sábado, 24 de agosto de 2013

FÉ OU FUGA?

Por Alan Capriles

Recentemente ouvi a seguinte frase, proferida por um cristão bastante culto e pelo qual tenho respeito e consideração:
“Algumas pessoas tem dificuldade para crer que Jonas tenha sido engolido por um grande peixe. Mas ainda que estivesse escrito na Bíblia o contrário, que foi Jonas quem engoliu o grande peixe, e de uma só vez, ainda assim eu acreditaria.”
O que dizer a respeito disso? Não a respeito de Jonas, ou da pessoa que disse a referida frase, mas dessa crença (cega?) na literalidade das escrituras. 

Não estou aqui para julgar ninguém, mas confesso que fiquei incomodado com essa postura. Talvez porque me faça desconfiar que muitos cristãos pensem assim. Na realidade, o irônico disso tudo é que nem se trata de pensar, mas exatamente do contrário, trata-se de um total desprezo ao pensamento.

Ora, suponhamos que estivesse escrito na Bíblia que Jonas engoliu, de uma só vez, uma baleia inteira. Eu acreditaria nisso? Provavelmente não. Mas, se eu encontrasse alguma boa razão para isso estar escrito na Bíblia, com certeza eu acreditaria no ensinamento por detrás da escritura – ainda que eu duvidasse da sua literalidade.

Francamente, não considero que a crença na literalidade de todas as histórias bíblicas seja importante. Também não acho que acreditar nelas seja uma questão de fé. A não ser que fé seja o contrário da razão. Mas não penso que seja. Para mim, o contrário da razão não é a fé, mas a burrice. Com o perdão da palavra.

Essa crença cega nas escrituras, especialmente a crença de que tudo que nela está escrito realmente tenha acontecido, pode ser apenas uma fuga, uma distração para não se aprender os ensinamentos mais importantes da Bíblia. [1]

Por exemplo, mais importante do que acreditar que Adão, Eva e Noé realmente existiram é assimilarmos a verdade do ensinamento que está contido nessas histórias: o fato de que somos todos irmãos, independente das diferenças de cor, credo, ou nacionalidade. Pois lá no fundo, na raiz de nossa existência, viemos todos de uma mesma origem, somos uma grande família. E é isso que essas histórias bíblicas nos ensinam. Isso é que importa. No entanto, é muito mais cômodo discutir teologia (se Adão, Eva, ou Noé existiram, por exemplo) do que vivenciar o amor pelo próximo, não importando quem ele seja. 

Logo, esse tipo de crença pode se tornar uma fuga para não assumirmos nossa responsabilidade para com nosso próximo. Se eu passar a ler uma história bíblica somente como fato histórico, posso não perceber o ensinamento prático que há por detrás desse relato. Se ele de fato aconteceu ou não, isso é o que menos importa! O que realmente importa é o ensinamento, ou melhor, a nossa compreensão e prática desse ensinamento. [2]

Portanto, eu não acredito que algo seja literal somente porque está escrito na Bíblia. Mas, com certeza, creio que Deus nos ensina por meio de cada uma de suas histórias, tenham elas acontecido ou não. E isso sim, a prática do ensinamento divino, isso é o que eu chamo de fé - um verdadeiro exemplo de fé.

_______________________________

Nota:

[1] A própria história comprava isso. Ora, foram pessoas que pensavam assim que promoveram as Cruzadas, por exemplo, bem como a chamada Santa Inquisição. E, saindo das páginas da história para as páginas de um jornal, hoje em dia também nos deparamos com notícias de absurdos realizados em nome da fé. Mas, será que deveríamos chamar isso de fé?

[2] Recomendo fortemente a leitura de Três diferentes histórias... mas um só ensinamento, texto que comprova o fato de que mais importante que a literalidade das histórias bíblicas é a compreensão e prática do ensinamento que há nessas histórias.

Alan Capriles

6 comentários:

Apologeta disse...

Alan, bom dia!

Ao ler o seu artigo, saltou uma indagação que gostaria que respondesse:

Lucas menciona: "Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio, e foram ministros da palavra, pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelente Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio; Para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado." (Lucas 1:1-4)

Se a Bíblia não é verdade e suas histórias não são reais, porque crer nelas? Crer num Cristo inexistente não seria o mesmo que crer em Lobisomem? Qual a diferença entre um Jesus que não existe e uma mula sem cabeça? Não seria isso tornar a Bíblia uma fraude?

De acordo com Lucas essas FATOS SE CUMPRIRAM....

Apologeta

Alan Capriles disse...

