segunda-feira, 31 de outubro de 2011

MINHA ENTREVISTA AO SITE TERRITÓRIO GONÇALENSE

Nesse dia 31 de Outubro, aniversário da Reforma Protestante, o excelente site Território Gonçalense publicou uma entrevista comigo, na qual versei sobre temas como o papel da igreja na sociedade, religião e política, homossexualismo, intolerância religiosa, blogs evangélicos apologéticos e a minha missão como pastor em São Gonçalo, segundo maior município do Rio de Janeiro.

Sou muito grato a Deus por esta oportunidade e ao Vagner, editor do Território Gonçalense, que foi seu instrumento para que minha entrevista alcance pessoas de diferentes credos, uma vez que seu site não é evangélico.

Confiram a entrevista na íntegra, lembrando que estou pronto para responder atenciosamente a qualquer comentário, os quais também podem ser feitos no site que me entrevistou.

Entrevista com Alan Capriles, o pastor reformista de SG

Não poderia haver data mais adequada do que hoje – Dia da Reforma Protestante – para o TG publicar a entrevista com Alan Capriles, o pastor que tem como missão despertar os evangélicos gonçalenses para o verdadeiro evangelho de Cristo.

Autor do polêmico artigo "A cidade mais evangélica do mundo... e daí?", em que crítica a qualidade espiritual dos protestantes de São Gonçalo, e que segundo uma pesquisa, é o lugar onde tem mais evangélicos por metro quadrado no mundo, Capriles, no entanto, não se envaidece com esse dado. “Que diferença isso trouxe para essa sociedade? Pelo menos, desde que moro aqui, não vi nenhuma diferença.”, questiona em seu brilhante texto.

Casado com Rosa Lúcia, com quem tem dois filhos (Filippe e Gabriel), esse paulistano, que há 10 anos está a frente do ministério da Igreja Bíblica Cristã, localizada em Laranjal, revela que Deus tem um propósito para ele estar aqui:

“O povo dessa cidade necessita urgentemente do evangelho da graça de Deus, a começar pelos próprios evangélicos”.

Pois bem. Vamos então conhecer agora o pensamento desse líder religioso que defende ardorosamente a volta da igreja ao rumo correto...

Vagner Rosa: O senhor nasceu em berço evangélico?

Pastor Alan Capriles: Não. Como grande parte dos brasileiros, meus pais se diziam católicos, mas não eram praticantes. Meu primeiro contato com a igreja evangélica só aconteceu no final da adolescência.

Vagner: Como aconteceu o chamado de Deus para ser pastor?

Pastor Alan: Foi realmente um chamado de Deus. Ocorreu aos 18 anos, quando eu era recém convertido e congregava na Igreja de Nova Vida em Botafogo. Sei que é difícil de acreditar, mas minha vocação pastoral foi confirmada pela experiência de ouvir, literalmente, o Senhor me chamar pelo nome. Mas essa é uma longa história...

Vagner: E o chamado para ser pastor em São Gonçalo? Já conhecia a cidade antes?

Pastor Alan: Conheci São Gonçalo primeiramente a trabalho, como representante de uma gravadora evangélica. Mas a mudança definitiva veio pouco depois, também como resposta de uma oração. Minha esposa Rosa e eu queríamos fazer mais pelo evangelho e então roguei a Deus que nos enviasse para onde fôssemos mais necessários. O ano era 1998 e morávamos em Pedra de Guaratiba, zona oeste do Rio de Janeiro. A resposta veio poucos dias depois, quando um pastor convidou-me para auxiliar seu ministério em São Gonçalo. Como a distância era grande, tivemos de deixar o Rio e passar alguns apertos por amor ao evangelho, como morar numa sala da igreja matriz com nosso pequeno filho até conseguirmos alugar uma casa. A ordenação pastoral ocorreu cerca de dois anos depois.

Vagner: Depois de 13 anos morando aqui, o senhor já se considera um gonçalense ou ainda se sente um paulistano da gema?

