terça-feira, 3 de setembro de 2013

"O BOM SAMARITANO" OU "O BOM TRAVESTI"

Por Rubem Alves [1]

E perguntaram a Jesus: "Quem é o meu próximo?" E ele lhes contou a seguinte parábola:

Voltava para sua casa, de madrugada, caminhando por uma rua escura, um garçom que trabalhara até tarde num restaurante. Ia cansado e triste. A vida de garçom é muito dura, trabalha-se muito e ganha-se pouco. Naquela mesma rua dois assaltantes estavam de tocaia, à espera de uma vítima. Vendo o homem assim tão indefeso saltaram sobre ele com armas na mão e disseram: "Vá passando a carteira". O garçom não resistiu. Deu-lhes a carteira. Mas o dinheiro era pouco e por isso, por ter tão pouco dinheiro na carteira, os assaltantes o espancaram brutalmente, deixando-o desacordado no chão.

Às primeiras horas da manhã passava por aquela mesma rua um padre no seu carro, a caminho da igreja onde celebraria a missa. Vendo aquele homem caído, ele se compadeceu, parou o caro, foi até ele e o consolou com palavras religiosas: "Meu irmão, é assim mesmo. Esse mundo é um vale de lágrimas. Mas console-se: Jesus Cristo sofreu mais que você." Ditas estas palavras ele o benzeu com o sinal da cruz e fez-lhe um gesto sacerdotal de absolvição de pecados: "Ego te absolvo..." Levantou-se então, voltou para o carro e guiou para a missa, feliz por ter consolado aquele homem com as palavras da religião.

Passados alguns minutos, passava por aquela mesma rua um pastor evangélico, a caminho da sua igreja, onde iria dirigir uma reunião de oração matutina. Vendo o homem caído, que nesse momento se mexia e gemia, parou o seu carro, desceu, foi até ele e lhe perguntou, baixinho: "Você já tem Cristo no seu coração? Isso que lhe aconteceu foi enviado por Deus! Tudo o que acontece é pela vontade de Deus! Você não vai à igreja. Pois, por meio dessa provação, Deus o está chamando ao arrependimento. Sem Cristo no coração sua alma irá para o inferno. Arrependa-se dos seus pecados. Aceite Cristo como seu salvador e seus problemas serão resolvidos!" O homem gemeu mais uma vez e o pastor interpretou o seu gemido como a aceitação do Cristo no coração. Disse, então, "aleluia!" e voltou para o carro feliz por Deus lhe ter permitido salvar mais uma alma.

Uma hora depois passava por aquela rua um líder espírita que, vendo o homem caído, aproximou-se dele e lhe disse: "Isso que lhe aconteceu não aconteceu por acidente. Nada acontece por acidente. A vida humana é regida pela lei do karma: as dívidas que se contraem numa encarnação têm de ser pagas na outra. Você está pagando por algo que você fez numa encarnação passada. Pode ser, mesmo, que você tenha feito a alguém aquilo que os ladrões lhe fizeram. 

Mas agora sua dívida está paga. Seja, portanto, agradecido aos ladrões: eles lhe fizeram um bem. Seu espírito está agora livre dessa dívida e você poderá continuar a evoluir." Colocou suas mãos na cabeça do ferido, deu-lhe um passe, levantou-se, voltou para o carro, maravilhado da justiça da lei do karma. [2]

O sol já ia alto quanto por ali passou um travesti, cabelo louro, brincos nas orelhas, pulseiras nos braços, boca pintada de batom. Vendo o homem caído, parou sua motocicleta, foi até ele e sem dizer uma única palavra tomou-o nos seus braços, colocou-o na motocicleta e o levou para o pronto socorro de um hospital, entregando-o aos cuidados médicos. E enquanto os médicos e enfermeiras estavam distraídos, tirou do seu próprio bolso todo o dinheiro que tinha e o colocou no bolso do homem ferido.

Terminada a estória, Jesus se voltou para seus ouvintes. Eles o olhavam com ódio. Jesus os olhou com amor e lhes perguntou: "Quem foi o próximo do homem ferido?"

Rubem Alves
_______________________________

Minhas notas acerca desse texto:

[1] Não costumo postar textos de terceiros em meu blog, mas tive uma razão muito forte e pessoal para publicar essa crônica, obviamente baseada na parábola do Bom Samaritano. Por muitas vezes também contextualizei essa mesma parábola, substituindo a figura do sacerdote por um pastor, ou padre, e a do levita por um diácono, obreiro ou músico - dependendo dos ouvintes. Mas nunca pensei que eu mesmo seria provado com uma situação semelhante, a qual ocorreu somente poucas horas depois da leitura desse texto de Rubens Alves. Ao invés de um garçom, a vítima com a qual me deparei foi um jovem com problemas mentais, que estava encolhido numa fria calçada de Alcântara, em São Gonçalo. Com certa dificuldade ele nos contou que havia sido assaltado e espancado, mas não sabia dizer exatamente onde morava. Ele nos deu a entender que estava sofrendo há horas, mas somente após a nossa aproximação foi que outras pessoas também se achegaram. Uma delas foi muito prestativa e até parou um ônibus para pedir uma caneta ao motorista, já que o jovem não sabia dizer o número do telefone de casa, mas sabia "desenhá-lo". Graças a Deus o jovem tinha boa memória fotográfica e conseguimos entrar em contato telefônico com seu padastro, que nos explicou como levá-lo de volta para casa. Mas o que mais me impressionou não foi a comovente imagem do jovem especial sendo recebido pela família, mas um comentário feito pela senhora que nos ajudou a conseguir uma caneta - e que também nos emprestou seu celular. Quando o rapaz já estava para entrar em nosso carro, ela disse como num desabafo: "Desculpem, porque eu já tomei umas e outras... Mas o que adianta ser da igreja e não ajudar a quem precisa? Dá licença que eu vou tomar mais uma..." 

