qual Paulo de Tarso relata como foi comissionado pelo Senhor para o apostolado. (Atos 26:14)

[2] Relato algumas dessas histórias na mensagem "Experiências com Deus", a qual você poderá ouvir agora mesmo, clicando aqui. 

3 comentários:

Rosimary disse...

Graça e paz Pr.Alan

Linda história sobre a sua retomada ao evangelho,fez-me lembrar um versículo que diz:"Daqueles que me deste, não perdi nenhum.",de fato somos trazidos à Cristo pelo nosso Deus e sendo assim,de um jeito ou de outro o nascido do Espírito sempre volta,que papai do céu continue usando-o cada dia mais para edificação de nossas vidas.

Alan Capriles disse...

Amém, Rosimary

Esta tem sido a minha oração. Agradeço por seu incentivo, que é muito importante para minha vida.

Deus continue lhe abençoando, cada dia mais!

Claunice disse...

Quando o servo do Senhor é chamado, Não adianta se esconder, irá ser engolido pela baleia..rs Grande é o seu galardão pastor Alan!