Pastor Alan: Para ser franco, nunca me considerei um paulistano da gema. Meu pai viajava muito a trabalho e pouco depois do meu nascimento já estávamos de mudança para outra cidade do Brasil. Somente na minha adolescência foi que passamos a morar definitivamente no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro. Mas, após 13 anos morando aqui, o que posso dizer é que amo o povo dessa cidade. Em geral, são pessoas amistosas, solidárias e interessadas em Deus. Fico feliz por meu filho caçula ter nascido aqui. Mas o que sinto mesmo em relação a São Gonçalo é que estou cumprindo uma missão nesta cidade, ou seja, que Deus tem um propósito para eu estar aqui.

Vagner: O seu polêmico artigo “A cidade mais evangélica do mundo...e daí?” deixou a comunidade evangélica de São Gonçalo numa situação nada confortável. O senhor revelou que a qualidade espiritual na maioria das igrejas gonçalenses é baixíssima. Como é a sua relação com os líderes religiosos da cidade?

Pastor Alan: Não foi minha intenção deixar os evangélicos de São Gonçalo em desconforto. Escrevi o referido artigo apenas a fim de despertar os leitores de meu blog para esta realidade. O que eu não imaginava é que ele seria destaque em primeira página de jornal, como aconteceu no Família Cristã, ou que seria reproduzido em outros blogs e sites, muito mais influentes que o meu, como foi o caso do Território Gonçalense. Mas, até o presente momento, tenho mantido uma ótima relação com os líderes evangélicos daqui, até porque eles sabem que tudo quanto está dito naquele artigo é a pura realidade. Grande parte da igreja evangélica, não somente nesta cidade, mas em todo o Brasil, não está cumprindo eficazmente a missão de formar genuínos discípulos de Cristo, razão pela qual não estamos fazendo muita diferença na transformação de nossa sociedade.

Vagner: Como se chegou a conclusão que São Gonçalo é a cidade mais evangélica do mundo? Existe uma pesquisa que confirme esse dado ou é apenas uma hipótese baseada no número excessivo de igrejas existentes em nosso município?

Pastor Alan: Teremos a confirmação desses números em fevereiro de 2012, quando o IBGE divulgar os resultados religiosos do Censo 2010. Por enquanto, o que temos são projeções. Por exemplo, baseado no último crescimento registrado do IBGE, entre 1991 e 2000, que foi de 7,82% ao ano em São Gonçalo, em 2011 os evangélicos já seriam a maioria nessa cidade, chegando a 57,74% da população. Agora só precisamos aguardar a confirmação destes números, pois a grande quantidade de igrejas que surgiram por aqui nos últimos anos parece confirmá-los. Estes dados que passei e outros mais estão disponíveis no site de pesquisas da Sepal.

Vagner: “Feliz a nação cujo Deus é o Senhor”, escreveu o salmista Davi (Salmos 33:12). A julgar pela quantidade de templos cristãos instalados em nossa cidade era para São Gonçalo então ser uma benção, mas segundo o senhor, não é essa a nossa realidade. Como ministro da Palavra de Deus, imagino que deva ser frustrante para o senhor constatar que a observação de Davi não se aplica a nossa realidade, não?

Pastor Alan: Frustrante, porque confirma o fato de que ser evangélico não significa necessariamente ser um cristão genuíno. Uma coisa é ser discípulo de Cristo, outra, muito diferente, é ser discípulo de cristianismo. O que percebo é que existem muitos discípulos de cristianismo, mas poucos discípulos de Cristo. Não basta apenas dizer que Jesus é o Senhor dessa nação, é preciso submeter-se ao seu senhorio. Mas poucos estão realmente dispostos a isso. Somente quando a maioria dos brasileiros estiver praticando os ensinamentos de Jesus é que nossa nação será realmente feliz.

Vagner: Em seu texto o senhor afirma que a maioria dos cultos em São Gonçalo é voltado para o homem e não para Deus. E que as igrejas daqui disputam os membros, tal como as lojas disputam a clientela. Mas essa também não tem sido a realidade, quase que geral, da igreja evangélica brasileira?

Pastor Alan: Sim, é o que me parece. Como escrevi em outro artigo, São Gonçalo serve apenas como exemplo do que mudará em nosso país quando a maioria dos brasileiros for evangélica, ou seja: quase nada. A menos que os evangélicos voltem a pregar o verdadeiro evangelho pregado por Cristo e pelos apóstolos, o qual é muito diferente da pregação materialista e egocêntrica que tem predominado nos púlpitos.