Prezado Apologeta

É você quem está dizendo que "a Bíblia não é verdade e suas histórias não são reais". E ainda, sugerindo a possibilidade de um "Cristo inexistente". Nem de longe me passou isso pela cabeça. Tenho absoluta certeza que Cristo existiu (aliás, postei recentemente um artigo escrito por Bart Ehrman que comprova isso - quando puder, confira).

Sugiro que leia novamente meu texto e reflita em suas próprias considerações, que considerei por demais exageradas, com todo o respeito.

Deus lhe abençoe!

Apologeta disse...

Capriles, Boa Tarde!

Vamos às evidências:

1) "Francamente, não considero que a crença na literalidade de todas as histórias bíblicas seja importante. Também não acho que acreditar nelas seja uma questão de fé. A não ser que fé seja o contrário da razão. Mas não penso que seja. Para mim, o contrário da razão não é a fé, mas a burrice. "

Resposta: Se a crença na literalidade não é importante, porque crer, então? Se o que importa não é o relato, mas o ENSINAMENTO por trás do relato, não há motivos para se crer. Por que não crer no Alcorão, nos Vedas, Baghavad Gita, no Caminho Óctuplo do Budismo, por exemplo? Se o que está escito ali não é fato, mas sim: invenção, mentira etc. A Bíblia passa a ser um livro comum, como outro qualquer no qual não vale a pena dar a vida pelo que nele está escrito (aliás expressão essa usada por Jesus para afirmar a LITERALIDADE dos relatos contidos na Escritura)


2) "Essa crença cega nas escrituras, especialmente a crença de que tudo que nela está escrito realmente tenha acontecido, pode ser apenas uma fuga, uma distração para não se aprender os ensinamentos mais importantes da Bíblia."

Resposta: Isso não é crença cega ou fuga, mas submissão a Palavra de Deus que, como supremo tribunal que é, afirma a todo cristão que a Bíblia tem a última palavra sobre todas as verdades sobrenaturais. Foi asseverando a literalidade dos relatos bíblicos que Cristo afirmou: "Lembrai-vos da mulher de Ló" (Lucas 17:32). O ensinamento contido no texto é que não devemos apostatar da fé e voltar os olhos para Sodoma e Gomorra que representam o mundo anti-Deus, mas observe que Jesus recorre à literalidade do relato para trazer um grande ensinamento. Se não fosse verdade, para que recorrer ao mesmo? O Senhor também falava por parábolas, mas o que são parábolas? Uma das definições é esta:

"Histórias que se caracterizam por serem de certa forma curtas e objetivas. Elas têm o objetivo de transmitir ensinos e normalmente o fazem por meio de comparações, da explanação de FATOS REAIS e de elementos comuns à época em que foram escritas."

3) "Mais importante do que acreditar que Adão, Eva e Noé realmente existiram é assimilarmos a verdade do ensinamento que está contido nessas histórias: o fato de que somos todos irmãos, independente das diferenças de cor, credo, ou nacionalidade. Pois lá no fundo, na raiz de nossa existência, viemos todos de uma mesma origem, somos uma grande família."

Isso nada mais é do que ecumenismo, toleracionismo com aparência de piedade. Jesus NUNCA afirmou tal ensinamento, mas contundentemente declarou que a humanidade está dividida em salvos e perdidos.

Vejamos:

"Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem.” (Mateus 7:13-14)

Essa visão de ver o ensinamento por dentro do versículo como se estivéssemos em uma selva, retirando a mata que nos impede de avançar, não é uma visão bíblica, mas tem como fonte o liberalismo que despreza o fato e busca o ensinamento oculto ou coberto das passagens bíblicas.

Apologeta

Wendel Bernardes disse...

Olha Alan eu realmente fico me sentindo incomodado com alguns modismos em relação a fé, tanto com os novos modismos, quanto com os modismos ancestrais, que vem com a intenção de agregar á fé, valores folclóricos, ou de uma literalidade utópica.
na realidade NUNCA saberemos se um desses personagens realmente existiu usando as provas 'científicas ou pseudo-científicas'. Mas creio que o uso de uma fé sensata, aliada ao bom senso de entender que Deus é Deus independente do que os homens inventam (ou não) nos faz evoluir na certeza de que Cristo é a figura central das Escrituras, e que essa Figura é o Filho de Deus e por meio da Graça pode nos fazer novas criaturas.

Essa fé (focada e direcionada) nos mostra o caminho, e um caminho claro, simples e acessível ao Pai. Infelizmente as inúmeras perguntas (na maioria das vezes completamente irrelevantes) nos fazem perder tempo e deixar de lado coisas importantes.... Em tempo, não ví (lendo e relendo o seu) texto uma só citação que você não cria que Jesus era o filho de Deus e que não cresse nas Escrituras... Bom, desculpa o comment extenso...
Té mais!

