domingo, 11 de agosto de 2013

DEUS NÃO PODE SER ASSIM



Por Alan Capriles

Conheci o vídeo acima através da minha professora de grego, que o exibiu para nossa turma no início da aula de hoje. Assim como as demais produções do grupo Porta dos Fundos, o vídeo "Deus" é bastante irônico e nos fez dar boas gargalhadas. Talvez ela quisesse apenas nos descontrair, uma vez que as notas da prova bimestral seriam entregues em seguida - e, de fato, estávamos tensos com isso! Ou talvez ela quisesse ir mais longe, nos levando a refletir um pouco.

O vídeo aborda questões religiosas muito interessantes e pertinentes, mas que, a princípio, talvez não sejam notadas. Provavelmente por isso a professora o tenha exibido duas vezes - a primeira para nos descontrair, mas a segunda para nos fazer questionar alguns (pre)conceitos teológicos. Não vejo outra razão para ela ter escolhido exibir justamente esse vídeo para uma turma que estuda o grego bíblico. Se esse era seu objetivo, conseguiu atingi-lo - ao menos comigo.

Não sei quem escreveu o texto do vídeo "Deus", mas reconheço que, além de muito bem desenvolvido, ele é perfeito para ilustrar algumas publicações minhas, especialmente o recente artigo intitulado Perguntas Incômodas.[1] Como tenho sugerido em algumas postagens, há muitas incoerências em todas as religiões, o que inclui as religiões cristãs e também o próprio meio evangélico. 

O fato é que o suposto deus do vídeo poderia não somente representar o deus dos polinésios, como também o deus de qualquer outra religião, inclusive a cristã.[2] Não digo isso no sentido de que Deus seja assim, mas justamente o contrário, para demonstrar que o verdadeiro Deus não pode ser assim. A despeito disso (mas concordando com esse vídeo cômico) muitos religiosos creem:
- que a salvação da alma depende do assentimento intelectual em determinada crença, o que muitas vezes resume-se à sorte de ter nascido no lugar certo, ou na família certa (no exemplo do vídeo, entre os polinésios) para se ter conhecimento dessa crença;
- que aqueles que nunca seguiram os dogmas da "crença correta" estão fatalmente perdidos (mesmo que jamais os tenha conhecido! "Mas eu não sabia...")
- que haverá uma punição absurdamente desproporcional para quem não acreditou nos dogmas da religião verdadeira ("Você vai arder... no infinito") [3]
- que Deus realmente fez acepção de pessoas, privilegiando um povo, ou denominação, e o incumbindo de salvar o restante da humanidade, mesmo que esses escolhidos sejam por demais seletivos e lentos para desempenhar tamanha tarefa ("...é um pessoal de tribo, mas eu tenho certeza que daqui a pouco a palavra vai chegar a todos os homens")
- que ser a favor do bem ou do mal não revela nada a respeito de quem você é, pois o importante é a sua crença (se você não crer corretamente irá padecer no mesmo lugar onde está Hitler, que, segundo o vídeo - e também muitos crentes- também deve ser o mesmo lugar onde estão queimando Einstein e Gandhi) 
Eu poderia ir um pouco mais fundo, mas considero que as premissas acima já são o bastante. Como se pode notar, por trás de cada uma delas existem dogmas inventados por homens. E são esses dogmas que geram a imagem de um deus caricato, semelhante ao que foi representado no vídeo. De fato, para muitas religiões, deus julgará com base nessas premissas, que são iguais às do suposto "deus polinésio". Mas, se você tiver o mínimo de bom senso, perceberá que Deus, o verdadeiro Deus, não pode ser assim. Ou pode?!

Por favor, leia novamente os pontos acima e reflita um pouco a respeito disso...

Bem, agora é com você. De nada adiantará eu me alongar. Ou você medita seriamente no assunto e revê alguns conceitos, ou finge que está tudo bem com suas crenças e foge pela tangente do ataque pessoal. Sendo assim, termino por aqui, alertando apenas que (assim como disse o deus polinésio) "errou feio - errou rude!" quem pensou que Deus pudesse ser assim.

