segunda-feira, 21 de abril de 2014

CONFESSA COM A TUA BOCA

A ESTRANHA DOUTRINA DO CONFESSIONALISMO


Por Alan Capriles

Confessionalismo é a doutrina cristã segundo a qual uma pessoa só será salva se confessar com sua boca que Jesus é o Senhor. Ainda que essa definição não seja encontrada facilmente nos livros teológicos, o confessionalismo costuma ser ensinado na prática, ocorrendo na maioria das igrejas evangélicas, culto após culto. Ao término de cada pregação geralmente é feito o apelo, momento onde aqueles que decidiram entregar suas vidas a Jesus são convidados a se aproximar do pastor; este os conduzirá a repetir uma oração na qual os novos crentes devem declarar que Jesus é o Senhor. Após essa suposta confissão a pessoa geralmente é informada que a partir de agora o seu nome está escrito no livro da vida – simplesmente porque ela “confessou” Jesus – e toda a igreja se alegra com isso. Se a pessoa retornará à igreja, isso já é outra história...

O fato é que esse tipo de apelo, tão comum nos cultos evangélicos, não tem a menor base bíblica. Não encontramos uma só passagem nos evangelhos, ou no livro de Atos, que nos mostre alguém levantando a mão, ou indo à frente para aceitar Jesus e muito menos precisando repetir uma oração desse tipo para ser salvo. O próprio Cristo nunca exigiu tal coisa. E por que não há passagens assim? Simplesmente porque tal doutrina não existe nos escritos do Novo Testamento.

Aqueles que tentam justificar o confessionalismo costumam valer-se de passagens bíblicas que aparentemente confirmariam tal prática, mas um simples exame exegético e histórico desmente essa interpretação moderna. Digo moderna porque a mania de se fazer apelo e de se considerar salvo quem repetiu uma oração tornou-se difundida somente a partir do século passado, quando o ensino secular do pragmatismo contaminou as igrejas, passando a ser adotado por um número crescente de evangelistas e pastores. [1]

A passagem bíblica mais usada para se justificar o confessionalismo encontra-se na carta de Paulo aos Romanos: 

“Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação.” (Romanos 10:9,10)

Se, com a tua boca, confessares... Mas, qual é mesmo o significado de confessar? Por que Paulo teria usado esse termo, e não outro mais apropriado, como declarar, ou dizer? Quem confessa, confessa alguma coisa a alguém que o está pressionando, pois, do contrário, não seria uma confissão, mas uma simples declaração. Confessar é um termo jurídico, que carrega consigo a ideia do reconhecimento de um crime. Sendo assim, de qual crime Paulo estaria falando? Ora, do crime de ser cristão. 

Paulo escreveu suas epístolas numa época em que os cristãos já começavam a sofrer perseguição por parte do Império Romano, o qual exigia que se prestasse culto a César. Não fazê-lo era considerado crime de sedição. Sendo assim, era de se esperar que Paulo procurasse encorajar os discípulos através de suas cartas, especialmente aqueles que viviam em Roma, capital do Império, onde o risco era muito maior. Os cristãos romanos viviam na expectativa de que, mais cedo ou mais tarde, seriam descobertos e levados ao tribunal para dar explicações: “Por que vocês deixaram de acender incensos a César? Por acaso se tornaram cristãos? Se vocês negarem a Cristo como Senhor e cultuarem a César, estarão livres. Mas serão condenados à morte se confessarem o crime de ter a Jesus como Senhor.”

E milhares foram condenados à morte por causa dessa confissão, tornando-se os primeiros mártires da igreja – cristãos realmente convertidos a Cristo, que preferiam morrer a ter que negá-lo como Senhor de suas vidas.

Percebe a diferença? Naquela época ninguém dizia ser cristão da boca pra fora. Não se brincava com isso, pois o custo de tal brincadeira poderia ser a condenação à morte pela espada, ou ainda de forma pior: queimado numa fogueira, lançado aos leões, ou crucificado como Jesus. Por isso Paulo fez menção à ressurreição dentre os mortos na referida passagem aos Romanos, porque ele sabia que aqueles crentes pagariam com a vida por sua confissão. Na mesma epístola encontramos ainda outras passagens que revelam o intenso grau de perseguição e morte que sofriam aqueles cristãos:

“Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?  Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro.” (Romanos 8:35-36)

O mesmo ainda ocorre hoje nos países onde há forte perseguição ao evangelho. Conheço um missionário que há anos evangeliza um nigerino, o qual só não assumiu sua fé em Cristo porque sabe as consequências que sua decisão trará, a começar pela perda de sua família e emprego. Em países como o Níger, onde predomina o islamismo, converter-se a Cristo pode significar a sentença de morte. 