Vagner: Pastor, diante da crescente secularização, do mercantilismo exacerbado, do aumento da idolatria e do sincretismo de crenças pagãs, fatos esses cada vez mais presentes no meio evangélico, a igreja ainda tem autoridade para criticar o “mundo” e apontar os defeitos dos outros?

Pastor Alan: Não é nossa missão criticar o mundo e apontar os defeitos dos outros. Fazer isso é um equívoco. A missão da igreja é alertar o mundo de sua iminente condenação ao inferno e apontar Jesus Cristo como único salvador e mediador entre Deus e os homens, a fim de que sejamos salvos e transformados, para vivermos em amor, segundo a sua vontade. Mas, lamentavelmente, grande parte da igreja evangélica está se deixando influenciar pelo que foi mencionado na pergunta, o que a fez desviar-se de seu propósito.

Vagner: Uma nova tendência evangélica vem sendo observada há algum tempo. Segundo uma pesquisa do IBGE, publicada pela Folha de São Paulo, a proporção de fiéis sem ligação direta com denominações foi de 4% para 14%, de 2003 a 2009. Um salto de 4 milhões de pessoas. Na sua opinião, as igrejas midiáticas são responsáveis por esse comportamento descompromissado de uma parcela dos evangélicos contemporâneos?

Pastor Alan: Em parte, sim. É o chamado fenômeno dos “desigrejados”. Mas não que os evangélicos estejam trocando suas igrejas pelos pregadores da TV. Na realidade, o aumento do número de crentes desigrejados é conseqüência direta da perda de fidelidade da igreja para com o verdadeiro evangelho. Apesar de não existir igreja perfeita, a igreja evangélica atual tornou-se insuportável para cristãos amadurecidos, que não concordam que o culto seja um show, que o altar seja um palco, que o pastor seja um animador de auditório, ou que o púlpito seja um balcão de negócios. Mas, como a maioria das igrejas que estão na mídia são assim, elas têm sua parcela de culpa nisso; além de ser má influência para outras igrejas, as igrejas midiáticas ainda propagam a ideia de que todas as demais igrejas evangélicas sejam como elas, o que não é verdade. Ou seja: ao invés das pessoas deixarem de ir à igreja para assistir programas evangélicos na TV, esses programas estão afastando da igreja as pessoas que estão em busca de crescimento espiritual, mas que viram suas igrejas se transformarem no modelo de igreja apresentado na mídia. Isso tem ocorrido muito. Tenho contato com vários evangélicos que passaram por isso e agora estão tentando buscar a Deus por conta própria.

Vagner: Diante dessa complexidade e de outros desafios que a doutrina cristã evangélica vem enfrentando, qual será o futuro da igreja e que papel ela deve exercer hoje na sociedade?

Pastor Alan: Há um único caminho para que a igreja evangélica se salve: voltar a pregar o genuíno evangelho. A pregação é o leme que conduz a igreja. Se os pregadores voltarem a pregar o que as pessoas precisam ouvir para serem salvas, transformadas, e não o que elas gostariam de ouvir para serem prósperas, teremos uma igreja forte, que causará impacto positivo na sociedade. Do contrário, o futuro da igreja evangélica poderá ser sombrio, com cada vez mais escândalos e fragmentações, até que por fim se extinguirá. Jesus mesmo disse que “um reino dividido contra si mesmo não poderá subsistir”. Mas não creio que tenhamos esse fim. É cada vez maior a reação dentro do próprio meio evangélico e tenho certeza de que esse mover é algo da parte de Deus. E, agindo Deus, quem impedirá?

Vagner: E no campo político, como deve se posicionar?