____________________________

Notas:

[1] Devo esclarecer que meus comentários nada tem a ver com a menção que o vídeo faz a Silas Malafaia, cuja notoriedade mundial nem chega perto de Gandhi ou Madre Tereza de Calcutá, os quais também são citados na trama. Digo isso antes que alguém venha me apedrejar, pensando que escrevo a nível pessoal. Quem me conhece sabe que eu não me presto a esse papel.

[2] É importante que se faça uma distinção entre a religião que se diz cristã e aquilo que o Cristo de fato nos ensinou. Sugiro a leitura de meu artigo intitulado Discípulos de Cristo ou Discípulos de Cristianismo?, bem como a mensagem em áudio com o mesmo título - e que ainda é mais impactante.

[3] Por favor, não me julguem equivocadamente, e nem queiram me rotular, pois não sou universalista. 

Alan Capriles
10/Ago/2013

9 comentários:

Cláudio Nunes Horácio disse...

EXCELENTE! Nada a tirar e nem a acrescentar, perfeito!

Alan Capriles disse...

Valeu, Cláudio!

Um forte abraço, amigo!

HP disse...

Pastor Alan,

Eu compreendo teus pontos de reflexão.

Não quero que o irmão pense que estou te atacando, mas apenas meditando no que Jesus disse: "Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim." João 14:6

Se houver outro caminho para chegar ao Pai, Jesus mentiu.

Deus te abençoe.
Grande abraço.

Henrique

Alan Capriles disse...

Olá, Henrique!

Agradeço muito por seu comentário. Ele me dá a oportunidade de esclarecer algo importante em relação ao versículo que você mencionou, o qual se encontra no evangelho segundo João. Não é por acaso que esse evangelista tenha iniciado seu relato nos lembrando quem é o Jesus a respeito do qual ele estará se referindo em todo o seu evangelho (inclusive Jo 14:6) - Cristo é o Verbo (Palavra ativa de Deus) que se fez carne me Jesus. Mas o Verbo não está limitado ao Nazareno, pois "sem Ele nada do que foi feito se fez", logo Ele é eterno e sempre agiu neste mundo, mas revelou-se em sua plenitude na pessoa de Jesus de Nazaré.

O maior equívoco da teologia protestante (e também da católica, da qual aquela descende) foi separar a pessoa de Jesus dos seus ensinamentos, limitando a salvação ao conhecimento histórico da pessoa do Nazareno, quando na realidade a salvação está na prática do que o Cristo nos ensinou. Por isso Jesus questionava "Por que me chamais Senhor, Senhor e não fazeis o que vos digo?" A salvação está em fazer o que Ele diz, andar como Ele andou, em amor. Escrevi e preguei a respeito disso. Peço que, por favor, confira o seguinte link:

Áudio: http://alancapriles.blogspot.com.br/2013/05/o-que-significa-aceitar-jesus.html

Breve texto:
http://alancapriles.blogspot.com.br/2013/04/o-que-significa-aceitar-jesus.html

Durante muitos anos eu fui um cristão fundamentalista, que limitava a salvação ao conhecimento histórico da pessoa de Jesus, assim como muitos hoje acreditam. Usei várias vezes o versículo que você mencionou para provar isso. No entanto, lendo os próprios evangelhos me dei conta de que Jesus nunca nos ensinou isso! O problema é que interpretamos erradamente passagens tais como João 14:6. O que salva é o Verbo, a Palavra, quando esta permanece em nós. Sua Palavra se resume no amor ao próximo, que é a única forma de amar a Deus. Quem ama o próximo se arrepende de ter-lhe feito mal (e sem arrependimento não há salvação), quem ama o próximo perdoa seus erros (e se não perdoarmos não seremos perdoados), quem ama o próximo é misericordioso para com ele (e Mateus 25:31-46 é a prova cabal de que no amor está a salvação e que a única forma de fazermos alguma coisa para Deus é fazendo algo pelo próximo). Não fosse isso verdade, não poderia haver um versículo tão livre de dogmas como este:

"Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele." (1 João 4:16)

Por favor, leia novamente o versículo acima e pense em suas implicações. Agora, pensar o contrário, que a salvação está condicionada ao conhecimento da pessoa histórica de Jesus, isso sim trás uma série de problemas absurdos, como os que são retratados no vídeo. É claro que Deus não faria isso com a humanidade que ele mesmo criou! Deus não pode ser assim, semelhante a um deus tribal, como o do vídeo. Ou pode?