Alan Capriles disse...

Irmão apologeta

Não tenho a pretensão de lhe fazer pensar como eu, ou seja, que a prática do ensinamento bíblico seja mais importante do que a crença na sua historicidade. Mas, como desconfio que eu tenha sido mal compreendido, apresento minha explicação para cada ponto que você relacionou em seu último comentário:

1) Reproduzo novamente a frase que você copiou de meu texto, mas enfatizando algumas palavras importantes:
"Francamente, não considero que a crença na literalidade de todas as histórias bíblicas seja importante. Também não acho que acreditar nelas seja uma questão de fé. A não ser que fé seja o contrário da razão. Mas não penso que seja. Para mim, o contrário da razão não é a fé, mas a burrice."
Percebeu? Trata-se da minha opinião, a qual escrevi em meu próprio blog. Desculpe, mas, sem querer ofender, não ligo a mínima se você não concorda com ela. Na verdade, não espero que meus leitores concordem com tudo que eu diga. Minha intensão é simplesmente fazê-los refletir - usar essa dádiva de Deus que é o raciocínio (e que Ele espera que usemos, do contrário não pensaríamos). No caso deste texto em particular, apenas enfatizo que eu não preciso crer na literalidade de todas as histórias bíblicas para ter fé em Deus. Ou seja, meu texto trata de algo pessoal. Se você precisa crer na literalidade bíblica para crer em Deus, isso é um particular seu e respeito seu ponto de vista.

2) Desculpe, mas nesse ponto não posso concordar com você. Antes de prosseguir, enfatizo que esse é o meu entendimento, não pretendo que você concorde comigo. Mas o fato é que já vivi tempo bastante para perceber que a crença cega nas escrituras na maioria das vezes é sim uma fuga. Por exemplo, as pessoas que mais defendem o literalismo bíblico (e gostam de discutir teologia) são também as que menos fazem algo de bom pelo próximo. Espero que não seja o seu caso, mas o fato é que muitos que se dizem apologetas estarão entre aqueles que ouvirão do Senhor: "tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo forasteiro, não me hospedastes; estando nu, não me vestistes; achando-me enfermo e preso, não fostes ver-me." (Mateus 25:42,43)
Lembra-se daquele intérprete da lei, que indagou a Jesus o que fazer para herdar a vida eterna? Conhecia tanto a letra, mas não praticava o amor ao próximo, que é a única forma de fazermos algo para Deus. Agora perceba que interessante: ao invés de Jesus lhe apontar a crença nas histórias bíblicas como fator crucial para ser salvo, o Senhor tão somente se limitou a dizer: "Faze isto e viverás" onde isto é a prática do amor ao próximo. (Lucas 10:28) Por falar nisso, aproveito para indicar a leitura da análise que fiz dessa passagem, onde fica mais do que comprovado que o ensinamento importa mais que exatidão histórica (por favor, leia): http://alancapriles.blogspot.com.br/2012/11/tres-diferentes-historias-mas-um-so.html

[continua...]

Alan Capriles disse...

[continuação]

3) Chame do "ismo" que quiser, mas o fato é que a história de Adão e Eva, assim como a de Noé, nos ensina isto: somos todos uma grande família. Na raiz da sua e da minha genealogia encontraremos o mesmo casal, do qual descende toda a humanidade. Quer você queria ou não, somos irmãos. Mas o seu comentário me faz crer que você não pensa assim, o que só fortalece a minha tese. A meu ver você caiu numa grande contradição, pois diz que crê na literalidade bíblica (logo, crê em Adão e Eva), mas nega que a humanidade seja uma grande família. O que é mais importante, crer que Adão e Eva existiram historicamente (assim como a cobra falante), ou vivenciar o ensinamento contido neste relato?

Quanto ao fato de haver pessoas perdidas, isso não significa que não sejamos irmãos, ou que não devamos conviver pacificamente (aliás, "bem-aventurados os pacificadores"!). E é claro que Jesus ensinou a tolerância, não só em palavras, mas especialmente por seu exemplo. Ou você nunca percebeu como o Senhor tratava os pecadores com amor, bem como os samaritanos com igualdade, como se esses fossem também judeus? Jesus nos ensinou a tolerância o tempo todo! A única coisa que o deixava extremamente irritado era a hipocrisia, principalmente a hipocrisia religiosa.

Quanto à sua conclusão, de que tenho uma visão semelhante a quem está "em uma selva, retirando a mata que nos impede de avançar" tomarei por elogio, na esperança de que todos nós avancemos em Cristo, crescendo sempre em sua graça e conhecimento, para a glória de Deus.

Agradeço por seus comentários.

Deus lhe abençoe!