Pastor Alan: Não podemos esquecer que a igreja é formada por pessoas, pessoas que, supostamente, são convertidas a Cristo. Portanto, cada cristão deve se posicionar politicamente segundo os ensinamentos de Jesus Cristo, e não segundo os interesses de qualquer denominação evangélica. Por exemplo, eu não devo votar em alguém apenas porque tal candidato é de minha denominação, mas preciso analisar se ele tem capacidade para resolver as demandas do cargo e se é o melhor para nossa nação. Do contrário, podemos estar elegendo alguém que não fará bem ao próximo, contrariando o que Jesus nos ensinou. Aproveito para esclarecer que a candidatura de pastores ou bispos a qualquer cargo político é um equívoco, pois se trata de uma traição ao seu chamado ministerial. Um pastor que não conseguiu se manter fiel ao chamado de Deus em sua vida jamais se manterá fiel ao povo brasileiro. Mas sou favorável à candidatura de qualquer cristão que não seja pastor.

Vagner: Recentemente, numa entrevista a revista Época, o polêmico pastor Silas Malafaia disse que todo governante agora terá de dizer em que princípios acredita. O senhor não acha que as questões religiosas estão se tornando intransigentes demais num Estado laico? Que os evangélicos deveriam se preocupar mais em combater a corrupção, exigir mais investimentos nas áreas da saúde, educação, segurança pública, empregos e transportes do que ficar discutindo a observação das doutrinas da igreja?

Pastor Alan: Com certeza, não somente os evangélicos, mas todo cidadão deve exigir o fim da corrupção e suas conseqüências. Quanto em separar a política das questões religiosas, penso que isso seja difícil por pelo menos dois motivos: primeiro, porque a política é feita por pessoas e para pessoas – e estas, geralmente, têm alguma religião; segundo, porque as questões polêmicas nem sempre são apenas religiosas, mas também de ordem moral, o que vai muito além do âmbito religioso. Neste sentido, não somente os pastores, mas qualquer pessoa influente deveria se sentir no dever de alertar os cidadãos acerca de qualquer candidato que defenda princípios imorais, que ameacem o bem estar de nossa sociedade. No entanto, considero sim um equívoco discutir a observação de doutrinas da igreja na política. Mas, devo enfatizar, questões morais podem ser facilmente confundidas com doutrinas religiosas.

Vagner: Outro pastor que sempre causa polêmica com seus posicionamentos teológicos e seculares é o Ricardo Gondim. Uma declaração dele defendendo a regulamentação de uniões homoafetivas no Brasil causou muito bochicho no meio evangélico. Numa entrevista ao jornal O Povo, de Fortaleza, o assembleiano explicou o seu pensamento: “Não é uma questão de pensamento. É uma questão de lógica e eu repito o que disse. Em um estado laico, a lei não pode marginalizar ou distinguir homens ou mulheres que declarem homoafetivos. Há que se entender que num estado laico não podemos confundir teologia, convicções pessoais, com ordenamento de leis de um país. Não podemos impor preceitos religiosos para toda a sociedade civil. Se os preceitos são meus, você tem o direito de não adotá-los. Foi assim que me posicionei sobre essa questão do STF, que a meu ver, agiu corretamente garantindo o direito de um segmento de nossa sociedade”, disse. O senhor concorda com a visão de Gondim ou acha também que ele se tornou um herege, como alguns pastores o classificam?

Pastor Alan: Não considero o Ricardo Gondim um herege. Para ser um herege ele precisaria ter negado a Jesus como único Senhor e Salvador, o que não foi o caso. Mas, por outro lado, não concordo com essa visão de Gondim. O fato de o estado ser laico não significa que tenhamos que concordar com todas as suas decisões. E, particularmente, não concordo com a regulamentação de uniões homoafetivas. Primeiro, porque se trata de uma questão moral, que ultrapassa o âmbito religioso. Não é somente um preceito desta ou daquela religião, como afirmou Gondim, de maneira que ninguém precisa ser evangélico, ou católico, para discordar da prática homossexual. No entanto, qualquer tipo de ofensa ou violência contra homossexuais é totalmente inaceitável. As pessoas são livres para viver do jeito que bem entenderem, assim como somos livres para discordar de qualquer decisão imposta pelo governo.

Vagner: Outro assunto controverso é a questão do aborto. As feministas afirmam que nenhuma mulher defende o aborto como método contraceptivo, pois considera também essa uma forma violenta, mas, sim, uma legalização da prática como um trabalho de sustentação aos direitos reprodutivos e sexuais da mulher. Qual é a posição do senhor sobre a descriminalização do aborto?