(Continua no próximo comentário)

Alan Capriles disse...

(continuação do meu comentário anterior)

Portanto, quando Jesus disse que Ele é o Caminho sua intenção certamente foi nos apontar o caminho que devemos seguir, ou seja a prática do amor ao próximo - maior marca de seu ministério. A palavra "caminho" tem o sentido metafórico do andar cotidiano, ou seja, nossa prática de vida. Muito antes dos discípulos serem chamados de cristãos eles eram conhecidos como "os do Caminho" pois praticavam o amor que Jesus ensinava. Textos históricos nos comprovam que eles eram conhecidos (e até criticados) pelo amor que tinham para com o próximo. Amor que tem faltado em muitos crentes hoje em dia...

Darei melhores esclarecimentos a respeito disso no artigo mais extenso e importante que já escrevi, o qual já está em fase final, devendo ficar pronto nos próximos dias. Chama-se "A Salvação Segundo Jesus Cristo".

Peço-lhe um pouco de paciência, tanto para aguardar o lançamento deste artigo, quanto para lê-lo, pois é mesmo bastante longo (e igualmente esclarecedor). Não tenho a pretensão de que neste meu breve comentário você venha concordar comigo.

Um forte abraço,
no amor de Jesus!

P.s.: O fato de que nossa salvação consiste em permanecermos no amor não significa que não devamos evangelizar. Muito pelo contrário! O amor é um caminho estreito no qual poucos tem andando, sendo Jesus o maior exemplo de amor de toda a humanidade, deixando-nos a mensagem de que, "assim como Cristo deu a sua vida por nós, devemos dar a vida pelos irmãos." (1João 3:16)

HP disse...

Pastor Alan,

Agradeço muito tua resposta. Sem dúvidas é uma corrente de interpretação interessante.

Fico aguardando ansioso teu texto, pois para mim não encaixam ainda as citações bíblicas como:

Romanos 1:18-21 A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato."

Romanos 10:13-15 Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. 14 Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? 15 E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!"

e finalmente:
"Romanos 5:12-14 Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. Porque até ao regime da lei havia pecado no mundo, mas o pecado não é levado em conta quando não há lei. Entretanto, reinou a morte desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir."


Entendo que aqueles do Velho Testamento foram justificados pela fé, como explicado em Hebreus 11. Fé na Promessa de Deus que ainda não sabiam nem entendiam, mas fé que foi personificada em Cristo.


Agradeço uma vez mais pela tua resposta e aguardo ansioso pelo teu texto. Talvez estes pontos citados por mim venham à luz no teu texto.

Grande abraço.

Anônimo disse...

Cristo disse : Eu sou o Caminho, A Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por MIM. A verdade está em Crêr Nele e aceitá-Lo como Salvador pessoal de sua alma em então, seguir os seus passos , ou seja, obediência aos seus mandamentos, principalmente a estes que são base de tudo :Amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo. Seguir o caminho da caridade, da paz, da paciência , da fé, mansidão , humildade , santificação, perdão, misericórdia , justiça etc.. Creio que deve ser isso...

Alan Capriles disse...

Prezado(a) Anônimo(a)

Caso não queira identificar-se, peço que use um pseudônimo, para que eu possa acompanhar sua linha de raciocínio nesta e em outras postagens. Fica difícil eu conversar com anônimos, porque nunca sei se o anônimo que comenta este artigo é o mesmo que comentou o anterior. Sendo assim, peço a gentileza de criar um nome qualquer e mantê-lo nos comentários, para que possamos dialogar.

Agradeço a compreensão.

Cleber Marques disse...

Alan Capriles,
Graça e Paz!

Perfeito o texto, parabéns pela gramática. Difícil encontrarmos no meio cristão algum pensador, um não alienado, pois todos que "pensam", sempre são julgados.
A massa manipuladora cristã se comporta como "juízes da lei herdada pela graça do Filho do Homem que pertence a eles". Infelizmente, se a reforma de Calvino (Lutero em minha opinião vem em segundo plano) não obteve o efeito desejado, então que continuassem a fazer as missas em latim.
Bom, é isso aí, um grande abraço e peço também licença, postarei vossa reflexão em minha página pessoal.

Novamente, graça e paz.