[2] Da postagem original, de onde copiei o texto, houve outros blogs que também o fizeram antes de mim. Nesses blogs percebi que alguns espíritas deixaram comentários negativos, dizendo que jamais um espírita faria isso. Meu ponto de vista é que Rubem Alves não quis criticar qualquer religião em si, pois todas que foram mencionadas no texto - católica, evangélica e espírita - pregam a prática do amor ao próximo. O que foi questionado em seu texto, bem como na parábola contada por Jesus, foi somente a religiosidade hipócrita, que faz da religião um fim em si mesmo e não o caminho para se chegar a um fim.

4 comentários:

José Carlos disse...

Bom dia a todos.

DEUS em sua magnitude instituiu os 10 mandamentos. Ai veio JESUS em seu resplandecer de glória e sintetizou os 10 mandamentos de DEUS em somente 01, O AMOR.

Para mim o amor é como a felicidade, parte do pressuposto de que são estados de Espírito. Você é feliz e ou ama, independente do que esteja vivendo ou do quanto é amado.

DEUS criou a Fé e o Amor, veio o homem e estragou tudo criando a religião e a religiosidade.

Por isto que me intitulo como um "protestante que protesta" contra todos estes dógmas e princípios instituídos pelos homens e que são totalmente contrários ao de DEUS.

Grande abraço.

HP disse...

Alan,

Que texto! Traz para o presente o impacto que Cristo causou ao contar a parábola.

Para a maioria que lê na Bíblia, não percebe o contexto social que havia na época. Samaritanos eram rejeitados por judeus, como hoje em dia travestis são rejeitados pela maioria da sociedade.

Daí o choque, a piedade falsa que habita em muitos de nós, que pregamos amor, misericórdia, perdão e compaixão, mas quando nos deparamos na realidade, acabamos por fazermos tudo ao contrário.

Que Deus te abençoe por compartilhar este texto. Fez muito bem à minha alma.

Grande abraço.
Henrique

João Carlos disse...

Alan, bom dia meu querido!!!

Muito legal compartilhar a aplicação prática do(s) texto(s). Estas oportunidades ocorrem diariamente mas, como somos falhos à enésima potência, passamos ao largo.

Deus te abençoe meu irmão!

JC

Levi Matheus disse...

E, por se "multiplicar a iniquidade"(*), o amor de muitos esfriará (Mat. 24:12). Este verso do Evangelho de Mateus toma sentido mais claro nos nossos dias, pois até o exercício da piedade - da caridade - fica comprometido por causa de tantas coisas ruins que vemos e ouvimos. Vou dar um exemplo disto: Algumas pessoas vinham até a minha casa para pedir ajuda alegando que as mesmas estavam passando por dificuldade (desempregados, com crianças passando fome etc.). Eu e minha esposa nunca negamos ajudá-los, mas ultimamente começaram a vir até a minha residência alguns indivíduos para pedir alimentos e estes vinham as vezes por dias seguidos (alguns estavam bêbados ou pior). Teve um deles que veio de manhã e eu lhe dei alguns víveres, mas à noite ele voltou pedindo dinheiro; quando lhe perguntei o que ele tinha feito com os alimentos que havia lhe dado, ele respondeu que os deixara numa "certa casa". O mesmo sujeito voltou outros dias com a mesma "ladainha sofredora"; o tal era um jovem aparentemente saudável, isto é, capaz de trabalhar, mas com algumas conversas esquisitas e uma tatuagem enorme na parte posterior da perna direita. Bem! Da última vez que ele voltou a mim e novamente pediu que o ajudasse, eu lhe disse: O que você fez com os alimentos que lhe dei? E acrescentei: Se você os deu para trocar por drogas, fique sabendo que sou crente e que tudo o que tenho é consagrado a Deus, e se você deu os alimentos a um traficante, Deus requererá isto de você. O indivíduo nunca mais voltou.
Percebem o que Jesus quis dizer de como a multiplicação da iniquidade seria a causa do esfriamento do amor ao próximo; pois é! Até fazer caridade em nossos dias está complicado, pois embora queiramos fazê-la, muitos espertalhões - "malandros" - se valem da compaixão dos cristãos para sustentarem seus vícios e as demais iniquidades. Portanto, meu conselho é que se faça caridade, mas onde se sabe que que há necessidade dela; e de agora em diante, quem aparecer em casa pedindo alguma ajuda eu lhe falarei do Evangelho, se ele ouvir e o receber, aí então o ajudarei materialmente.
(*) Multiplicar a iniquidade - estar em todos os lugares e de várias formas.