Pastor Alan: O aborto é outra questão que ultrapassa o âmbito religioso. A ciência e a consciência já são suficientes para definir minha posição. Se, por um lado, a ciência nos mostra que o feto não é extensão do corpo da mulher, mas que já é um ser humano, que reside temporariamente no útero de sua mãe; por outro, nossa própria consciência atesta que tirar a vida de um ser humano inocente é um crime. Ora, o feto é um ser humano inocente. Portanto, independente de questões religiosas, sou contra a descriminalização do aborto.

Vagner: Voltando a entrevista da Época, o Malafaia também observou que o governante terá que botar a cara “porque a comunidade evangélica está bem esperta, madura. Não vai dar para ficar em cima do muro”. O senhor acha que a comunidade evangélica está mesmo madura politicamente? Pois o que se observa por aí é que tem muita gente ainda seguindo a opinião de seus líderes sem nenhum senso crítico...

Pastor Alan: Não creio que a comunidade evangélica esteja madura politicamente. Mas a falta de senso crítico não é um problema existente apenas no meio evangélico. Grande parte do povo brasileiro ainda não aprendeu a votar. Portanto, esse é um problema generalizado, que ocorre tanto dentro quanto fora da igreja.

Vagner: Já presenciei alguns pastores utilizando-se de textos bíblicos para influenciar os fiéis a favor de seus candidatos (acordos políticos). As passagens mais usadas são: “Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as que existem foram ordenadas por Deus. Por isso quem resiste à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si a mesma condenação.” (Romanos 13:1,2) e “Adverte-lhes que estejam sujeitos aos governadores e autoridades, que sejam obedientes, e estejam preparados para toda boa obra, que ninguém infamem, nem sejam contenciosos, mas moderados, mostrando toda a mansidão para com todos os homens.” (Tito 3:1,2). Como vê essas manipulações políticas com a Palavra de Deus e como trata as questões políticas com os membros de sua igreja?

Pastor Alan: Usar a Palavra de Deus para fazer chantagem política é algo abominável. Em nossa igreja procuro deixar claro que cada um deve votar conscientemente, analisando o histórico de cada candidato, bem como sua capacidade para exercer o cargo a que se propõe. Jamais coagimos ninguém a votar em qualquer candidato, assim como não permitimos que se faça do altar um palanque político. Quanto aos versículos citados, eles não têm qualquer ligação com eleições políticas, mas tratam de obediência a autoridades que existem para manter a ordem pública. Mas, lamentavelmente, alguns impostores, que se dizem pastores, retiram textos de seus contextos, a fim de manipular a decisão dos membros de sua igreja.

Vagner: E quanto a questão da intolerância religiosa, como trata esse assunto? O que achou da polêmica envolvendo a demolição do imóvel que sediou o primeiro centro de umbanda do país, localizado aqui em São Gonçalo?

Pastor Alan: A intolerância religiosa é totalmente improdutiva. Ninguém se converte a Cristo porque foi maltratado por um cristão. Como eu disse antes, uma coisa é ser discípulo de cristianismo, outra, muito diferente, é ser discípulo de Cristo. Discípulos de cristianismo se esforçam por defender as doutrinas de sua denominação cristã, até mesmo com ofensas e injúrias contra seus próprios irmãos. Discípulos de Cristo preferem se esforçar na prática daquilo que Jesus ensinou, sobretudo em amar ao próximo como ele nos amou, tratando seu semelhante da mesma forma como gostariam de ser tratados. Quanto à demolição daquele imóvel, penso que os evangélicos não devem se envolver nesta questão, pois derrubar tijolos não fará ninguém deixar a umbanda.

Vagner: Falando agora de uma outra polêmica: é sabido que os blogs apologéticos vêm incomodando muita gente no meio evangélico. Há pouco tempo, o pastor Silas Malafaia (ele de novo. rs) chamou todos os blogueiros que o criticam de filhos do diabo. Preocupado com os prejuízos financeiros, as ofertas começaram a minguar pela TV, decidiu então lançar o portal Verdade Gospel, como forma de se defender dos ataques dos irmãozinhos questionadores. O senhor, que também tem um blog, como tem visto essa influência dos blogueiros que defendem a verdade da doutrina cristã? O retorno tem sido positivo? Esses blogs podem contribuir para uma nova reforma da igreja?