Algo muito diferente ocorre no Brasil, onde qualquer um pode dizer publicamente “Jesus é o Senhor.” Mas dentro de um contexto de perseguição, como era o caso dos primeiros cristãos, ninguém poderia fazer tal declaração, a não ser que fosse realmente convertido. E de onde provinha tamanha intrepidez? Para os apóstolos estava claro que a coragem para tornar-se um mártir não se originava deles mesmos, mas do Espírito Santo, razão pela qual Paulo também escreveu que “ninguém pode dizer: Senhor Jesus! – senão pelo Espírito Santo.” (1Coríntios 12:3)

Mas versículos como esse, que acabamos de recordar, aplicam-se apenas dentro de um contexto de perseguição. Em nosso país ninguém necessita ser encorajado pelo Espírito Santo para dizer que Jesus é o Senhor. Lembro-me de um amigo que tive na juventude, o qual tendo visto uma enorme placa com a inscrição “Confessa com a tua boca que Jesus Cristo é o Senhor” perguntou-me o que aquilo significava. Eu era recém-convertido e lhe expliquei do modo como me haviam ensinado na época: que se ele confessasse Jesus como Senhor ele seria salvo. Então meu amigo deu de ombros e disse “Jesus Cristo é o Senhor”. Mas aquilo soou como algo vazio, sem nenhum comprometimento. Ele não precisou do Espírito Santo para dizer aquilo. Prova disso é que ele nunca se converteu. Recentemente vim saber que a última notícia que tiveram dele é que estava internado numa clínica para dependentes químicos.

A despeito de inúmeros casos como esse, persiste no meio evangélico a crença de que alguém se torna instantaneamente salvo se disser que Jesus é o Senhor. Ora, meramente dizer isso não prova a conversão de ninguém. Ao menos, não em lugares onde isso não precisa ser confessado, ou seja, onde não é crime ser cristão. Em outras palavras: 

Todo cristão dirá que Jesus é o Senhor, 
mas nem todos que o dizem realmente se converteram a Cristo.


Obviamente, a conclusão acima não se aplica em países onde há perseguição ao evangelho. Nesses lugares a declaração pública de que Jesus é o Senhor já basta como evidencia de uma real conversão, devido ao custo que tal declaração acarreta. Ora, a perseguição foi o ambiente histórico no qual as epístolas foram escritas e por essa razão encontramos passagens afirmando a salvação daqueles que declararem a Jesus como Senhor. 

Sendo assim, o que ocorre após o apelo nas igrejas não é uma confissão, mas apenas o repetir de uma oração. Se tal oração expressa uma conversão genuína, isso é difícil de ser avaliado. Por inúmeras vezes presenciei pessoas repetirem a frase “Jesus Cristo é o meu Senhor” e depois nunca mais retornarem à igreja. Por outro lado, há casos em que essa oração foi sincera, expressando um verdadeiro comprometimento com Jesus e seu evangelho.

Esse comprometimento é que expressa o real sentido da fé.[3] De fato, Jesus não exigia que o chamassem de Senhor, mas almejava que seus discípulos vivessem segundo seus ensinamentos. E isso é o que verdadeiramente importa: quem somos e não somente o que dizemos. [4]

Portanto, devemos assumir uma posição de cautela em relação ao confessionalismo. Se por um lado a declaração da frase “Jesus é o Senhor” não deve ser considerada como evidência de salvação, por outro, não devemos julgar a sinceridade daqueles que a repetiram no suposto momento de conversão. Somente Deus conhece o coração do homem. O fato é que a evidência da salvação virá depois, por meio de uma vida que, espelhada em Cristo, reflita o amor de Deus - não somente em palavras, mas principalmente em ações. 
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NOTAS
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[1] O pragmatismo é o conceito que exalta os resultados, ou seja, onde os fins justificariam os meios. Para o pragmático, não importa o que é certo, mas o que dá certo. 

[2] A seguir, transcrevo outras passagens que costumam ser usadas como base para a prática do confessionalismo. Perceba que minha explicação aplica-se a qualquer um dos versículos abaixo, especialmente no que contém a frase de Jesus, dita dentro de um contexto onde ele falava a respeito da perseguição que viria (Mateus 10:16-34)
“Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus” (Mateus 10:32 e Lucas 12:8)
“Todo aquele que nega o Filho, esse não tem o Pai; aquele que confessa o Filho tem igualmente o Pai.” (1João 2:23)
“Aquele que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele, em Deus.” (1João 4:15)
[3] Insisto que o leitor confira o texto "A crucial diferença entre crer e ter fé”, no qual esclareço o verdadeiro sentido do termo fé, bem como as terríveis consequências da perda do seu significado original.

[4] Acerca disso, vale a pena meditar nas seguintes passagens dos evangelhos: Mateus 7:21-23; 21:28-32; Lucas 6:46.
Alan Capriles

Um comentário:

Evandro Ribeiro disse...

Pastor Capriles, mais uma vez obrigado por abençoar minha vida com este compartilhamento de conhecimento regado a discernimento e uma Boa teologia bíblica. Deus continue te dando saúde e sabedoria. Paz e graça!