Pastor Alan: A igreja não necessita de uma nova reforma, mas de um simples retorno ao evangelho. E, sem dúvida, alguns blogs têm contribuído muito para esse caminho de volta. No entanto, tenho duas coisas a lamentar nesse processo. Primeiro, lamento que alguns blogueiros de linha reformada estejam se aproveitando de nossas falhas para buscar um retorno ao calvinismo, e não simplesmente ao evangelho. A solução para os problemas da igreja evangélica não é Calvino, mas Jesus Cristo. E, segundo, lamento mais ainda os ataques verbais utilizados por certos blogueiros, que se dizem cristãos, mas que contrariam os ensinamentos de Cristo ao valer-se de xingamentos e difamações. Porém, nada disso justifica chamar esses blogueiros de “filhos do diabo”. Jesus nos ensinou a orar pelos que nos perseguem e não a condená-los ao inferno.

Vagner: Há também um movimento pela ética evangélica, que vem promovendo protestos em eventos gospel (principalmente nas marchas para Jesus) e também em frente aos templos suntuosos com faixas que dizem que “O show tem que parar!”. Qual é a sua opinião sobre esse movimento? Apoia o discurso deles?

Pastor Alan: Apoio totalmente. Este é um movimento pacífico, que busca despertar os evangélicos para o verdadeiro evangelho. Até já lhes enviei um e-mail, pedindo que me comuniquem quando houver algum protesto em São Gonçalo, pois também quero vestir essa camisa. Jesus deixou bem claro que “a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui”, mas esse tipo de mensagem é omitida por muitos pastores, uma vez que contraria a teologia da prosperidade adotada por eles. Isso já foi longe demais. Com certeza, esse $how tem que parar!

Vagner: A sua denominação chama-se Igreja Bíblica Cristã. Com esse sugestivo nome, imagino que a congregação deva dar bastante atenção ao estudo da Bíblia, não? Fale um pouco do ministério de sua igreja.

Pastor Alan: Devo confessar que nem sempre fui cuidadoso em conduzir nossa igreja segundo a palavra de Deus. Apesar do sugestivo nome, cometi quase todos os erros que hoje aponto existir na igreja. Somente de três anos pra cá fui despertado para o fato de que o modelo de igreja vigente não é bíblico e nem cristão. Desde então tenho procurado transmitir essa verdade a todos que pastoreio, buscando retornar à pureza e simplicidade devidas a Cristo. Não é tarefa fácil, pois hoje muitas pessoas procuram a igreja em busca do “ter” e não mais do “ser”. Mas a obra de Deus não se trata de fazer campanhas, eventos e atividades de entretenimento, mas de se praticar no dia a dia tudo quanto Jesus nos ensinou. A obra de Deus se trata de sermos novas criaturas, que vivam para Sua glória. Sendo assim, nosso ministério se concentra em formar verdadeiros discípulos de Cristo, que sejam reconhecidos por uma fé atuante, a qual se traduz na prática do amor ao próximo. Mas não basta somente o ensino bíblico. É fundamental a prática da oração e o exemplo pastoral, que fala mais alto que qualquer pregação.

Vagner: Em seu elogiado artigo, o senhor comenta que quem prega um evangelho puro e simples nessa cidade, só pode estar mesmo em missão e que a mais dura de todas as missões é evangelizar os próprios evangélicos. Por que é difícil evangelizar os evangélicos? Não deveria ser mais fácil, afinal de contas, eles já conhecem a Bíblia?

Pastor Alan: Os evangélicos que precisam ser evangelizados são aqueles que procuraram a igreja pelos motivos errados. Percebo que estes, atualmente, são a maioria. Se perguntarmos a alguém porque ele foi ao culto, geralmente sua resposta será: “fui buscar minha bênção.” Desta forma, as pessoas buscam a Jesus como a solução para seus problemas e não como a salvação de seus pecados. O culto, na maioria das igrejas, é voltado para os interesses do homem e não para se conhecer a vontade de Deus, que é nos transformar em seus verdadeiros filhos, à semelhança de Jesus Cristo. Trabalhar essa mudança de foco é muito difícil, especialmente quando se trata de evangélicos que passaram a vida inteira ouvindo pregações que enfatizam Jesus como solução para todos os seus problemas. Esse tipo de propaganda consegue resultados numéricos, pois o povo gosta de ouvi-la, mas não é a verdade bíblica. Uma coisa é andar com a Bíblia na mão, outra muito diferente é conhecer seus escritos, principalmente os escritos do Novo Testamento. Por isso a maioria dos evangélicos está sendo enganada, por não conhecer a Bíblia o quanto deveria, a começar pelo evangelho de Cristo. Mas estou certo de que, mais cedo ou mais tarde, a igreja despertará para o verdadeiro evangelho. E sei que contribuir para que isto aconteça é parte da minha missão nesta cidade.

Vagner: Hoje está fazendo 494 anos que o padre Martinho Lutero afixou, na porta da igreja do Castelo de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517, as suas 95 teses questionando as práticas inadequadas da Igreja Católica, nas quais resultaram na Reforma Protestante. Analisando o cenário atual da igreja evangélica, certos aspectos não lembram a realidade católica que Lutero condenou na época, como a venda de bençãos (indulgências) e a secularização (paganismo), por exemplo?

Pastor Alan: Lamento dizer que sim. A igreja evangélica distanciou-se muito dos princípios da reforma e, por conta disso, enfrenta uma séria crise de identidade. O pior é que muitos ainda não se deram conta disso. Aliás, muitos pastores nem sequer conhecem aqueles que foram os cinco pilares da reforma: somente a Bíblia, somente Cristo, somente a graça, somente a fé, e somente a Deus seja a glória. O simples retorno a estes princípios bastariam para trazer a igreja de volta ao rumo correto. Escrevi a respeito disso em meu blog, no artigo intitulado “Não precisamos de uma nova reforma, precisamos de um simples retorno”.

Vagner: Por que a data que homenageia a Reforma Protestante (31 de outubro) não é celebrada festivamente pelas igrejas evangélicas brasileiras? Não seria uma oportunidade excelente para promover a reflexão sobre a fé pura e genuína em Jesus Cristo, proposta essa defendida enfaticamente por Lutero?

Pastor Alan: Na verdade, a fé pura e genuína em Jesus Cristo deveria ser pregada e ensinada sempre, não apenas em 31 de Outubro. Se grande parte das igrejas não está fazendo isso no decorrer do ano, como refletir numa data que traria constrangimento e vergonha? Essa é a razão pela qual a maioria das igrejas não pode celebrar festivamente tal data.

Vagner: Pastor Alan, muito obrigado pela sua entrevista! Que o senhor seja vitorioso em seu trabalho evangelístico e que a nossa cidade possa ser verdadeiramente abençoada!

Pastor Alan: Eu é que agradeço pela oportunidade. E peço a Deus que abençoe cada dia mais sua vida e o Território Gonçalense, a fim de que este site continue sendo um canal de bênção para o povo de nossa cidade. E a Deus seja a glória!

Vagner: Amém!

Pastor Alan com a esposa Rosa e os filhos Gabriel e Filippe

4 comentários:

disse...

Muito boa a entrevista Alan, pelo o que te conheço já a algum tempo, não poderia ser diferente.Que Deus continue abençoando sua vida e sua Comunidade de fé, você é prova viva de que podemos mudar este cenário que vivemos hoje dentro dos Templos, sem precisarmos fugir dele. Paz meu querido!

Alan Capriles disse...

Que bom você ter lido, Rô! Também gostei do seu comentário, especialmente do final. Realmente, a solução não é fugir dos templos, mas sermos, de fato, o templo do Espírito Santo. Deus lhe abençoe cada dia mais!

Graça e paz!

Silvio disse...

Meus sinceros e profundos parabéns pela linda entrevista pastor Alan!

Alan Capriles disse...

Olá, Silvio!

Agradeço pelo incentivo e glorifico muito a Deus pela oportunidade desta entrevista, que me ajudou a esclarecer algumas questões importantes de nossa fé.

Um forte abraço,
na graça e paz do Senhor Jesus!